O Vaticano reagiu com prudência ao anúncio de que o cientista americano Craig Venter criou um cromossomo sintético que pode levar à primeira forma de vida artificial da Terra.

A Igreja Católica evitou criticar diretamente a descoberta, por não ter sido ainda publicada em revista científica. Mas, como o poder de criar formas de vida é, na visão religiosa, uma exclusividade de Deus, o Vaticano não deixou de dar uma estocada em Venter.

“Eu me lembro de quando um laboratório coreano anunciou ter clonado um homem. A notícia provocou impacto no mundo inteiro. Mas era uma mentira, uma fábula”, disse o presidente do Conselho para a Pastoral dos Agentes Sanitários do Vaticano (espécie de Secretaria da Saúde), cardeal Javier Lozano Barragán.

Comentar o anúncio do pesquisador americano, para o cardeal, “seria como falar de uma coisa que tem a consistência de um fantasma”.

No sábado, o jornal inglês The Guardian publicou uma reportagem sobre o cromossomo sintético criado por Craig Venter. Segundo o jornal, o pesquisador separou o cromossomo da bactéria Mycoplasma genitalium e o desmontou até o mínimo necessário à vida. Em seguida, em cima daqueles elementos genéticos básicos, reconstruiu o cromossomo com novas características.

O novo cromossomo, batizado de Mycoplasma laboratorium, foi introduzido numa célula de bactéria. O que o cientista espera é que o material genético – criado artificialmente – passe a comandar a bactéria e crie uma nova forma de vida. Ela dependerá de sua capacidade de duplicar-se e metabolizar-se na maquinaria molecular da célula na qual foi inserida.

“Vamos deixar de apenas ler o código genético e começar a escrevê-lo. Isso nos dá a capacidade hipotética de fazer coisas que nunca antes contemplamos”, disse Craig Venter.

Apesar da prudência do Vaticano diante do anúncio, muitos pesquisadores acreditam na realização do americano, mesmo sem ter sido publicada numa revista científica. Venter tem boas credenciais. Em 2001, ele anunciou, simultaneamente com um grupo rival de cientistas, o primeiro seqüenciamento de um genoma humano. A idéia do americano havia sido encarada com ceticismo na época do anúncio.

Fonte: Estadão