O jornal oficial do Vaticano rejeitou na quarta-feira as acusações de que o papa Pio 12 (1939-58) teria feito vista grossa ao Holocausto, o que seria uma “lenda negra” não respaldada pela história.

Dois dias antes, ao se tornar o primeiro judeu a discursar num sínodo católico, o rabino-chefe de Haifa (Israel), Shear-Yashuv Cohen, afirmou que seria impossível “perdoar e esquecer” o silêncio daquele pontífice diante das atrocidades do regime nazista na Segunda Guerra Mundial.

O diário L’Osservatore Romano disse em editorial, publicado na véspera do 50o aniversário da morte de Pio 12, que aquele papa foi um “homem de paz” que enfrentou o período mais difícil do século 20.

” afrontou a tragédia bélica como nenhum líder do seu tempo fez. Ainda diante da monstruosa perseguição dos judeus, num silêncio consciente e sofrido, voltado para a eficiência de uma obra de caridade e socorro indiscutível”, diz o texto.

O Vaticano diz habitualmente que Pio 12 atuou discretamente nos bastidores contra o Holocausto, pois naquelas condições políticas manifestar-se contra o genocídio poderia piorar a situação dos judeus.

Na opinião do jornal, difundiu-se “a lenda negra de um papa insensível diante da shoah , ou até mesmo filo-nazista, construção inconsistente do ponto de vista histórico, ainda mais por denegri-lo”.

O pontificado de Pio 12 é uma das questões mais complicadas nas relações entre judeus e católicos. No mês passado, o papa Bento 16 insistiu que seu antecessor “não poupou esforços” para defender os judeus.

Ele fez a declaração a uma entidade judaico-católica dos EUA que preparara uma compilação de 200 páginas de documentos, telegramas e recortes de jornais da época, alguns inéditos, mostrando que Pio 12 se empenhara bastante contra o genocídio.

Pressionado a abrir todos os seus arquivos da Segunda Guerra Mundial, o Vaticano diz que a maioria dos documentos relativos a Pio 12 já foi entregue a acadêmicos, e que outros permanecerão em sigilo por razões organizacionais.

Em 2007, a Congregação da Causa dos Santos do Vaticano se manifestou favoravelmente ao reconhecimento das “virtudes heróicas” de Pio 12, um avanço importante no processo de beatificação (passo inicial para a canonização) aberto em 1967. Bento 16 ainda não aprovou um decreto nesse sentido.

Alguns grupos judaicos dizem que o Vaticano deveria suspender o processo de beatificação. Outros dizem se tratar de uma questão interna da Igreja.

Fonte: O Globo