Apesar de suas cidades natais terem sido recentemente libertadas do Estado Islâmico, os cristãos do Iraque ainda estão em luto.

Antigas cidades nos arredores de Mossul, onde cristãos moraram durante muitos séculos, se tornaram terras devastadas. A maioria das igrejas continua em pé, mas foram muito danificadas e saqueadas. Quando um soldado libertador iça uma cruz no topo da igreja ou um padre volta para fazer um levantamento das perdas e acender uma vela, as cenas parecem mais tristes do que esperançosas – principalmente quando comparadas aos sentimentos disseminados dos cristãos desalojados de que nunca voltarão para casa.

Algumas das primeiras conquistas na campanha para retomar Mossul do Estado Islâmico foram as libertações de cidades e povoados historicamente cristãos, incluindo Qaraqosh, a maior cidade cristã iraquiana, e Bartella.

Houve sinais iniciais de júbilo. Algumas famílias voltaram para comemorar com combatentes da milícia cristã que participaram nas batalhas, mas logo ficou claro que o renascimento da comunidade cristã no Iraque é improvável, já que um número muito pequeno deseja regressar.

“Não existe garantia de que possamos voltar em segurança”, diz Haseeb Saleem, 65 anos, cristão da área de Mossul que foi embora há mais de dois anos e agora mora na cidade curda de Erbil, a capital regional.

Saleem manifestou uma crença profunda entre as minorias iraquianas de que a invasão dos Estados Unidos ao país, em 2003, ao remover uma ditadura que ao menos lhes prometia segurança, marcou o começo do fim da comunidade em seu próprio país.

“Antes de 2003, pode acreditar em mim, meu vizinho não sabia o que eu era. Ninguém podia perguntar se você era sunita ou xiita, muçulmano ou cristão”, conta ele.

Acredita-se que, em 2003, 1,5 milhão de cristãos morava no Iraque. Quando o Estado Islâmico varreu o norte do país em 2014, a cifra havia caído para aproximadamente 400 mil.

Desde então, muitos milhares deixaram o país ou fugiram de Mossul para a segurança relativa da região curda. Ali, em Erbil, os cristãos estão aglomerados no bairro de Ainkawa, e muitos dos desalojados foram assimilados pelas igrejas locais. O bairro talvez seja o último centro de uma vibrante cultura cristã no Iraque.

Quando o Estado Islâmico tomou Mossul e áreas vizinhas em meados de 2014, os militantes roubaram o dinheiro, as joias e as propriedades dos cristãos e lhes deram uma escolha caso desejassem ficar: converter-se ao Islã ou pagar um imposto especial. Quase todos os cristãos deixaram suas casas, integrando-se à crescente população de iraquianos desalojados.

Mas havia duas cristãs, mulheres com mais de 70 anos, que permaneceram. Afastadas das famílias durante o caos de dois anos atrás, Badrea Gigues e Zarifa Bakoos ficaram para trás em Qaraqosh. Na ocasião, seus maridos estavam enfermos.

Só que logo depois da tomada da cidade natal pelo Estado Islâmico, os dois morreram. As viúvas, velhas amigas, se viram morando juntas, e enfrentando a brutalidade dos novos governantes que roubaram seu dinheiro e exigiram que renunciassem à sua fé e se convertessem.

“Às vezes rezávamos, às vezes, chorávamos”, diz Badrea, que é cega e praticamente surda, durante entrevista recente depois que Qaraqosh foi libertada e as forças de segurança a encontraram. “Conversávamos sobre nossos maridos, nossas lembranças, nossos filhos, de como era a vida quando éramos jovens.”

As mulheres disseram que os combatentes do Estado Islâmico as forçaram a cuspir em uma cruz e a pisar em uma imagem da Virgem Maria.

“Desculpe, Maria, por eu ter feito isso. Por favor, me perdoe”, Zarifa pensou na hora.

Os cristãos do Iraque podem ter perdido muito para o Estado Islâmico – casas, ouro, dinheiro. Mas alguns dizem que a experiência fortaleceu sua fé.

“Eles podem destruir nossas casas, nossas coisas, mas não nossas almas”, diz Huda Khudhur, freira de Qaraqosh.

[b]Fonte: Zero Hora[/b]