Grupos de linchadores budistas mataram mais de 200 muçulmanos e obrigaram mais de 150 mil pessoas, na maioria muçulmanas, a deixar suas casas.

O monge budista Ashin Wirathu fez uma arenga contra o que chamou de “inimigo” -a minoria muçulmana do país- diante de uma multidão de devotos. “Você pode estar cheio de bondade e amor, mas não pode dormir ao lado de um cachorro louco”, disse Ashin Wirathu, referindo-se aos muçulmanos.

“Eu os chamo de causadores de problemas, porque eles são isso”, disse Ashin Wirathu a um repórter depois de seu sermão de duas horas. “Eu me orgulho de ser chamado de budista radical.”

Ao longo do último ano, imagens de budistas birmaneses carregando espadas e sermões violentos de monges como Ashin Wirathu salientaram a ascensão do extremismo budistas no país -e revelaram um lado negativo das liberdades reconquistadas no país depois de décadas de regime militar. Grupos de linchadores budistas mataram mais de 200 muçulmanos e obrigaram mais de 150 mil pessoas, na maioria muçulmanas, a deixar suas casas.

Ashin Wirathu nega qualquer participação nos tumultos. Mas os críticos dizem que, no mínimo, sua pregação antimuçulmana ajuda a inspirar a violência.

O que começou no ano passado às margens da sociedade birmanesa cresceu para um movimento nacional cuja agenda hoje inclui boicotes a produtos feitos por muçulmanos. Sua mensagem se espalha por meio de sermões regulares por todo o país que atraem milhares de pessoas.

Os discursos cheios de ódio e violência -que não combinam com a imagem gentil do budismo definida pelas palavras do dalai lama- colocaram em risco o trajeto de Mianmar para a democracia, levantando perguntas sobre a capacidade do governo de manter as cidades seguras e sua disposição a reprimir ou a processar budistas em um país de maioria budista.

As mortes também repercutiram em países muçulmanos da região, manchando o que era visto como uma rara transição pacífica do regime militar para a democracia.

Ashin Wirathu anda sobre uma linha fina entre a livre expressão e a incitação, aproveitando as frouxas restrições à expressão durante um período frágil de transição. Ele mesmo esteve preso durante oito anos pela hoje defunta junta militar por incitar ao ódio. Foi solto no ano passado, como parte da libertação de centenas de prisioneiros políticos.

O budismo tem um lugar seguro em Mianmar. Nove em cada dez pessoas são budistas, assim como quase todos os principais líderes. As estimativas da minoria muçulmana variam de 4% a 8% dos 55 milhões de habitantes do país.

Mas Ashin Wirathu, que se descreve como um nacionalista, diz que o budismo está sitiado pelos muçulmanos, que estão tendo mais filhos que os budistas e comprando terras de sua propriedade. Em parte, ele aproveita as rixas históricas que datam do tempo colonial britânico, quando indianos, muitos deles muçulmanos, foram trazidos para o país como servidores públicos e soldados.

As mensagens duras e nacionalistas que ele espalhou alarmaram budistas de outros países. O dalai lama, depois dos tumultos em março, disse que matar em nome da religião é “impensável” e pediu que os budistas de Mianmar contemplem o rosto de Buda para se orientarem.

Enquanto Mianmar se tornou mais polarizado, houve sinais nascentes de revolta contra a pregação antimuçulmana. Entre os mais decepcionados com os surtos de violência e a retórica de ódio, estão alguns líderes da Revolução do Açafrão de 2007, um levante pacífico liderado por monges budistas contra o regime militar.

“Não esperávamos essa violência quando cantamos pela paz e reconciliação em 2007”, disse o abade do mosteiro Pauk Jadi, Ashin Nyana Nika.

Ashin Wirathu aproveitou as pressões demográficas que vêm do vizinho Bangladesh. Existe um amplo desprezo em Mianmar pelo cerca de um milhão de muçulmanos sem Estado, que chamam a si mesmos de “rohingya” e incluem alguns de Bangladesh.

A canção-tema do movimento de Ashin Wirathu fala de pessoas que “vivem em nossa terra, bebem nossa água e são ingratas para conosco”. “Nós construiremos uma cerca com nossos ossos, se for necessário”, diz o refrão. Os muçulmanos não são citados na canção, mas Ashin Wirathu diz que a letra se refere a eles.

O governo pouco fez para conter Ashin Wirathu. Durante sua recente visita a Taunggyi, policiais esvaziaram os cruzamentos para sua carreata passar. Uma vez dentro do mosteiro, seus seguidores lideraram uma procissão.

Duas horas antes de Ashin Wirathu chegar a Taunggyi, o vendedor muçulmano Tun Tun Naing falou sobre a visita em um sussurro. “Estou realmente assustado”, disse. “Nós dissemos para as crianças só saírem de casa se for absolutamente necessário.”

[b]Fonte: The New York Times via Folha de São Paulo[/b]