Comissão Europeia, que proibiu moeda com símbolos cristãos, é criticada tanto pelos ateus como pelos cristãos fundamentalistas.

No final do 2012, o Banco Nacional da Eslováquia anunciou que a Comissão Europeia, o braço executivo da União Europeia, havia ordenado a remoção de halos e cruzes das moedas comemorativas de euro que seriam lançadas no país.

As moedas, desenhadas por um artista local, tinham por objetivo celebrar o 1.150° aniversário da chegada do cristianismo às terras eslovacas, mas, em lugar disso, tornaram-se símbolo do recuo da Europa moderna com relação à fé. Elas retratam dois evangelizadores bizantinos, os monges Cirilo e Metódio, e violam as regras pró-diversidade, que proíbem favorecimento a qualquer religião.

Em um momento no qual a Europa precisa de solidariedade e de integração, a religião se tornou outra fonte de discórdia. Ela separa a Europa Ocidental -no geral, laica- dos países profundamente religiosos do leste e daqueles que ficam entre esses dois extremos em termos geográficos e religiosos, como a Eslováquia.

A Comissão Europeia está sob ataque de todos os lados. Ela é criticada pelos ateus (por qualquer envolvimento religioso) e pelos cristãos fundamentalistas e nacionalistas (alguns a consideram agente do diabo).

Ao ser questionada sobre essas críticas, Katharina von Schnurbein, funcionária da comissão encarregada de contatos com grupos religiosos e laicos, sorri e diz que pode “garantir que a Comissão Europeia não é o anticristo”.

O cristianismo tem presença profunda na Europa. Mesmo a bandeira da União Europeia -um círculo de 12 estrelas sobre um campo azul- tomou por base uma imagem da Virgem Maria usando uma coroa com 12 estrelas.

Ao longo de sua história moderna, porém, o “projeto europeu” vem tentando evitar a religião e as paixões desregradas que ela pode despertar. Schnurbein descartou as acusações de que a comissão tem uma agenda antirreligiosa. “Lidamos com pessoas com fé e sem fé”, diz.

O departamento que ordenou que a Eslováquia mudasse o desenho de suas moedas disse que não tinha problemas reais quanto aos halos e cruzes, mas que exigiu que eles fossem eliminados em respeito à “diversidade religiosa”, devido a queixas de países como a França e a Grécia.

Diversas das mais importantes figuras da UE são católicas. Angela Merkel, a chanceler alemã, disse aos seus partidários que “o que temos não é islamismo demais, mas cristandade de menos”.

O colapso do comunismo na Europa Oriental desacelerou um pouco a maré laica, quando a União Europeia começou a admitir novos países membros, alguns dos quais profundamente católicos, como a Polônia, a Romênia e a Croácia -país de 4,4 milhões de habitantes majoritariamente católicos e o último a ser admitido.

O Tratado de Lisboa de 2007, que reformulou os dois tratados originais de fundação da União Europeia, evita qualquer referência ao cristianismo e, em lugar disso, presta tributo à “herança cultural, religiosa e humanista da Europa”. O texto determina que haja diálogo com os movimentos religiosos, mas também dispõe tratamento igual para “organizações filosóficas e não confessionais”, entre as quais grupos cuja principal filosofia é a hostilidade à religião organizada.

Stanislav Zvolensky, arcebispo católico de Bratislava, diz que os esforços de unidade europeus estão fadados ao fracasso a não ser que deem lugar mais elevado a Deus. “A religião deveria ser a força interior da união”, diz.

Zvolensky vê um sinal encorajador: o banco nacional eslovaco decidiu manter o desenho original de suas moedas, e a Comissão Europeia aceitou o plano. As moedas comemorativas foram cunhadas em junho -dois meses depois do planejado, mas com halos e cruzes.

[b]Fonte: The New York Times[/b]