Igreja Mundial do Poder de Deus no último dia 3 de maio: cerca de 3 000 fiéis no culto em meio a pandemia do coronavírus(Foto: Egberto Nogueira/Ímãfotogaleria/VEJA)
Igreja Mundial do Poder de Deus no último dia 3 de maio: cerca de 3 000 fiéis no culto em meio a pandemia do coronavírus(Foto: Egberto Nogueira/Ímãfotogaleria/VEJA)

João Batista Jr.
Revista VEJA

O isolamento social propagado por entidades médicas como forma de evitar a contaminação pelo coronavírus não tem sido respeitado por algumas das maiores denominações neopentecostais do Brasil.

Líderes religiosos de três das principais denominações neopentecostais – Universal, Mundial e Renascer – estão de portas abertas para receber fiéis e dízimos durante a quarentena. A equipe da VEJA esteve em cultos na sede dessas três igrejas.

Embora respeitem a regra de ocupar 30% da capacidade dos lugares, elas colocam sob um mesmo teto 3.000 pessoas.

Igreja Mundial

Do púlpito de sua igreja instalada no bairro do Brás, em São Paulo, Valdemiro Santiago define a Covid-19 como “Exu Corona” e afirma que o número de mortos no Brasil é fake news. “Isso é coisa do maligno: simular que alguém morra para aterrorizar as pessoas”, praguejou. Valdemiro se referia a uma notícia falsa, propagada pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), de que caixões vazios estariam sendo enterrados no Ceará. Algumas pessoas dão testemunho de cura do coronavírus. “Quem cura é Deus não a ciência”, diz Valdemiro.

Ele reclama de que vários donos de imóveis locados pela Mundial estão entrando com ação de despejo por falta de pagamento. Ocorre que a Mundial de Valdemiro tem dezenas de processos, anteriores à pandemia, por não honrar com os aluguéis. Mas, evidentemente, os atrasos ficaram maiores.

Só entre março e abril, a Igreja Mundial do Poder de Deus foi alvo de oito novas ações de despejo impetradas na Justiça do estado de São Paulo. Os processos dizem respeito aos atrasos de pagamentos nas locações de templos da igreja de Valdemiro Santiago. Os valores cobrados variam de 30.000 a 1,3 milhão de reais. Na Justiça do Brasil todo, há outras dezenas de ações contra a instituição pela mesma razão.

A Mundial tem o costume de, na hora de firmar contrato de locação de imóvel, pagar com antecedência ao menos três aluguéis. “Em um primeiro momento, a minha cliente achou que não teria problema diante desse pagamento adiantado”, diz advogado Pedro Toloto, que representa uma proprietária lesada da cidade de Monte Mor, interior de São Paulo. “Mas depois, nada de dinheiro. A Mundial deixou de nos pagar os aluguéis bem antes da questão da Covid, mas só em abril demos entrada com a ação.”

“Entrei com um processo porque ele não paga o aluguel do imóvel locado em Monte Mor, interior de São Paulo, há vários meses”, diz o advogado Diego Toloto. “Na verdade, a Mundial deu um caução inicial. Depois de poucos meses de locação, deixou de honrar com o aluguel.”

Para reverter os tempos de vacas magras, um retorno às suas raízes rurais: Valdemiro oferece semente de feijão por 1.000 reais para manter a prosperidade e livrar o fiel do coronavírus. “Vou plantar em cada um para meus filhos, netos… façam o mesmo”, recomendou ele em um culto acompanhado pela reportagem de VEJA no último domingo, 3.

O procurador Wellington Saraiva pediu ao Ministério Público de São Paulo que denuncie o pastor Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, por suposta prática de estelionato.

O pedido veio após o pastor prometer uma falsa cura ao coronavírus por meio do uso de sementes vendidas por ele.

Igreja Renascer

Com vestido longo de crepe de seda digno de festa, a bispa Sonia Hernandes comandava a cerimônia na sede da Renascer no mesmo dia 3. Segundo ela, a pandemia e a crise econômica não podem ser argumentos para interromper a ida ao templo, tampouco o pagamento do dízimo.

“Quem não entregar, o devorador vai pegar”, pregou ela. Caso a pessoa esteja sem dinheiro, a bispa tem uma saída, repetida ao menos cinco vezes durante o culto: “pega emprestado porque vai multiplicar”. Dois obreiros da Renascer ficaram responsáveis por lembrar os fiéis a usarem máscaras.

Na entrada, é necessário que se assine um termo de compromisso dizendo estar ciente sobre a pandemia e da necessidade de se manter dois metros de distância. Uma bombeira fazia a medição da temperatura de todos que entravam, mas o termômetro estava com problemas: chegou a registrar 28 graus — temperatura de um corpo morto há algumas horas.

Há poucas semanas, diversos pastores da Renascer foram diagnosticados com Covid-19. Procurada por VEJA, a Renascer diz que a contaminação foi fora dos templos.

Igreja Universal

No Templo de Salomão, sede da Universal, de Edir Macedo, há um controle sanitário maior na entrada: funcionários lavam as mãos e aplicam álcool em gel nos fiéis. Macedo tem feito mais cultos e a preocupação com a queda de arrecadação no momento é evidente. “Dar dízimo é cumprir o dever com Deus”, disse ele no último dia 30, pregando que quem não doa corre risco de ficar desempregado.

O Templo de Salomão tem recebido entre 2 000 e 3 000 pessoas por cultos aos fins de semana. Na transmissão das reuniões por redes sociais, Edir Macedo mandou colocar um QR Code no canto da tela para facilitar as doações.

Confrontadas com a quantidade de fiéis presente aos seus cultos, tanto a Mundial quanto a Renascer disseram respeitar a norma de abrir com 30% da capacidade. Há, de fato, faixas que impedem que as pessoas sentem em cadeiras coladas. “Mas não importa, zelar pela vida implica evitar aglomeração”, critica o padre Michelino Roberto, responsável pela paróquia Nossa Senhora do Brasil, uma das mais importantes de São Paulo.

A Igreja Católica baixou uma norma para que não se realizem missas durante a quarentena, gesto seguido por outros líderes religiosos, inclusive protestantes. “A arrecadação de dízimo caiu 90%, mas pouco importa: a prioridade é a saúde e a vida das pessoas”, diz o reverendo Aldo Quintão, da Catedral Anglicana.

Fonte: Revista VEJA