VaticanoAs opiniões do papa Pio 12, no comando da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial, sobre os judeus, um dos pontos mais conturbados da relação católico-judaica, podem ser reavaliadas quando os arquivos sobre seus anos à frente do cargo de primeiro-ministro do Vaticano forem abertos, em setembro, em Roma.

O Vaticano afirmou na sexta-feira que divulgará todos os seus arquivos a respeito do papado de Pio 11 referentes ao período que vai de 1922 a pouco antes do começo da guerra, em 1939.

Alguns afirmam que Pio 12, sucessor de Pio 11, omitiu-se durante a guerra e não tomou medidas enérgicas para impedir a matança de judeus na Europa. Os arquivos devem retratar as opiniões de Pio 12 quando ele ainda não havia assumido o comando do Vaticano.

Há uma distância imensa entre os que apóiam e os que criticam o papa do tempo da guerra. João Paulo 2o, morto em 2005, desejava santificá-lo, mas muitos, entre os quais grupos judaicos, o chamam de o “papa de Hitler”.

Os arquivos contêm documentos internos mostrando como o cardeal Eugenio Pacelli, que mais tarde se transformaria em Pio 12, atuou no cargo de secretário de Estado, que ocupou de 1930 a 1939, quando confrontado com importantes questões de política.

“Isso fará com que os estudos sobre Pacelli ganhem uma nova dimensão”, afirmou o professor Hubert Wolf, um historiador da Universidade Muenster, na Alemanha, e importante especialista a respeito dos arquivos secretos do Vaticano.

“Teremos nove anos para vê-lo lidando com os assuntos da Igreja no mundo todo”, disse Wolf à Reuters. Os arquivos devem mostrar discussões dele dentro do aparato burocrático do Vaticano e instruções para os núncios papais (embaixadores).

“Poderemos ver os comentários dele às margens de um relatório. Teremos a pequena e trêmula caligrafia dele escrita quando avaliava várias questões. Não se pode chegar mais perto de Pacelli do que isso,” disse.

Wolf, um padre católico, não quis dizer como acreditava que o Pio 12 seria visto depois da leitura dos arquivos: “Sou um historiador, não um profeta. Cabe aos documentos responder essa pergunta.”

Mudança de opiniões

O dirigente da Igreja Católica pisou em ovos durante a guerra para evitar represálias contra católicos na Alemanha e nos territórios ocupados pelos nazistas. Inicialmente, ele foi elogiado por falar o mais abertamente que podia a respeito da represália aos judeus e por auxiliar secretamente os judeus.

Essa imagem mudou radicalmente em 1963, quando o dramaturgo alemão Rolf Hochhuth retratou-o na peça “O Vigário” como um homem cínico que preferiu manter-se em silêncio apesar de saber sobre o Holocausto.

Os dois lados travam uma batalha desde então. Os defensores de Pio 12, entre os quais alguns historiadores judeus, citam comentários anti-Hitler feitos reservadamente pelo papa. Adversários o apresentam como uma figura anti-semita.

Os arquivos que vão de 1922 a 1939 também incluem notas mantidas até agora em segredo e usadas nas sessões do Secretariado de Estado do Vaticano, incluindo o que Pacelli — o “cérebro político” da Santa Sé, nas palavras de Wolf — disse nas reuniões sobre as questões judaicas.

Edith Stein, por exemplo, uma alemã convertida ao judaísmo morta em Auschwitz, escreveu a Pacelli em abril de 1933 denunciando a repressão aos judeus nos primeiros anos da Alemanha nazista. Ele respondeu uma semana mais tarde afirmando ter repassado a carta a Pio 11.

“Alguma coisa aconteceu em Roma entre essas duas cartas”, afirmou Wolf. “Agora, poderemos perguntar qual efeito a carta de Stein teve sobre a Cúria. Quem a viu? Pacelli pediu conselho a alguém a respeito dela?”

Especulações

Os novos documentos também devem revelar as opiniões particulares de Pacelli a respeito do acordo de 1933 com a Alemanha nazista, sobre as relações com os fascistas da Itália, a respeito da Guerra Civil Espanhola (1936-39), sobre a anexação nazista da Áustria e a respeito do Acordo de Munique de 1938.

Wolf afirmou ter certeza de que o Vaticano não ocultará documentos considerados comprometedores e que pedirá desculpas se erros graves vierem à tona.

“O papa Bento 16 diz não fazer sentido continuar alimentando as especulações com a manutenção do segredo”, disse Wolf, que, em março, conversou sobre os arquivos com o papa nascido na Alemanha.

O rabino Marvin Hier, reitor do Centro Simon Wiesenthal em Los Angeles, recebeu com satisfação a notícia sobre a divulgação dos arquivos da época de Pio 11, mas pediu que o Vaticano se apresse na divulgação dos documentos realmente cruciais — os que tratam do papado de Pio 12 (1939-1958).

Fonte: Reuters