Caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês “Jyllands-Posten” geraram protestos violentos, por parte de muçulmanos ao redor do mundo desde 2006, e fizeram com que fossem oferecidas recompensas pelas cabeças dos cartunistas.

“Creio que é o esconderijo número cinco”, disse um dia destes Kurt Westergaard, e era evidente que ele havia de fato se perdido.

No mês passado a polícia dinamarquesa prendeu dois tunisianos e um dinamarquês descendente de marroquinos sob a acusação de que pretendiam matar Westergaard, um dos 12 cartunistas cujas caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês “Jyllands-Posten” geraram protestos, alguns deles violentos, por parte de muçulmanos de todo o mundo em 2006, e fizeram com que fossem oferecidas recompensas pelas cabeças de Westergaard e do seu editor, Flemming Rose. Desde então Westergaard (ele desenhou Maomé com uma bomba no turbante) vive escondido.

Os norte-americanos, para os quais a eleição parece ter se transformado em um esporte delirante e interminável, que monopoliza as suas atenções, acabaram não sendo os únicos a se esquecerem das caricaturas. Muitos dinamarqueses e europeus de outros países fizeram o mesmo. Eles estão chocados com as prisões.

Nos dias que se seguiram, 17 jornais dinamarqueses que se recusaram a publicar as caricaturas ofensivas dois anos atrás, declararam solidariedade a Westergaard e as imprimiram. Isto, naturalmente, provocou uma nova onda de fúria da Faixa de Gaza à Indonésia.

No Egito, o presidente do parlamento alegou que os dinamarqueses violaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A alegação pareceu um pouco exagerada, tendo sido feita apenas algumas semanas após o Parlamento Europeu, que também reclamou da nova publicação das caricaturas, ter condenado o Egito devido à terrível situação daquele país no que se refere aos direitos humanos.

Enquanto isso, as demandas no Afeganistão pela retirada imediata das tropas dinamarquesas que servem sob o comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e o rompimento das relações diplomáticas com a Dinamarca fizeram com que o ministro dinamarquês das Relações Exteriores, Per Stig Moeller, afirmasse que está ficando difícil para ele “colocar as vidas dos soldados dinamarqueses em risco” para apoiar um país “no qual uma pessoa corre o risco de ser condenada à morte por defender os valores que acreditamos ser uma parte inseparável da democracia e do mundo moderno”.

Foi então que, quando tudo parecia ser apenas um problema dinamarquês, a confusão disseminou-se. Uma galeria de arte em Berlim foi fechada porque uma exibição de arte satírica por um grupo dinamarquês chamado Surrend, que anteriormente apresentou trabalhos zombando dos neonazistas, fez com que vários visitantes muçulmanos irados ameaçassem apelar para a violência a menos que um pôster mostrando a Caaba, o templo na Grande Mesquita de Meca, fosse removido.

Dois anos atrás, logo após a confusão original gerada pelas caricaturas, uma companhia de ópera berlinense cancelou apresentações de “Idomeneo” de Mozart quando a polícia alertou o grupo para o fato de que uma cena com a cabeça decepada de Maomé, entre outras figuras religiosas, representava um “risco incalculável” para os artistas e a platéia. Denúncias de autocensura irromperam por toda a Europa.

Mas, desta vez, o ministro do Interior da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, um político que tem trabalhado bastante no sentido de melhorar as relações com os muçulmanos na Alemanha, teria solicitado a outros jornais europeus que republicassem as caricaturas, algo que ele nega veementemente, o que não fez diferença para o jornal saudita “Al-Watan”.

“O ministro alemão tem que retirar imediatamente a sua declaração”, exigiu o “Al-Watan”. O jornal acrescentou que o racismo, e não a liberdade de expressão, estava por trás da política alemã. Afinal, os alemães não têm liberdade para “discutir o holocausto judaico”.

E todos sabiam o que essa observação significava.

Agora muitos europeus parecem ter perdido a paciência. Recentemente, durante um jantar em Copenhague, Rose, que criou uma espécie de segunda carreira a partir da confusão gerada pelas caricaturas, disse que tudo isso veio muito tarde, mas que era inevitável.

“Naquela época, em 2006, havia boas razões jornalísticas para que outros jornais publicassem os desenhos porque pouca gente os tinha visto, de forma que eram um fato novo”, disse ele. “Agora a justificativa jornalística é quase inexistente porque todos sabem como são as caricaturas, de forma que se trata mais de solidariedade do que de notícia”.

Ao contrário de Westergaard, Rose não mora em esconderijos, embora já tenha retirado há muito tempo o seu nome do catálogo telefônico local, além de ter descoberto que um outro Flemming Rose (aparentemente há vários deles na Dinamarca) decidiu mudar de nome.

“Não se tratou de zombar de uma minoria, mas sim de uma figura religiosa, o profeta muçulmano, de forma que a coisa diz respeito a blasfêmia, e não a racismo”, argumenta Rose. “A idéia de desafiar a autoridade religiosa conduziu à democracia liberal, enquanto que o ataque a minorias, enquanto minorias, levou ao nazismo e à perseguição da burguesia na Rússia. Assim, esta distinção é essencial para que se entenda o problema”.

