
O desfile apresentado na noite de domingo (15), no Carnaval do Rio de Janeiro, colocou a escola de samba Acadêmicos de Niterói no centro de uma intensa controvérsia envolvendo lideranças cristãs, parlamentares e integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro. A apresentação integrou um enredo em homenagem à trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e incluiu alegorias e alas com teor político e ideológico que geraram críticas imediatas.
Entre os pontos mais questionados esteve a ala intitulada “Neoconservadores em conserva”, formada por componentes fantasiados como latas rotuladas com expressões como “Evangélico de Conserva” e “Crente Conservador”, além de inscrições como “Suco de Ódio” e “Falso Moralista”. A proposta, segundo a descrição oficial da escola, utilizou a lata como símbolo da família tradicional, definida como composta apenas por homem, mulher e filhos.
A ala, identificada com o número 22 — o mesmo número de urna do Partido Liberal — buscou representar os chamados “neoconservadores” como um grupo contrário ao presidente e associado a pautas como privatizações, mudanças nas regras trabalhistas, flexibilização do porte de armas, exaltação militar e interesses do agronegócio. Cada integrante também usava adereços que simbolizavam setores ligados a esse espectro político, incluindo figuras como fazendeiros, mulheres ricas, defensores da ditadura militar e evangélicos.
Carnavalescos afirmaram que a proposta pretendia criticar o que classificam como um “aprisionamento ideológico” presente em determinados setores sociais. A metáfora visual das latas integrava um trecho do desfile chamado “O Tempo da Intolerância”, sugerindo que determinados grupos estariam “presos” a ideias consideradas retrógradas.
Reação de líderes cristãos
A apresentação provocou forte reação da Frente Parlamentar Evangélica e de associações de juristas cristãos, que classificaram a encenação como desrespeitosa à liberdade religiosa. Lideranças afirmaram que o conteúdo caracteriza “cristofobia” ao retratar fiéis como mercadoria descartável em uma prateleira política.
Alegoria com Bolsonaro amplia polêmica
Outro ponto de tensão foi um carro alegórico que exibiu uma figura identificada como Jair Bolsonaro caracterizado como palhaço, atrás de grades, com tornozeleira eletrônica e faixa presidencial. A cena incluía referências visuais a investigações e decisões judiciais em tramitação no Supremo Tribunal Federal ao longo de 2025 e início de 2026.
A representação motivou reação pública da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que publicou nas redes sociais: “Só para registrar um fato histórico: quem foi preso por corrupção foi Luiz Inácio Lula da Silva. Isso é registro judicial e não opinião”. Ela afirmou que a alegoria distorce a realidade jurídica recente do país.
O senador Flávio Bolsonaro também criticou a apresentação e declarou que a escola “atacou o projeto de Deus”, acrescentando que a assessoria jurídica do partido avalia acionar o Tribunal Superior Eleitoral sob a alegação de que o desfile poderia configurar propaganda eleitoral antecipada para a disputa presidencial de outubro de 2026.
Repercussão
A controvérsia ganhou ampla repercussão entre setores religiosos e conservadores, onde o desfile passou a ser classificado como uma “perseguição ideológica”.
O episódio se soma a outras manifestações políticas e culturais recentes que têm intensificado o debate público sobre liberdade religiosa, sátira política e limites da expressão artística no Carnaval brasileiro.
