Desde 2002, pelo menos 30 sacerdotes brasileiros foram denunciados à Justiça por crimes sexuais contra crianças e adolescentes. Nos casos mais recentes, padres de Arapiraca , em Alagoas, foram indiciados pela polícia.

Um deles aparece em vídeo com adolescentes em cenas de sexo. Em Franca, no interior paulista, o padre José Afonso Dé, de 74 anos, está sendo processado por, supostamente, abusar de coroinhas.

Se antes imperava o silêncio, hoje o assunto é abordado até em batizados. Os religiosos respondem aos ataques sofridos pela Igreja Católica em razão das denúncias contra padres pedófilos em todo o mundo.

– A Igreja forma pastores, não lobos. Se um se transforma em lobo, tem de ser afastado do rebanho e responder diante das duas Justiças, a de Deus e a dos homens – diz o cônego Antônio Aparecido Pereira, porta-voz da Arquidiocese de São Paulo, onde, no ano passado, o padre Cabral foi denunciado pelos pais de uma menina de quatro anos.

Dizendo-se inocente, padre Cabral foi afastado da paróquia, mas o caso ainda não foi julgado. Ele vive em um recanto da própria Igreja.

– A Igreja tem uma atitude humana: não abandona o padre, não abandona ninguém. Estamos falando de gente doente, isso é doença – diz o cônego.

Se o caso for confirmado, o padre nunca mais poderá celebrar missas. Mas o medo maior dos católicos, a excomunhão, não atinge os religiosos. Com a excomunhão, o católico fica impedido de comungar. Os padres não são excomungados, segundo normas da Igreja.

– Absurdo, não sabia que não eram excomungados – diz X., mãe de um menino de 15 anos que afirma ter sido vítima do padre Dé.

X. só soube que o padre teria tentado acariciar e beijar o menino porque outros coroinhas denunciaram o sacerdote.

– Achei que poderia esquecer e larguei a igreja – diz Y., filho de X., que deixou de frequentar as missas, mas não perdeu a fé e usa um escapulário.

O comerciário W., hoje com 35 anos, casado e com dois filhos, lamenta que as denúncias contra o padre Dé tenham vindo à tona somente agora. Quando tinha 22 anos, ele frequentou um seminário em Minas, sob orientação de Dé, que teria tentado seduzi-lo.

– Padre Dé era meu ídolo. Meu irmão, que era menor de idade, tinha me contado que o padre tentou abusar dele. Duvidei e fui para o seminário. Mas meu irmão estava certo. Saí e nunca mais aguentei ver um padre. É muita hipocrisia.

Padre Dé foi afastado da paroquia de São Vicente. Um de seus advogados, José Chiachiri Neto, afirma que ele é inocente. Em depoimento de mais de oito horas à polícia, ele negou os crimes e disse as crianças interpretaram mal. Na quinta-feira, a Justiça acolheu a denúncia e ele está sendo processado.

Entre os 30 casos levantados pelo GLOBO, alguns foram encerrados com a condenação dos religiosos. O frei alemão Alexander Nicolaus Weber cumpre pena de sete anos em Salvador. Hélio de Oliveira, o padre Helinho, de Rio Claro, foi condenado, em 2007, a 16 anos. O padre paulista Alfieri Bompani, e o frei Tarcísio Tadeu Spricigo, de Goiás, foram condenados por pedofilia.

Em Minas, os padres Geraldo Machado e Divino Oliveira foram condenados a quase 9 anos de prisão, e Cléber D. Gonçalves, a 10 anos e meio. No Maranhão, Félix B. Carreira foi condenado a 24 anos. Em Santa Maria (RS), o irmão Miguel Angelo Danette foi condenado a sete anos. Ainda no Rio Grande do Sul, o padre Claudio da C. Dias foi condenado a 13 anos. Na Bahia, o padre Djalma B. Motta foi condenado a 11 anos por pedofilia. Em Franca, o padre Juscelino de Oliveira foi condenado a 12 anos por estupro de uma menina de 10 anos.

Fonte: O Globo