Há exatamente dez anos o Iraque foi invadido pelos EUA e seus aliados. Independentemente das razões que levaram à invasão do país pelas tropas norte-americanas, já se podia prever que o resultado disso seria dor, sofrimento e perda.

Embora o governo do ditador Saddam Hussein tenha ruído, o que politicamente pode ser considerado um fator positivo, por outro lado a sensação geral de insegurança e medo gerada pelo aumento do radicalismo religioso aumentou.

A maioria dos cristãos que vive em cidades como Mosul e Bagdá teve de abandonar suas casas devido ao aumento da violência sectária. Estima-se que de 1990 até hoje o número de cristãos no país caiu de 1,5 milhão para menos de 400 mil. Quando não fogem para países vizinhos como a Síria, esses cristãos procuram abrigo na região autônoma do Curdistão iraquiano e ali tentam reconstruir suas vidas, deixando para trás tudo, amigos, familiares, trabalho e bens materiais, exceto sua fé em Jesus.

Crianças cristãs e suas vidas duplas no Iraque
A pequena Nuria e suas irmãs amam cantar músicas sobre Jesus. Mas, quando as pessoas perguntam se elas são cristãs, elas não sabem o que responder. Ao invés disso, olham interrogativamente para a mãe ou o pai, com aquela expressão de “e agora?”.

Nuria tem 6 anos e frequenta uma escola cristã em Kirkuk, no Iraque. Quando seus tios visitam a casa da família, sua mãe esconde tudo o que fizer referência à fé cristã: a cruz na parede, a Bíblia, seus livros de histórias cristãs. A menina sabe que seus parentes são muçulmanos, mas, às vezes, ela esquece. Quando uma das crianças começa a cantarolar uma melodia cristã os parentes repreendem seus pais por não ensinar-lhes canções muçulmanas.

“Em suma, estamos vivendo duas vidas. É muito difícil para as crianças. Somos adultos, e já é complicado para nós vivermos assim; para as crianças é muito pior. Suas próprias personalidades podem ser afetadas”, disse a mãe de Nuria.

A menina e sua família são árabes iraquianos que se converteram do islamismo para o cristianismo.

Os pais de Nuria, assim como muitos convertidos no Iraque, lutam para criar seus filhos como cristãos em uma sociedade que só os aceita como muçulmanos. Se as crianças dizem que acreditam em Jesus, elas enfrentam espancamentos e desprezo de seus professores. Como seus documentos de identificação dizem que são muçulmanos, elas não podem se matricular em escolas cristãs e, por isso, são obrigadas a ter aulas de religião islâmica. Da mesma forma, por serem reconhecidas legalmente como muçulmanas, mais tarde, elas só poderão se casar com outro muçulmano, sob ritos islâmicos.

Em um Iraque dividido por questões nacionais e religiosas, não há refúgio seguro para a família de Nuria e outras famílias árabes muçulmanas que se convertem ao Senhor Jesus. Geralmente, as grandes cidades são bons lugares para cristãos se esconderem, longe de famílias extensas e observadores que possam detectar um comportamento estranho, como frequentar a igreja aos domingos. No entanto, vizinhos muçulmanos ou empregadores que descobrem cristãos podem tornar suas vidas insuportáveis.

Há sete anos, os pais de Nuria se tornaram cristãos. A vida era mais fácil antes. Seu pai, um carpinteiro, costumava falar abertamente sobre sua fé. Esses dias, ele não está mais tão corajoso: teve que mudar de emprego muitas vezes porque seus empregadores descobriam sua fé e o perseguiam.

Filhos de cristãos ex-muçulmanos carregam a identificação de muçulmanos em seus documentos, por esse motivo, essas crianças não podem frequentar escolas cristãs. A irmã mais velha de Nuria concluiu o ensino fundamental em uma instituição para cristãos. Antes do início do novo ano escolar, porém, o diretor da escola chamou os pais para dizer-lhes que não poderia assumir a responsabilidade de sua filha ser capaz de terminar o ano letivo alegando que poderia enfrentar punições se fosse descoberto que uma “muçulmana” estuda em um colégio cristão.

“Meus filhos estão sofrendo”, disse o pai de Nuria. “Estamos nos mudando de um bairro para outro e meus filhos sofrem as consequências disso. Eu vou colocar as minhas duas filhas em uma escola particular. A igreja vai pagar pelos estudos de uma, e eu vou pagar pela outra.”

“Algumas pessoas me dizem que é minha culpa os problemas que enfrentamos, já que eu digo às pessoas que sou cristão”, disse ele. “Eu estou tão confuso. Na Bíblia diz que quem nega a Deus em público, também Deus o negará, então o que eu posso fazer?” desabafou o pai de Nuria.

O que atraiu os pais Nuria ao cristianismo foi a liberdade que Cristo oferece. Mas, por conta da perseguição que enfrenta em Kirkuk, a família se sente presa.

A Constituição Federal do Iraque defende que cada indivíduo tem liberdade de pensamento, de consciência e de crença, mas não há nenhum artigo sobre a possibilidade de mudança de religião. Assim, é juridicamente impossível aplicar a liberdade de crença aos casos de convertidos, segundo um advogado cristão iraquiano sob a condição de anonimato.

Assim como Nuria e sua família, milhares de cristãos do Iraque lidam todos os dias com a incerteza e o medo de ataques de grupos radicais islâmicos. Talvez, a única garantia que eles têm é a de que estamos orando para que Deus guarde suas vidas e sua fé.

[b]Fonte: Portas Abertas Brasil e outras agências [/b]