Num mercado que, nesta década, dança ao ritmo de uma crise sem fim, um segmento tem conseguido soar como exceção. O nicho de cantores religiosos, sejam católicos – como os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo – ou evangélicos – como a recente grande vencedora do Grammy Latino, Soraya Moraes (foto) -, ainda comemora boas vendagens e, até o momento, índices de pirataria pequenos.

Abusando do trocadilho, o público da música cristã (rótulo usado pelo Grammy Latino para juntar católicos e evangélicos) é fiel, não comete o pecado de comprar produtos falsificados. Mas, até quando? Como Soraya conta…

– Outro dia, na Rua 25 de Março (área de comércio popular em São Paulo), eu me deparei com uma banca tocando o meu CD. Vi que eram cópias piratas. Mesmo em níveis menores, a máfia chinesa, que é terrível, já avança sobre a música evangélica – diz Soraya em entrevista ao repórter Antônio Carlos Miguel no jornal O Globo deste domingo, 30 de novembro.

O avanço dos piratas é outra prova de que o setor é rentável, e não pára de crescer. Já o triunfo de Soraya Moraes na nona edição do Grammy Latino – a cantora foi à festa americana, em Houston, onde abocanhou os troféus de Álbum de Música Cristã tanto em Língua Espanhola (com “Tengo sed de ti”) quanto em Língua Portuguesa (com “Som da chuva”), e de Canção Brasileira (por “Som da chuva”) – dá prestígio. Na terça-feira passada, Soraya e representantes de sua gravadora foram recebidos em Brasília pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira, que comentou: “A música gospel é uma expressão cultural muito grande”.

Dos três troféus da cantora gospel, o mais significativo é o de Canção Brasileira – ao qual também concorriam Vanessa da Mata & Sérgio Mendes, Dudu Falcão, Djavan e Jota Maranhão & Jorge Vercillo. Independentemente da qualidade da (insossa) balada, escrita por Soraya e seu marido e empresário, Marco Moraes, sua vitória tem a ver com a forma de votação da premiação, restrita aos membros da Academia Latina de Gravação (Laras, segundo sua sigla em inglês).

Nos últimos anos, muitos artistas e produtores brasileiros de música evangélica se inscreveram na Laras, conseguindo assim não só uma categoria própria (Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa) como peso de voto para emplacar agora uma indicada (e vencedora) na de Canção Brasileira, que, nas edições anteriores do prêmio, era exclusiva de artistas da MPB.

Ao contrário dos EUA, onde o gênero gospel tem origem nos spirituals e é um estilo identificável musicalmente, no Brasil o termo pode abarcar diferentes ritmos. Mesmo que predomine a forma da balada, usada por Soraya em “O som da chuva”, há gospel embalado por pagode, heavy metal, rap, MPB…

– O grande diferencial da música cristã e gospel é a letra, inspirada por Deus – confirma Soraya, que, iniciou a carreira num grupo de rock evangélico, Metanoya, e estreou solo em 1999, pela Gospel Records, mudando para a Line em 2004.

Fonte: O Globo Online