Criada há 2 anos em Goiás, a Igreja do Trance Divino, reúne 3.000 em festas. Uma das possíveis definições da ITD, como é chamada por “devotos”, é a busca da elevação espiritual pela dança de música trance.

Misture: Jesus Cristo sorridente pilotando uma festa, calendário maia, críticas à destruição do meio ambiente, deboche sobre o uso de drogas em raves, crença absoluta em discos voadores e defesa inconteste do prazer feminino no sexo numa cidade do interior de Goiás, capital esotérica do país na Chapada dos Veadeiros.

Aumente o volume da música eletrônica e terá uma leve idéia do que seria a Igreja do Trance Divino. Sim, porque a melhor definição será mesmo a sua. Os fundadores se recusam a exercer essa tarefa.

Chamada de ITD pelos poucos que se assumem como adeptos, ou “devotos”, a seita nasceu há dois anos em Alto Paraíso, a 440 km de Goiânia. Chega a reunir 3.000 pessoas em festas mensais, mas cerca de dez em reuniões semanais. Numa das possíveis definições, defende a elevação espiritual pela dança de música trance.

Os fundadores, auto-intitulados “pastor” Veet Prayas, 32, e “profeta” Gauthana, 29, desde então tentam colar o nome da igreja às festas. Os dois dizem levar a coisa a sério. Pedem doações, pois não há dízimo. Conduzem cultos “a qualquer dia, qualquer hora” na casa da “ministra da fé” Kuyana, 42.

Segundo os próprios, os eventos se resumem a “bater os calcanhares no chão” e vivenciar a música. “O importante do trance é a experiência, e não alguma idéia por trás”, diz a “ministra”, longo decote, taróloga, corte de cabelo estilo recruta.

Coisa séria ou não, a denominação veio a calhar. Afastou, ao menos momentaneamente, a suspeita de uso de drogas, como a que levou a Polícia Civil de Goiás a prender 45 pessoas em 2005 numa festa na região.

Tranceísmo

A história começou quando o “pastor” Veet Prayas via o papa João Paulo 2º na TV. Ele julga ter ouvido o pontífice balbuciar “Juju é Jha”, o que viu como senha para o nascimento da ITD.

“Juju é Jesus, que desceu da cruz e foi bombar. Não tem nada a ver cultuar a imagem de sofrimento, de alguém pregado na cruz”, diz Prayas, rabo de cavalo, servidor público, DJ.

A ITD seria um vértice do tranceísmo, religião em que as batidas do trance estimulariam o DNA e o movimento da dança levariam ao estado de “no mind”, ou mente vazia. O nirvana seria atingido nas raves.

“A essência do universo é som e cor. O trance é divino porque faz todo mundo se comunicar sem ninguém dizer nada”, diz Gauthana, usuário de plantas medicinais, paulista, há 26 anos em Alto Paraíso.

Depois do “anúncio” de João Paulo 2º, veio a confirmação: Gauthana achou uma moeda de 1937 num copo onde bebia catuaba. Jogou longe a relíquia, mas voltou a achá-la no mesmo lugar depois de mais uma dose.

Após alardear que todos eram bem-vindos e pedir doações em rádio comunitária, os fundadores perderam sua hora semanal a pedido de evangélicos. A saída foi migrar à internet. A comunidade da ITD no Orkut reunia 2.546 até ontem.

Perfil dos adeptos anima os comerciantes de Alto Paraíso

Conhecida por seus cristais e o perfil de “bicho-grilo”, Alto Paraíso hoje está repleta de placas de “vende-se” nas casas. Mas a proposta de uma igreja de música eletrônica anima os comerciantes.

“Já viu quem vai a rave? Só filhinho de papai, cheio de dinheiro. Sou comerciante, isso é bom. Mas essa história de igreja acho uma balela”, afirma Alberto Jatobá, 46, dono do principal restaurante da cidade.

Muitos moradores abordados pela Folha a quilômetros ou metros de distância da sede da ITD nem desconfiaram que o local se tratava de uma igreja. Morador de Brasília e freqüentador das festas da ITD Marco Túlio contou que vê a igreja como “uma união de irmãos em torno de um propósito”. “Quando entrei não levei tão a sério. Depois percebi que havia mesmo uma igreja.”

Cultos e vigílias

A ITD possui funcionamento diferente das demais igrejas. Não há dia certo para culto. Nem duração predeterminada. Em 2005, contam adeptos, foram 30 dias ininterruptos dentro do salão da seita, que fica na primeira rodoviária da cidade.
“A dança é a forma mais antiga de aproximação com o cosmo”, conta a “devota” Jane Carneiro, 46, artista plástica.

Fonte: Folha de Sâo Paulo