“Ele provou com fatos, grandes narcotraficantes se ajoelharam diante de seu túmulo, tão grande é o poder que lhes deu”, é o que afirma um dito popular mexicano sobre o santo não reconhecido Jesús Malverde, uma das tantas crenças pagãs que o Papa Bento XVI enfrenta na América Latina.

A lenda diz que o primeiro milagre foi concedido a um leiteiro no início de 1900, em sua terra natal, a cidade mexicana de Culiacán (oeste), no estado de Sinaloa. Na década de 60, a região registrou um forte crescimento do narcotráfico, até se tornar reduto do cartel de drogas do poderoso e foragido chefão Joaquín “El Chapo” Guzmán.

“Tem seguidores até nos Estados Unidos. Lá, o busto de Malverde é vendido a 1.000 dólares”, conta o guardião da capela de Culiacán, Jesús González, acrescentando que até “membros da máfia italiana ‘la Cosa Nostra’ vieram lhe pedir favores”.

Do lado de fora da capela, González e outros tantos vendem todo tipo de objeto com a imagem de Malverde, de sandálias e pomadas a “águas-bentas” em frascos multicolores.

Segundo a lenda, Jesús Juárez era um “bandoleiro generoso com os pobres, que roubava os ricos, se escondia no mato para assaltar nas estradas, daí o apelido de Malverde”, conta Leonor Parra, de 52 anos, que garante ter sido curada por ele de tinha (doença na pele do crânio), aos 15 anos de idade.

“Malverde não surgiu como um santo dos narcotraficantes, mas com o tempo começaram a crer nele, e eram vistos em sua capela levando presentes de agradecimento”, explicou à AFP o especialista em crenças místicas populares José Manuel Valenzuela, do Colégio de la Frontera Norte.

Trata-se de um culto que “se estendeu seguindo a rota do narcotráfico e, por isso, há capelas em Tijuana, Califórnia, Arizona e Colômbia e fiéis até na América Central”, completou.

A capela está abarrotada de velas, uma parte do teto, coberta de dólares, e há inclusive camarões no formol, levados por pescadores. As imagens de Malverde dividem espaço com as de santos reconhecidos pela Igreja Católica, como São Judas Tadeu ou a Virgem de Guadalupe.

“Eles são como interlocutores entre Malverde e Deus. É uma tradição mista estendida na América Latina e, como outras similares, a Igreja Católica não conseguiu entender. Dificilmente, Ratzinger (o Papa Bento XVI) terá sucesso em fazer oposição a estes cultos pagãos”, analisou Valenzuela.

Fonte: AFP