Acusações de abuso sexual foram feitas em 20 das 27 dioceses católicas alemãs. Será que o abuso de crianças se tornou sistemático? Em entrevista à “Spiegel Online”, Johannes Siebner, diretor do Colégio St. Blasien, discute as falhas da igreja ao lidar com as vítimas.

Padre Siebner, depois de anos de silêncio, inúmeras vítimas de abuso em escolas e instituições católicas estão agora assumindo o risco de falar em público sobre suas experiências. Até agora foram registradas acusações em 20 das 27 dioceses alemãs. Será que ainda é possível falar em lamentáveis incidentes isolados, como alguns representantes da igreja continuam fazendo?

Por trás de cada caso isolado há uma história de vida. É por isso que precisamos falar nos casos isolados, para sermos justos com cada uma das vítimas. Ao mesmo tempo, precisamos examinar se há um sistema por trás desses destinos individuais, ou se existe uma cultura sistemática ou sistêmica de vista grossa e negligência proposital em nossas instituições.

Então o abuso é sistemático?

A Igreja Católica não é uma organização criminosa. Qualquer um que afirmar isso está indo longe demais. O fato de que as vítimas eram crianças pode ser atribuído à localização e à época do crime, assim como a determinados padres e seus superiores –bem como o fato de sua dor e sofrimento não terem sido percebidos e as pessoas os terem ignorado. Mas parece que não há nenhuma conexão ou acordo entre os responsáveis –pelo menos não nos casos da escola Canisius em Berlim ou na nossa em St. Blasien. Mas falar apenas em casos isolados banalizaria a questão. As vítimas não veem a si mesmas como simples vítimas de uma só pessoa.

Então estamos discutindo a atmosfera que promoveu o abuso. Psicólogos dizem que o ambiente íntimo de um internato, combinado com o mundo fechado da igreja, pode fazer com que essas coisas aconteçam mais facilmente. Você acha que é isso?

É assim tão simples? Sua pergunta é sugestiva. Os incidentes em St. Blasien aconteceram durante o funcionamento normal da escola e não estão necessariamente ligados ao nosso internato. Não tenho as estatísticas e não sou nenhum especialista, mas minha impressão é que existe um risco nos internatos porque os relacionamentos podem ter um caráter hermético, porque o espírito de equipe pode ser tentador e porque o papel dos educadores é construído de forma que –e deveria ser assim– uma absoluta confiança é colocada na equipe. Mas nada disso é um argumento contra os internatos, da mesma forma que não é um argumento contra a instituição da família.

O abuso é com frequência subestimado. Recentemente, o bispo auxiliar da Áustria Andreas Laun de Saltzburgo disse ao apresentador de um talk show alemão que casos semelhantes acontecem em escolas protestantes. Alguns argumentaram que o abuso também acontece em outros grupos, como os escoteiros ou clubes atléticos, assim como na própria família…

Eu não presto atenção em tudo o que é dito, veiculado ou publicado. Mas fico triste e desapontado quando alguém tem sucesso em subestimar o assunto ou se distanciar dele. Isso influencia negativamente as atitudes em relação às vítimas. Também torna mais difícil ver as coisas do ponto de vista delas.

Essas tentativas de desviar a atenção da responsabilidade da igreja contradizem totalmente a sua visão de como se deve lidar com o tema do abuso.

Sim, de fato. A experiência das vítimas mostrou que o abuso não compreende somente o ato de abuso, mas também o fato de as instituições o ignorarem.

Como o abuso e a violência dos professores contra os alunos podem ser prevenidos de forma eficaz?

Precisamos criar uma atmosfera escolar na qual uma criança possa se queixar se for prejudicada, e fazer com que essa queixa seja ouvida – mesmo que seja muito silenciosa ou muito inconveniente. Essas queixas de sofrimento são perturbadoras, e logo condenadas e consideradas inapropriadas. Elas perturbam o funcionamento das instituições e prejudicam sua reputação. Precisamos ensinar os professores e os funcionários das escolas a reconhecerem quando uma criança sofreu abuso.