Os anos que passou como estudante e como correspondente de um jornal na União Soviética modelaram a filosofia de Rose. “Lá eu vi como o conceito de valores universais era crucial para a cultura dissidente, e constatei o que a censura significava”, afirma o jornalista. “Percebi que as diferenças de valores entre a sociedade ocidental e os soviéticos não eram relativas”.

Ele observa que os soviéticos tinham uma lei no seu código penal proibindo a difamação do estilo de vida soviético. “As leis contra blasfêmia nos países muçulmanos de hoje têm o mesmo objetivo de silenciar as vozes dissidentes”, diz ele. “A liberdade de discurso não se estende à difamação, à invasão da privacidade e ao incitamento à violência. Mas é necessário que se faça uma distinção entre palavras e imagens”, insiste ele. “As imagens estão abertas à interpretação, elas são diferentes das palavras”.

Westergaard vê o problema sob uma outra ótica: “As caricaturas sempre concentram e simplificam uma idéia, e permitem que haja uma impressão rápida que provoca alguma sensação forte”.

Ele recorda-se de uma charge que fez anos atrás para complementar um artigo defendendo os palestinos contra os israelenses: “Não fiz aquilo porque era a minha crença, mas sim porque o meu trabalho era ilustrar as idéias contidas no artigo, e eu mostrei um palestino usando uma estrela de Davi amarela com a inscrição ‘árabe'”. Ele continua: “Muita gente me ligou para protestar. Um homem disse que eu tinha abusado de um símbolo judaico. Conversamos muito tempo e finalmente aceitamos os pontos de vista mútuos”. Ele diz que a conversa foi o que importou.

Será que daquela vez ele foi longe demais?

“Olhando para trás, talvez eu devesse ter feito uma caricatura que não contivesse a estrela amarela”.

Mas por que Maomé sim, e uma estrela não?

“Porque milhões de judeus morreram em campos de concentração usando aquela estrela”.

O que é obviamente a resposta errada para aqueles que colocaram a cabeça dele à prêmio. “Sempre fui ateu, e ouso dizer que esses acontecimentos só intensificaram o meu ateísmo”, diz ele. “Mas o mesmo choque ocorreria cedo ou tarde devido a algum livro ou peça teatral. Era algo que estava para acontecer”.

Ele trouxe uma charge que revisou recentemente. Nela, Jesus, usando terno e gravata, desce da cruz na qual há um cartaz pendurado com a inscrição: “Horas de serviço: domingo, das 10h às 11h e das 14h às 15h”. Recentemente Westergaard acrescentou um imame olhando Jesus se afastar.

Ele concordou em se encontrar com a reportagem no “Jyllands-Posten”, o jornal do qual está agora semi-aposentado. Alto, de ombros largos, com uma barba mesclada de tons claros e escuros, aos 72 anos ele parece ser um marinheiro escandinavo saído de uma peça teatral, mas usando, como sempre, calças vermelho-bombeiro, um cachecol estampado e uma capa preta Sargent Pepper – claramente um ato de desafio estilístico. Quando é perguntado a respeito da abordagem geral de Westergaard nos últimos dois anos, Rose, com medo, diz: “Calma”.

A maior parte dos doze chargistas é mais velha, e, como Westergaard, está mais próxima do espírito da geração de 1968 do que do relativismo cultural de gerações posteriores. Social-democrata, Westergaard foi diretor de uma escola para crianças portadoras de deficiências graves antes de tornar-se chargista. Ele gosta de observar que Himmerland, a região da Dinamarca na qual nasceu, era a terra de uma raça de guerreiros: “Entre os cruzados havia também dinamarqueses”.

Ele sabe que este é um comentário pesado. “Esta é uma nova cruzada, ou o que?”, questiona.

E a seguir ele próprio responde: “Na Dinamarca existe uma cultura de radicalismo, um ceticismo com relação à autoridade e à religião. Isso faz parte do nosso caráter nacional. Anos de relativismo, durante os quais os dinamarqueses sentiram que não tinham o direito de pedir a ninguém que vivesse como nós, terminaram com as charges”, diz ele. Mas ele está menos convicto do que Rose em relação ao grau de progresso, admitindo que os recentes ganhos por parte do partido antiimigração “são um retrocesso infeliz provocado por tudo isso”.

Atualmente ele está acostumado a ser (e, talvez, quem pode dizer, até mesmo goste desse status) uma celebridade acidental surgida em um palanque improvisado.

“A discordância é parte essencial da democracia”, diz ele. “Quero explicar a minha percepção desse embate entre duas culturas porque tenho netos que crescerão nesta sociedade multicultural. Os dinamarqueses são um povo tolerante. Eles não merecem ser tratados como racistas”.

Ele acrescenta: “Isto é algo que continuará pelo resto da minha vida, estou certo disso. Nunca me livrarei desse problema. Mas sinto mais raiva do que medo. Sinto raiva porque a minha vida está ameaçada, e sei que não fiz nada de errado, apenas fiz o meu trabalho”.

“A raiva é a melhor terapia”, conclui Westergaard, com um sorriso.

Fonte: The New York Times