Os arqueólogos Joyce Marcus e Kent Flannery fizeram uma descoberta notável sobre a origem da religião ao longo de 15 anos de escavações no vale de Oaxaca, no México.

Não encontraram nenhum templo monumental, e sim sinais de uma transição crucial no comportamento religioso. O registro começa com uma simples arena para danças religiosas comunitárias feitas por caçadores-coletores por volta de 7000 a.C., passa por locais de culto aos ancestrais, surgidos após o advento do cultivo do milho, em torno de 1500 a.C., e termina em 30 d.C., com sofisticados templos com orientação astronômica de um Estado arcaico.

Essa e outras pesquisas apontam a uma nova perspectiva a respeito da religião, que busca explicar por que o comportamento religioso aparece em sociedades de todos os estágios de desenvolvimento e em todas as regiões do mundo. A religião carrega as marcas de um comportamento evoluído, o que significa que existe porque foi favorecida pela seleção natural. É universal porque está impressa em nossos circuitos neurológicos desde antes de os primeiros humanos se dispersarem a partir da África.

Para os ateus, não é agradável a ideia de que a religião evoluiu porque conferia benefícios essenciais às primeiras sociedades humanas e seus sucessores. Se a religião é necessária à vida, fica difícil apontá-la como inútil.

Para os crentes, pode parecer ameaçador pensar que a mente foi moldada para crer em deuses, pois isso pode tornar menos plausível a existência do divino.

Mas a perspectiva evolutiva da religião não necessariamente ameaça a posição central de cada lado. O favorecimento da religião pela seleção natural não comprova nem refuta a existência dos deuses. Para os crentes, se é possível aceitar que a evolução moldou o corpo humano, por que não também a mente? O que a evolução fez foi dotar as pessoas de uma predisposição genética a aprender a religião da sua comunidade, assim como há uma predisposição para a linguagem. Tanto na religião quanto na linguagem, é a cultura, e não a genética, que fornece o conteúdo do que é aprendido.

É mais fácil ver nos caçadores-coletores como a religião conferiu vantagens na luta pela sobrevivência. Seus rituais enfatizam não a teologia, mas uma intensa dança comunitária que pode varar a noite. O movimento rítmico contínuo induz a fortes sentimentos de exaltação e compromisso emocional com o grupo. Os rituais também resolvem atritos e impedem que o tecido social se esgarce.

A população humana ancestral de cerca de 50 mil anos atrás teria vivido em pequenos grupos igualitários, sem chefes. A religião servia como um governo invisível. Unia as pessoas, comprometendo-as a colocar as necessidades comunitárias acima do seu interesse próprio. Por medo da punição divina, as pessoas seguiam regras da comunidade. A religião as encorajava a dar suas vidas numa batalha contra estranhos. Grupos fortificados pela crença religiosa teriam prevalecido sobre aqueles sem fé, e os genes que induziam a mente ao ritual teriam se universalizado.

Na seleção natural, os genes que permitem ao seu portador deixar uma prole maior se tornam mais comuns. A ideia de que a seleção natural pode favorecer grupos, em vez de agir diretamente sobre indivíduos, é altamente polêmica. Embora Darwin tenha proposto essa ideia, a visão tradicional entre os biólogos é de que a seleção entre os indivíduos elimina o comportamento altruísta bem mais rapidamente do que a seleção em termos de grupos poderia favorecê-lo.

Mas a seleção por grupos conquistou recentemente dois defensores poderosos, os biólogos David Sloan Wilson e Edward Wilson, que argumentam que duas circunstâncias especiais na evolução humana recente teriam dado à seleção por grupos uma vantagem muito maior que a usual. Uma é a natureza altamente igualitária das sociedades caçadoras-coletoras, o que faz todos se comportarem de forma similar e dá aos altruístas uma chance maior de transmitir seus genes. A outra é a intensa guerra entre grupos, que fortalece a seleção em favor de comportamentos benéficos à comunidade, como o altruísmo e a religião.

A propensão a aprender a religião da própria comunidade se tornou tão implantada no circuito neurológico humano, segundo essa nova visão, que a religião foi mantida quando os caçadores-coletores começaram a se assentar em comunidades fixas, a partir de 15 mil anos atrás. Nessas sociedades hierárquicas maiores, os governantes cooptaram a religião como fonte de autoridade.

A religião é frequentemente criticada por seus excessos, ao promover perseguições e guerras, mas recebe menos crédito por sua função básica de manter o tecido moral da sociedade.

Mas talvez ela não mereça nem culpa nem crédito. Se a religião for vista como um meio de trazer coesão social, são a sociedade e seus líderes que usam tal coesão para fins bons ou ruins.

Fonte: The New York Times