Um informante da polícia permaneceu quatro anos trabalhando disfarçado no rancho de uma seita cujos membros praticavam a poligamia no Texas, informou a polícia local nesta quinta-feira (10).

Segundo o xerife do condado de Schleicher, David Doran, quando as autoridades chegaram ao local, localizado a sudoeste de Dallas (Texas), de onde mais de 400 crianças e jovens foram retiradas, cerca de 60 homens rezavam e choravam no prédio principal do local.

Doran afirmou, em entrevista à Associated Press, que repassou informações do dia-a-dia da seita durante quatro anos à polícia.

O xerife não revelou se estava infiltrado no rancho do Texas –invadido na semana passada– ou em outra propriedade da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (FLDS, na sigla em inglês).

A igreja é uma seita separada dos mórmons que pratica a poligamia e casamento com menores.

De acordo com o xerife Doran, ele ficou infiltrado entre os membros da seita até descobrir como funcionavam as práticas de casamento forçado e a entrega de garotas –na maioria das vezes crianças– para manter relações sexuais com velhos.

“Foi uma ferramenta para aprender sobre as práticas do grupo”, disse. “Estamos abismados com o que este grupo foi capaz de fazer.”

Casamento

Meninas de 13 anos eram “espiritualmente casadas” e forçadas a manter relações “com o propósito de ter filhos”, segundo uma investigadora dos Serviços de Família e Proteção do Departamento do Texas.

Cerca de 400 meninas grávidas ou que haviam dado à luz recentemente foram descobertas no complexo após a denúncia feita por uma jovem de 16 anos.

A garota diz ter sido vítima de abuso sexual e físico e havia dado à luz um filho de seu marido, de 50 anos.

“Existe um padrão dominante, uma prática de doutrinar e desposar meninas menores que aceitam casamentos espirituais com membros adultos da fazenda YFZ (Yearn For Zion) e que acabam sendo abusadas sexualmente”, afirmou o investigador Lynn McFadden à Justiça.

“Da mesma forma, meninos menores que moravam na fazenda YFZ, depois de se tornarem adultos, são espiritualmente casados com meninas e se iniciam em relações sexuais com elas, e como resultado eles se transformam em agressores sexuais”, disse o investigador.

As crianças estão agora sob custódia das autoridades estaduais em San Angelo, junto com 130 mulheres, em sua maioria mães, que abandonaram o lugar.

Invasão

Oficiais dos Serviços de Família e Proteção do Departamento do Texas chegaram ao local na quinta-feira (3) com receio de que enfrentariam resistência armada. Autoridades haviam pedido dias antes acesso à fazenda, mas tiveram de entrar à força com um mandado de busca.

De acordo com o jornal “Dallas News”, oficiais se depararam com duas realidades distintas na fazenda. Por um lado, viram um profundo conservadorismo, com meninas usando vestidos longos e tendo aulas de disciplinas e boas maneiras.

No entanto, segundo o jornal, crianças eram trancadas em armários e privadas de comida, ao mesmo tempo em que garotas de 13 anos eram forçadas a ter relações.

As centenas de crianças e jovens retirados do local estão sob custódia de autoridades estaduais em San Angelo ao lado de 130 mulheres –em sua maioria mães– que abandonaram a fazenda.

Investigadores encontram sinais de abusos sistemáticos em seita do Texas

As autoridades norte-americanas ainda investigavam nesta quinta-feira uma seita polígama no Texas (sul), de onde 400 crianças foram retiradas e cujo templo abrigava uma cama para as relações sexuais entre homens mais velhos e suas “esposas espirituais” menores de idade.

Quatrocentas crianças foram retiradas em uma semana deste rancho do Texas, e 130 mulheres decidiram deixar a propriedade cujos membros pertenciam à Igreja Fundamentalista dos Santos dos Últimos Dias (FLDS, em inglês), uma corrente fundamentalista dissidente da Igreja Oficial Mórmon.

As redes de televisão exibiram imagens de dezenas de mulheres e meninas, usando vestidos longos de uma só cor e com cabelos trançados, entrando com crianças nos carros que as retiravam da propriedade. Este rancho de 690 hectares conta com vários alojamentos e em seu centro fica localizado o templo da seita, uma grande construção de alvenaria branca retangular.

De acordo com documentos judiciais divulgados na quarta-feira, este templo “continha uma zona onde se encontrava uma cama onde homens de mais de 17 anos tinham relações sexuais com mulheres de menos de 17 anos”.

As autoridades afirmam que as crianças da seita eram condicionadas a aceitar a se relacionar com homens a partir da puberdade. Adolescentes de apenas 13 anos eram “espiritualmente casadas” e forçadas a manter relações sexuais “com o objetivo de ter filhos”.

As crianças eram também punidas com agressões físicas, e eram mantidas doentes e sem alimentação durante o período de punição.

Com base no documento divulgado na quarta-feira, os investigadores também descobriram que um dos membros da seita tinha 20 esposas.

Algumas meninas grávidas ou que haviam dado à luz recentemente foram encontradas no rancho quando a Polícia chegou após o pedido de ajuda de uma delas na quinta-feira passada.

Com 16 anos, uma menina afirmou ter ficado grávida apenas oito meses depois de ter dado à luz uma criança nascida de uma relação com um homem de 49 anos, que a agredia severamente.

Ela conseguiu dar o alerte ligando várias vezes para um centro local de ajuda às vítimas de violência familiar com um telefone celular emprestado, explicando com voz baixa que havia começado a sofrer abusos sexuais pouco tempo depois de sua chegada ao rancho há três anos.

A menina explicou que não tinha mais contato com seus parentes, mas que sabia que eles tinham a intenção de enviar sua irmã de 15 anos para o rancho.

A Igreja dos Santos dos Últimos Dias, a principal corrente da Igreja Mórmon, renunciou à poligamia há mais de um século e excomungou os membros que a praticavam. Ela reprovou a FLDS, com sede em Hildale e na Cidade do Colorado, duas cidades situadas na fronteira entre Utah (oeste) e Arizona (sudoeste).

A FLDS é dirigida por Warren Jeffs, um polígamo preso em 2006 próximo a Las Vegas por cumplicidade em um estupro e que cumpre desde então uma pena de prisão perpétua. Ele também foi alvo de processos également federais em Arizona e Utah.

Durante seu julgamento no ano passado, uma menina identificada como “Jane Doe IV” contou chorando como o guru tinha obrigado ela a se casar em 2001 aos 14 anos com um homem mais velho. Ele havia ordenado a ela que “se multiplicasse e enchesse a terra de crianças dedicadas ao sacerdócio”.

Quando ela foi a Jeffs dizer que detestava manter relações com seu marido, ele a obrigou a “entrar e de fazer o que aquele lhe dissesse”.

A justiça deve se pronunciar no dia 17 de abril para decidir se as crianças da seita devem ser distanciadas de maneira permanente de seus pais.

Fonte: Folha Online e AFP