Os recuos experimentados no ecumenismo não se devem à falta de fundamento bíblico-teológico, mas a fatores que interferem de modo negativo no caminho da reconciliação, aponta a Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em texto contendo considerações que preparou para a V CELAM.

Entre esses fatores externos, a Comissão menciona o surgimento de novos movimentos religiosos, a proliferação de igrejas livres desvinculadas da herança da Reforma protestante, a postura mercadológica de várias denominações, o subjetivismo religioso. São fatores que levam à mobilidade religiosa, constatada no Brasil com o crescimento vertiginoso de denominações pentecostais e neopentecostais.

A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho (CELAM), que será aberta no dia 13 de maio, em Aparecida, São Paulo, terá uma agenda complexa, da qual constarão, também, os diálogos ecumênico e inter-religioso. Eles não são uma invenção recente, mas derivam da própria catolicidade da Igreja e é uma exigência evangélica, define a Comissão da CNBB.

Há mais de 40 anos, o Vaticano II reconheceu no movimento pela unidade dos cristãos a ação do Espírito Santo, informa a Comissão. Nesses 40 anos apareceram bons resultados, como a Semana de Oração pela Unidade, comissões bilaterais, declarações conjuntas, criação de comunidades ecumênicas de vida.

“Vale observar que onde o diálogo se estabelece diminui o proselitismo, cresce o respeito e abrem-se possibilidades de testemunho comum”, admite a Comissão para o Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso da CNBB. Por isso, ela encoraja o clero e o laicato a participarem de organismos ecumênicos e realizarem ações conjuntas no campo social, teológico, editorial, universitário, ecológico e pastoral.

A Comissão pelo diálogo dos bispos brasileiros propõe a qualificação dos agentes de diálogo. “Às vezes esquecemos que o zelo pela unidade dos cristãos é um dos frutos da comunhão eucarística e oramos pouco nesta intenção. Outros desconhecem as declarações ecumênicas que a própria Igreja Católica assinou”, diz o documento.

Também o diálogo inter-religioso está fundamentado biblicamente na missão que Cristo confiou à Igreja. Ainda que as religiões não gozem de autonomia salvífica, “elas desempenham um papel providencial na economia da graça, enquanto abrem a pessoa à transcendência, colaboram na busca da verdade, apelam à reta intenção, cultivam as virtudes, testemunham o destino eterno do ser humano e favorecem o conhecimento de Deus”, alega a Comissão.

Por isso, a Comissão da CNBB propõe investir no conhecimento das religiões, no discernimento teológico-pastoral e na formação de agentes competentes de diálogo inter-religioso.

O diálogo inter-religioso, diz o documento da Comissão da CNBB, tem um especial significado na construção da nova humanidade, pois abre vias inéditas de testemunho cristão, promove a liberdade e a dignidade dos povos, estimula a colaboração pelo bem comum, supera a violência religiosa, educa para a paz e para a convivência cidadã.

Além da qualificação dos agentes de diálogo, a Comissão da CNBB sugere a introdução de comissão de diálogo nas igrejas locais, a participação católica em organismos ecumênicos e na busca de contatos inter-religiosos, o ensino do ecumenismo e das religiões nas faculdades teológicas católicas, o cultivo de uma espiritualidade da comunhão, a parceria interconfessional em prol da justiça, paz e integridade da criação, e a divulgação dos resultados do diálogo ecumênico nas comunidades e na mídia católica.

Fonte: ALC