Um pastor iraquiano foi preso sob acusação de seqüestro e mantido preso por 30 dias na região do Curdistão, em abril. Escrevendo diretamente de Dohuk, que fica 400 quilômetros ao norte de Bagdá, o pastor Abdul Kareem Yacob, de 49 anos, contou como a polícia secreta curda o prendeu, o libertou e o deteve novamente, antes que ele fosse solto sob fiança no dia 28 de abril.

O advogado de Abdul Yacob, Akram al-Najar, disse ao Compass que as tentativas de seqüestro na região são comuns, mas não têm nada a ver com o pastor. Ele não acredita que o tribunal tenha motivos para condenar o cliente dele. “Não foi mencionado no tribunal, mas Yacob está sendo processado porque ele tem atividades na igreja”, disse al-Najar.

Abdul Yacob contou que 48 horas depois de ser detido, a polícia secreta insistiu durante o interrogatório: “Diga-nos por que nós o trouxemos aqui? “.

A abordagem incomum

No retorno para casa, depois de pegar a esposa no trabalho, Yacob contou que encontrou dois homens esperando na porta da casa dele. Eles educadamente informaram que eram da polícia secreta e que ele precisava acompanhá-los, sem oferecer nenhuma explicação.

O pastor disse que ele não pensou que este pedido fosse incomum. Ele já havia sido chamado em outras ocasiões pelo serviço de segurança por ser pastor evangélico de uma minúscula comunidade num país de ampla maioria-muçulmana.

Dentre os cristãos, os evangélicos são ainda mais escassos, uma vez que há mais católicos caldeus e os ortodoxos assírios.

Depois de passar 48 horas na cela de uma prisão, sem saber por que estava preso, Yacob começou a pensar sobre os motivos escondidos por trás de sua detenção.

“Eu pensei que pudesse estar lá por orar e pregar o evangelho aos muçulmanos e aos yezidiz (uma minoria religiosa do norte do Iraque)”, disse o pastor.

“Poucos dias antes eu havia sido preso, nós distribuímos milhares de folhetos cristãos durante o Newroz” (que é a celebração do ano novo curdo, quando as famílias fazem um piquenique típico nas montanhas).

Acusação de seqüestro

Durante ao interrogatório inicial de Yacob, no dia 1 de abril, ficou claro que polícia suspeitava que ele estivesse envolvido no seqüestro de uma criança. O pai da vítima, um ex-cristão assírio, trabalhou como guarda em um ministério cristão e Yacob havia visitado a casa dele dois anos atrás, como parte de um programa para entregar comida a famílias necessitadas.

“Você realmente diz que o pastor Abdul Kareem Yacob ofereceu dinheiro para comprar seu filho?” , disseram os oficiais aos pais da criança desaparecida durante um interrogatório realizado frente a frente com o pastor Yacob.

De acordo com o pastor, os pais disseram que sim. Mas quando Yacob desafiou os pais da criança a provarem as acusações, o pai disse que desistia e afirmou ao oficial que ele era inocente.

Apesar da mudança da história, Yacob disse que ele passou outros 15 dias na prisão antes de ser libertado finalmente sob fiança no dia 17 de abril. Mas no dia seguinte, Yacob teve de ir novamente à delegacia para assinar uns papéis.

Pais retiram testemunho, mas surge outra acusação

Quando ele chegou, foi imediatamente levado para uma audiência no tribunal, onde o tio da criança desaparecida testemunhou contra ele, dizendo que a mãe da criança havia lhe contado que o pastor tinha pedido para comprar o filho dela.

Ainda sob custódia, Yacob disse que o diretor geral da polícia secreta o chamou ao escritório dele e o advertiu contando que havia reclamações contra ele. “Os pais e outros homens religiosos estão reclamando porque você prega o evangelho aos muçulmanos, assírios e yezidis.”

O pastor disse que o diretor se chateou com ele e ameaçou destruir a vida dele antes de ordenar que ele fosse devolvido à cela.

Durante a terceira audiência no tribunal, no dia 23 de abril, Yacob disse que o pai da criança desaparecida na verdade suplicou ao juiz pela liberdade do pastor, dizendo que ele era inocente. Yacob foi libertado novamente sob fiança no dia 28 de abril e contou ao Compass que desde então não teve mais nenhum problema.

Além do caso

O membro da igreja doméstica de Yacob disse que a detenção do pastor foi mais do que a alegação de que seqüestro. “Eles há pouco usaram o caso para impedir o evangelismo de pessoas”, disse o membro da igreja. “Durante a investigação eles mencionaram coisas que não faziam parte do caso.”

Outro pastor iraquiano de Dohuk contou ao Compass que a detenção de Yacob pode ter sido causada pela preocupação com a segurança dele. O pastor Bahzad Ibrahim Mizory disse que antes do Newroz, forças de segurança lhe pediram especificamente para não distribuir caixas de presentes para a sua própria segurança, por causa do risco iminente de ataques terroristas.

“Nós estamos perto de Mosul, por isso durante o Newroz os terroristas podiam tentar ataques à bomba “, disse o pastor. Mizori disse que funcionários do governo se chatearam com ele quando ouviram relatos de que Yacob tinha distribuído presentes durante o feriado.

Fonte: Portas Abertas