Hoje, um mês após a tragédia, as causas que levaram o Airbus A320 da TAM a provocar o maior acidente da aviação nacional ainda não foram esclarecidas. Representantes de cinco religiões tentam, à luz de suas doutrinas, explicar o motivo e as conseqüências de uma tragédia como esta.

O avião com 187 pessoas a bordo pousa, mas não perde velocidade. Em poucos segundos, atravessa a pista principal do Aeroporto de Congonhas, passa por cima de uma avenida e bate contra um prédio na Zona Sul de São Paulo, atingindo outras 12 pessoas.

Em um momento de grande comoção nacional, muitos procuram explicações, além das práticas, para tentar entender o que causa um acidente dessas proporções.

Islâmicos

Para o xeque Jihad Hassan, vice-presidente da Assembléia Mundial da Juventude Islâmica (Wamy), “tudo que nos acontece, de bom ou de ruim, é um teste para nós. Se você é uma pessoa rica, a riqueza é um teste”.

Segundo Jihad Hassan, o teste ocorreria para “ver se nos mantemos fiéis a Deus”. “O Alcorão diz que apareceu a corrupção na terra e nos mares por conta daquilo que a mão do ser humano praticou. Tudo que acontece de ruim na vida é porque permitimos que aconteça.”

Pelo raciocínio do xeque, a sociedade brasileira permitiu que a tragédia com o vôo JJ 3054 da TAM ocorresse já que foi omissa ao mau trabalho de administradores e governantes. “É um castigo para a sociedade, porque ela deixou isso acontecer e não cobrou (dos responsáveis).”

Ele explica também que, individualmente, para cada uma das vítimas a morte pode ter uma faceta. “Para alguns pode ser um castigo, para outros, pode ser uma forma de Deus purificá-los.”

Para o xeque, o acidente pode ser um sinal preocupante. “Segundo o profeta Mohamed, um dos sinais do fim do mundo é a banalização da vida e da morte. As pessoas não se comovem mais com uma ou duas mortes, só vão se comover com um número grande”.

Católicos

Arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer acredita que a fé ajuda a encontrar respostas “na medida em que se entende e sente de que Deus é fiel”.

“A fé em Deus ajuda a encontrar respostas onde talvez humanamente não achemos respostas. Primeiramente, a firme convicção de que Deus não é culpado disso. Deus não quer isso, Deus não quer a tragédia e o sofrimento para nós”, diz.

Segundo o arcebispo, de toda essa tragédia pode nascer algo bom. “Pode nascer, como nós vimos, iniciativas de solidariedade. E a busca de pessoas de buscar uma nova consciência da realidade. O trágico pode ter também algum fruto bom”. Além disso, ainda de acordo com Scherer, a vida dessas pessoas não estaria perdida porque, para os católicos, há a vida eterna, onde Deus reserva algo melhor.

Mesmo assim, o arcebispo ressalta: “nem por isso o trágico é bem vindo”.

Evangélicos

Há semelhança entre a explicação do arcebispo de São Paulo e a do reverendo Elias de Andrade Pinto, pastor da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo. Para o evagélico, existem fatos que são da vontade de Deus e outros que são resultados das ações humanas. “Falha da condição humana, descuido, junção de condições desfavoráveis à segurança. Tudo isso somado formou a situação para o acidente. Certamente não foi a vontade de Deus”, afirma o reverendo.

Apesar de não considerar a tragédia uma vontade divina, o pastor acredita que, por outro lado, ela coloca em evidência uma certa intervenção divina quando se percebe que o estrago causado no acidente poderia ter sido ainda maior.

“Reflexões foram feitas por especialistas que nos chamaram a atenção. Se o avião estivesse mais veloz teria atingido o prédio atrás do da TAM, matando mais pessoas. Se tivesse caído alguns metros mais à esquerda poderia ter atingido o prédio de Congonhas. E se tivesse menos velocidade poderia ter caído no meio da avenida (Washington Luis)”, argumenta.

O acidente, de acordo com o religioso, colocou em cheque a falta de segurança no transporte aéreo nacional. “É preciso que sejam tomadas medidas para que seja novamente possível voar nos céus brasileiros”, diz.

O reverendo conta ainda que o acidente com o Airbus da TAM tocou de forma profunda a comunidade porque no avião também estavam evangélicos.

“Primeiro de tudo é uma tragédia que causou uma dor profunda em todos nós. Nós nos sentimos também tocados pelos efeitos da dor que as famílias sentiram. Poderia ser qualquer um de nós. Aliás, foi. Uma das aeromoças era luterana, o deputado do PSDB era luterano. Um dos passageiros era da Assembléia de Deus”.

Espíritas

“O Evangelho diz que não cai uma folha seca de uma árvore sem a intervenção divina”, afirma Pedro Camilo de Figueirêdo Neto, coordenador do departamento doutrinário do Núcleo Espírita Telles de Menezes.

Para ele, na maioria das vezes,as grandes catástrofes e tragédias carregam sempre uma marca muito forte que se explica pelo princípio da reencarnação. “Não é propriamente um castigo de Deus, mas a necessidade resgatar e solucionar coletivamente alguns problemas do passado”, conta. E acrescenta: “isso não significa que todas elas erraram juntas em outras existências, mas que cometeram erros semelhantes”.

Pedro Camilo acredita que entre os sinais que mostram esse “destino” das pessoas envolvidas na tragédia estão os passageiros que deveriam estar no avião, mas cancelaram o vôo ou, ao contrário, não estavam, mas adiantaram a passagem e acabaram entrando na aeronave.

O espírita diz, porém, que não se pode esquecer que existem falhas humanas que provocaram o acidente e que elas precisam ser investigadas e devidamente punidas. Mas até essas falhas seriam necessárias para o cumprimento da “lei divina”. “É preciso ver o sofrimento não como um castigo divino, mas como um fato natural que surge da necessidade do aprendizado. A dor funciona como catalisadora do processo evolutivo do espírito.”

Judeus

Da linha considerada “mais liberal” dentro do judaísmo, o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista, acredita que tragédias como essa nos colocam frente a frente com a “ignorância que temos sobre os caminhos de Deus”. “A verdade é que a gente não tem essa capacidade de entender o porquê. Eu não acho que Ele fez, que Ele causou, mas Ele poderia ter evitado. Eu acho que um Deus que operou e opera tantos milagres poderia ter feito mais um. O porque Ele não fez, eu não sei, não entendo.”

Entretanto, apesar do choque pela percepção dessa ignorância humana, a tragédia seria também responsável por despertar a capacidade que temos de nos solidarizar. “Seriam as duas faces da tragédia. É nos tempos de tragédia que o homem tem a capacidade de evidenciar todo o apoio espiritual, físico, e demonstrar sua insatisfação para evitar que fatos assim voltem a se repetir.”

O rabino afirma aos parentes que ficaram e sofrem pelas mortes que o amor dessas pessoas que deixaram o plano vai persistir. “A gente acredita em vida após a morte e acha que ela (a morte) é uma vírgula, uma vírgula difícil, dolorida, mas é uma vírgula, e não um ponto final. Esperamos que essas pessoas consigam aos poucos descobrir uma nova forma de conviver com seus parentes porque o amor resiste à morte.”

Fonte: G1