Protestos contra a construção de um templo perto do local do 11 de Setembro repercutem no mundo islâmico. Especialistas dizem que episódio pode atestar o que muitos interpretam como “guerra” entre os americanos e o Islã.

Já usada como arma pela oposição na política interna dos EUA, a controvérsia sobre a construção de uma mesquita a dois quarteirões do local do ataque do 11 de Setembro, em Nova York, está afetando também suas relações exteriores.

No momento em que a popularidade de Barack Obama cai sem parar no mundo islâmico, as atenções do Oriente Médio e do mundo árabe começam a se voltar para as reações iradas de americanos contrários ao projeto.

A ideia é construir um centro cultural, esportivo e religioso islâmico em uma área que ainda toca sensivelmente os americanos, perto de onde 3.000 pessoas morreram nas mãos de extremistas islâmicos. A construção é condenada pela maioria dos nova-iorquinos, mas foi aprovada pela prefeitura.

Republicanos compararam a mesquita à instalação de um símbolo nazista perto de um museu do Holocausto. Até o líder democrata do Senado, Harry Reid, disse que os muçulmanos deveriam procurar outro lugar.

Obama acabou tocando no assunto na semana passada. Disse que muçulmanos têm o direito constitucional à mesquita, mas evitou opinar sobre se é aconselhável fazer isso no local planejado.

“Já vemos um impacto negativo”, disse Ahmed Rehab, porta-voz do Conselho de Relações Americanas-Islâmicas. “Está se reforçando a impressão de que temos um problema com o Islã.”

Gary Sick, ex-membro do Conselho de Segurança Nacional dos EUA e pesquisador da Universidade Columbia, em Nova York, concorda.

“O que vemos no mundo árabe é a confirmação do que a maioria já pensa, que os EUA estão em guerra contra o Islã”, disse à Folha. “É uma noção muito popular e muito usada por extremistas.”

[b]ATENÇÃO[/b]

Na imprensa estrangeira, a atenção ao tema é visível.

Jamil Mroue, publisher do “Daily Star”, de Beirute, escreveu editorial elogiando a interferência de Obama. O “Al Watan” (Síria) disse crer que Obama entrou no assunto para reconquistar apoio de muçulmanos, pois sabe que estão “decepcionados com promessas não cumpridas”.

Lideranças muçulmanas também opinaram. “Temos de construir em todos os lugares”, disse Mahmoud al Zahar, do Hamas, grupo radical palestino considerado terrorista pelos EUA.

Apesar do dano, analistas não veem como certo um impacto duradouro. Para Sick, “as pessoas [no Oriente Médio] são sofisticadas, sabem do quanto o 11 de Setembro é um tema sensível nos EUA.”

Ele afirma que o impacto da controvérsia atual é pontual e que o que realmente importa para as relações dos EUA com o mundo árabe é fazer avançar um acordo entre Israel e os palestinos.

Já Rehab disse que vai depender das ações do governo. “Todos estão observando e isso terá um impacto no legado de Obama. Como ele lidará com a mesquita é algo que será lembrado daqui para frente”, disse.

[b]Filha de brasileira é convocada para ajudar no caso[/b]

No centro do furacão político sobre a polêmica mesquita do Ground Zero está Fatima Shama, filha de mãe brasileira católica e pai palestino muçulmano e importante assessora do prefeito Michael Bloomberg.

Como comissária de Assuntos de Imigrantes da Prefeitura de Nova York desde 2009, Shama, 37, foi chamada por Bloomberg há algumas semanas para opinar.

A defesa do projeto foi dada em termos pessoais: ela tem três filhos, mas não há lugar em Manhattan onde eles possam dividir a fé muçulmana com seus amigos judeus e cristãos.

Shama nasceu na região do Bronx, fala cinco línguas e já foi também conselheira de políticas educacionais do vice-prefeito de Nova York.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]