Você está falando sobre uma meta, mas o que as pessoas podem fazer em termos concretos?

Temos que investir na cultura das escolas e temos que encorajar as pessoas a assumirem a responsabilidade. No fim das contas, precisamos de estruturas transparentes e procedimentos que sejam confiáveis, e que não existam apenas no papel. Uma organização de alunos também deveria ter voz. Precisamos de organismos independentes aos quais os alunos possam recorrer.

Você acha que isso também deveria incluir a cooperação com as autoridades locais ou a exigência de que os professores apresentem certificados de boa conduta ao entrarem numa escola?

Não tenho nada contra um certificado de boa conduta –porque podemos usá-lo para tratar desses problemas. No ano passado, por exemplo, enviamos um professor para a Inglaterra num programa de intercâmbio, no qual ele deveria dormir num internato. Eu tive que preencher um formulário de várias páginas sobre o professor, e ele teve de apresentar um certificado de conduta. Primeiro eu achei que isso era excessivo. Tampouco devemos nos iludir achando que algo assim é proteção suficiente. Mas isso aumenta a confiança porque significa que o assunto está sendo discutido.

Você convocou os professores de sua escola para questioná-los sobre os abusos?

Não, e não farei isso. Eu fui incumbido dessa tarefa, principalmente em relação aos últimos dez anos…

… por causa do prazo de prescrição dos crimes…

… mas eu não vou colocar 75 professores sob suspeita. Se não há uma suspeita concreta, então não vou questionar meus funcionários. Que direito eu tenho de fazer isso?

Independentemente disso, milhares de pais colocam sua confiança nos valores educacionais e morais das escolas religiosas.

Entendo que os pais queiram transparência e segurança, e quando eles questionam sobre esse assunto, eu os levo bastante a sério. Mas este não é um conflito que eu possa resolver. Eu não posso mandar todos os professores à minha sala, dar a eles dez minutos e perguntar: você já tocou numa criança pequena de forma imprópria? Eu não posso e não quero colocar todos os pais sob suspeita só porque o abuso acontece em algumas famílias.

Se você não quer lidar com o problema dessa forma, então qual é a maneira mais apropriada de tratar o assunto?

Até eu não tenho nenhuma solução pronta. Aqueles que sugerem uma solução rápida normalmente só querem transmitir segurança ao público em geral.

Você soa desrespeitoso ao dizer “público em geral”. Mas a reputação das escolas particulares católicas foi abalada. Você tem de responder a isso.

Mas não com reações impensadas ou tentativas de acalmar os ânimos. Nenhum dos dois funciona, porque não faz justiça às vítimas. É claro que quero proteger a reputação das escolas, assim como a da igreja –que tipo de diretor de escola eu seria se não quisesse isso? Mas tomei uma decisão: minha prioridade é me colocar no lugar das vítimas. Nem sempre é fácil para mim fazer isso. Meu desejo é enviar uma mensagem para cada vítima: eu acredito em você, e agradeço por você estar falando. Para ser honesto, quanto ao segundo ponto eu precisei de um certo tempo e de muita força. Isso é um desafio espiritual.

Durante anos o abuso foi encoberto e mantido em silêncio. Algumas vítimas foram forçadas a assinar acordos de confidencialidade em troca de indenizações.

Imagino que houve casos assim. As vítimas não estão inventando nada disso.

Será que devem ser feitas acusações judiciais para cada caso isolado?

O que é um caso? Onde começa o abuso? Isso não pode ser tratado simplesmente com respostas amplas. O que me surpreendeu foi que muitas das vítimas não falariam se fossem feitas acusações imediatamente. Ao mesmo tempo, se eu for longe demais em proteger meus funcionários e assumir que eles são inocentes, então também me arrisco a silenciar as vítimas mais uma vez. A mensagem então seria de que eu não acredito nelas. É um verdadeiro dilema. A única solução que vejo para isso é ter um grupo independente de ombudsman.

Fonte: Der Sopiegel