Muitos líderes religiosos cristãos ficaram preocupados quando foram designados por suas igrejas para passar a noite em internatos e casas de muçulmanos de Ambon, Ilhas Molucas, na Indonésia.

Eles ainda são perseguidos pelas assustadoras imagens de quando a área foi sacudida por conflitos religiosos em 1999. A violência, que perdurou até 2002, deixou milhares de muçulmanos e cristãos mortos, e outros milhares foram obrigados a fugir de suas casas.

A Igreja Protestante Moluca (GPM, sigla em bahasa) instruiu 40 líderes a passarem a noite em outras comunidades religiosas. Isso faz parte do chamado programa de pernoite, criado pelo sínodo da GPM, que visa aumentar a aptidão deles como liderança.

Como parte do programa, os participantes ficam em internatos islâmicos, monastérios católicos e casas de muçulmanos.

Traumatizados pelo conflito, alguns sugeriram ao sínodo que o período de convívio fosse da manhã até o começo da noite.

Entretanto, o pastor Jacky Manuputty e o clérigo muçulmano Ustad Abidin Wakano, do Conselho Inter-religioso Moluca, que começou o programa, convenceram os participantes de que ficar com uma comunidade de outra religião era algo que eles não deviam mais temer.

“É inútil falar sobre pluralismo, ganhar confiança e manter diálogos inter-religiosos se nos falta segurança para quebrar as barreiras da diferença religiosa”, disse Jacky.

“Quando a condição em Ambon voltou ao normal, as pessoas apenas interagiam em lugares públicos. Elas nunca haviam experimentado a sensação de passar a noite na casa de pessoas de outra fé. Iniciamos o programa de pernoite para quebrar o gelo e acabar com a sensação de suspeitas”, ele disse.

Entretanto, depois de passar a noite em uma casa muçulmana ou católica, os líderes não ficaram satisfeitos.

“Uma noite é muito curta e não é o suficiente”, disse o pastor Douglas Aponno, que dormiu no internato de Ahuru, liderado por H. Thaib.

Ele disse que, a princípio, se sentiu inseguro porque durante o conflito, Ahuru foi palco de batalhas ferozes, nas quais mais de 500 casas e templos foram destruídos em incêndios.

Ele disse que imaginava coisas estranhas sobre o internato antes de ir para lá, mas no momento em que pôs os pés na escola e conversou com as pessoas do lugar, ele sentiu uma atmosfera cordial e seu senso de desconfiança desapareceu.

Desejo de diálogo

Wenno, a pastora que ficou na casa da ativista muçulmana Mariam Sangadji, em Kebun Cengkih, Batumerah, estava preocupada no começo porque Batumerah é uma área dominada por muçulmanos.

Mas ela se acalmou quando soube que Mariam tinha muitos amigos cristãos que frequentemente a visitavam.

“Mariam tem um bom relacionamento com muitos ativistas cristãos. A atmosfera agradável na casa dela me acalmou”, ela comentou.

Os clérigos que ficaram na comunidade muçulmana disseram que os muçulmanos de Ambon têm o mesmo desejo de dialogar com a comunidade cristã. Eles convidaram os líderes a ficar com eles de novo.

O líder do sínodo da GPM, João Ruhulessin, disse que os líderes religiosos têm um papel importante na relação entre as religiões.

Ele disse que mantém uma boa relação com o líder do Conselho de Ulemás Indonésios em Ambon e com o bispo da diocese de Amboina, mas sente que diálogos fundamentais ainda são limitados.

João ficou impressionado com as tentativas dos clérigos em construir um contato direto com as comunidades cristãs e muçulmanas. Ele espera essa experiência seja usada para trazer o diálogo ao nível congregacional.

Fonte: Portas Abertas