O encontro religioso em que pastores da Assembleia de Deus pediram orações pela eleição de José Serra (PSDB) e o saudaram como “futuro presidente”, no sábado, em Santa Catarina, recebeu dinheiro de administrações do PSDB. A ONG Gideões Missionários da Última Hora, negou que o patrocínio tenha influenciado o convite ao pré-candidato´tucano.

Juntos, o governo de Santa Catarina e a Prefeitura de Camboriú (84 km de Florianópolis), ambos administrados por correligionários de Serra, destinaram R$ 540 mil para a realização do 28º Congresso Internacional de Missões.

O patrocínio das administrações tucanas representou dois terços dos R$ 800 mil orçados para o encontro -que, segundo os organizadores, reuniu 160 mil pessoas em dez dias.

O governador tucano Leonel Pavan repassou R$ 300 mil ao evento através de um fundo de fomento ao turismo do Estado. Também convidado a discursar, Pavan, que tenta viabilizar sua candidatura à reeleição em Santa Catarina, foi aplaudido no sábado quando anunciou o repasse feito pelo governo do Estado à organização do congresso evangélico.

A prefeita de Camboriú, Luzia Coppi (PSDB), bancou R$ 240 mil dos gastos do encontro religioso. A administração custeou instalação de banheiros químicos, climatização do ginásio, aluguel de cadeiras e propagandas na mídia local. Além disso, o município arcará com a despesa de energia elétrica resultante do evento religioso.

Governo e prefeitura negam que o fato de Pavan e Coppi serem do PSDB tenha relação com a liberação de dinheiro público (leia texto abaixo).

Promovido pela ONG (organização não governamental) Gideões Missionários, que é ligada à igreja pentecostal Assembleia de Deus, o encontro reservou ao pré-candidato do PSDB à Presidência um tratamento de convidado de honra.

No sábado à noite, Serra falou para mais de 10 mil pessoas que lotaram um ginásio em Camboriú -a PM não fez estimativa sobre o número de participantes no evento.

Seu discurso de 12 minutos foi replicado em telões do lado de fora do evento -onde uma multidão se aglomerava- e transmitido para um pool de rádios pelo país e até para o exterior controladas pela Assembleia de Deus ou que mantêm programação evangélica.

Segundo a organização, 180 emissoras evangélicas transmitiram a fala de Serra.

Citando a Bíblia, o tucano pediu aos religiosos que rezassem para que ele tivesse “sabedoria para enfrentar as lutas e desafios daqui por diante”, mas não pediu votos abertamente.

Pastores presentes ao ato foram mais explícitos e trataram o pré-candidato várias vezes como “futuro presidente”. Um deles conclamou os fiéis a orar pela eleição de Serra para a Presidência. “Esse povo não só ora como vota, haverá um rebuliço no país”, disse o pastor Reuel Bernardino, no evento.

A aparição de Serra diante do público evangélico ocorreu no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a pré-candidata Dilma Rousseff (PT) foram a festas do 1º de Maio promovidas por centrais sindicais em São Paulo com patrocínio de estatais federais -o que foi criticado pela oposição como uso da máquina na pré-campanha da petista.

Indagado sobre as manifestações de apoio dos pastores na noite de sábado, o pré-candidato foi lacônico: “Só faltaria eu dizer que não estou de acordo. O contrário. Todos os votos positivos eu acolho”.

Muito assediado por fieis da igreja pentecostal que gritavam seu nome e queriam fotografá-lo quando deixava o congresso, Serra ergueu os dois braços e fez o “V” de vitória.
O convite a Serra partiu do pastor Everaldo Pereira, presidente do PSC e um dos líderes da Assembleia de Deus. Da base lulista no Congresso, a sigla deverá apoiar o tucano neste ano.

Verba não influenciou convite a tucano, diz ONG

A ONG Gideões Missionários da Última Hora, que promoveu o 28º Congresso Internacional de Missões, negou que o patrocínio que recebeu de administrações tucanas tenha influenciado o convite ao pré-candidato tucano José Serra para discursar no evento.

A entidade, dirigida por pastores da Assembleia de Deus, afirmou ter convidado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e as pré-candidatas à Presidência Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV), que é evangélica. “Se a Dilma tivesse vindo, teria sido tratada da mesma forma. Os pastores pediriam orações para o sucesso dela”, disse Calebe Moreno, designado pela organização para responder às perguntas da Folha.

Ele afirmou que a senadora Ideli Salvatti (PT), pré-candidata ao governo catarinense, foi ao evento como representante de Lula. Indagado sobre as referências a “futuro presidente” feitas a Serra no evento, o porta-voz da ONG declarou que foram “manifestações pessoais” dos pastores e que a igreja e a ONG não definiram apoio a nenhuma pré-candidatura.

A assessoria de imprensa de Serra informou que o ex-governador de São Paulo participou do evento a convite dos missionários e que, se houve repasse de dinheiro das administrações tucanas para a realização do evento, ele não sabia.

Por meio de sua assessoria, o governador de Santa Catarina, Leonel Pavan (PSDB), argumentou que o governo patrocina o encontro em Camboriú desde 2003.

De acordo com a assessoria, o governador “não tinha como evitar as manifestações” dos pastores no encontro.

Já o secretário de Administração da Prefeitura de Camboriú, John Lenon Teodoro, o repasse foi autorizado pela Câmara Municipal e não tem relação com o fato de Serra e a prefeita serem do mesmo partido. Segundo o secretário, o evento é importante para o município, pois o turismo evangélico é fonte de renda.

Luciano Zica, coordenador da agenda de Marina Silva na pré-campanha, disse que a senadora licenciada não foi convidada para o encontro realizado em Camboriú. A Folha não localizou a assessoria da pré-campanha de Dilma para confirmar se ela foi convidada para o evento.

Fonte: Folha de São Paulo