Cerca de 30.000 pessoas assistiram neste domingo na Praça São Pedro à cerimônia de beatificação de 498 “mártires¨ das “perseguições religiosas” da Guerra Civil espanhola (1936-1939).

Ao término da cerimônia, o Papa Bento XVI exortou os espanhóis a trabalharem pela “reconciliação e pela convivência pacífica”.

“Com suas palavras e gestos de perdão para com seus perseguidores, (os novos beatos) nos estimulam a trabalhar incansavelmente pela misericórdia, pela reconciliação e pela convivência pacífica”, disse o Papa ao término do Angelus, pronunciado da janela do Palácio Apostólico no Vaticano.

O Papa não fez alusão às circunstâncias históricas nas quais morreram os 498 novos beatos e se limitou a recordar que “nem todos estão chamados ao martírio cruel”.

As palavras do Papa tentam aplacar as polêmicas geradas em alguns setores da esquerda européia pela beatificação em massa de vítimas de um só grupo em um conflito que durou de 1936 a 1939 e que marcou profundamente a história da Europa no século XX.

Bento XVI não presidiu a cerimônia de beatificação celebrada na Praça São Pedro, embora tenha assistido ao rito do Palácio Apostólico de onde dirigiu a mensagem para os cerca de 30.000 peregrinos presentes.

As beatificações deste domingo dizem respeito a dois bispos, 24 sacerdotes, 462 religiosos, três diáconos ou seminaristas e sete leigos, a maior parte mortos em 1936, no início dos confrontos que dilaceraram a Espanha após o levantamento dos “nacionalistas” do general Francisco Franco contra o governo da Frente Popular.

Vários milhares de religiosos e religiosas espanhóis, segundo os historiadores, foram mortos por simpatizantes republicanos antes e durante a guerra civil (1936-1939) que fez mais de 500.000 mortos nos dois lados.

Após a derrota dos Republicanos, 50.000 entre eles foram executados pelas forças nacionalistas e dezenas de milhares foram presos.

A cerimônia, realizada em espanhol, ficou a cargo do cardeal português José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, representante oficial do Papa.

Nas primeiras filas estavam importantes representantes do governo, entre eles o ministro das Relações Exteriores, Miguel Angel Moratinos.

As presenças de Moratinos e de um dos autores da Lei de Memória Histórica na cerimônia no Vaticano foram consideradas “um gesto amistoso após fortes atritos” com a Igreja, segundo o jornal espanhol El País e deverá servir para pôs fim a qualquer polêmica com o governo socialista.

Jornalistas e historiadores tanto espanhóis como italianos criticaram o “caráter político” desta maior beatificação da história da Igreja católica.

O jornal on-line americano National Catholic Reporter destacou na lista o nome do religioso Gabino Olaso Zabala, que seria acusado de tortura quando missionário nas Filipinas.

A cerimônia acontece dias antes da provável aprovação, na Espanha, da Lei de Memória Histórica que reabilita todas as vítimas da Guerra Civil espanhola e da posterior repressão da ditadura imposta pelo general Francisco Franco.

Depois de chegar ao governo, Zapatero, neto de um capitão republicano fuzilado pelas tropas de Franco, despertou a esperança das associações das vítimas do franquismo e prometeu aos eleitores uma grande lei sobre o assunto. Após meses de negociações delicadas, seu projeto de lei descontenta ao mesmo tempo aos conservadores do Partido Popular (PP) e aos separatistas da esquerda catalã.

No dia 15 de outubro, Zapatero exprimiu “profundo respeito” pela iniciativa da Igreja. Mas pediu, em nome da “maturidade” democrática, o mesmo respeito por sua lei.

O pontificado de João Paulo II, morto em abril de 2005, já havia conhecido onze séries de beatificações de “mártires” da guerra civil espanhola, num total de 471 vítimas.

A cerimônia deste domingo anula a regra desejada, no entanto, por Bento XVI, segundo a qual as beatificações devam ser proclamadas nos países dos interessados.

Fonte: AFP