Pesquisas comprovam que quanto mais espiritualizada é uma pessoa, menores as chances de ela sofrer de ansiedade, depressão e estresse.

Em um dos seus maiores sucessos, Gilberto Gil canta “andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”. Nos anos 80, quando a música ganhou as rádios de todo o país, pouco se falava sobre a influência da religiosidade no bem-estar físico e mental. De lá para cá, muitos cientistas, em todo o mundo, já se dedicaram a estudar essa relação, com resultados surpreendentes até para quem não crê. “Diversas pesquisas já mostraram que pessoas mais espiritualizadas sofrem menos de ansiedade, depressão e estresse, estão menos vulneráveis a doenças cardíacas, vasculares, endócrinas e autoimunes; como consequência, vivem mais e melhor”, garante Ricardo Monezi, pesquisador do Centro de Estudos em Medicina Comportamental da UNIFESP.

Em geral, quem tem fé tende a ser mais otimista e persistente com os desafios do dia a dia. “A experiência religiosa, na maioria das vezes, pressupõe a concentração e a busca do equilíbrio a partir da conexão com alguma força maior em que se acredita, que pode ser feita, por exemplo, a partir da oração”, esclarece Jorge Claudio Ribeiro, filósofo e professor da PUC-SP. “Assim, a pessoa que crê conta com recursos para se refazer mais rapidamente, enquanto a que não acredita em nada tem mais chances de se desesperar diante de uma dificuldade”, justifica. O pesquisador concorda que a espiritualidade facilite a conexão com o divino ou sagrado que zela por nós, produzindo um sentimento de segurança e conforto e ajudando, ainda, a lidar com os grandes mistérios da vida num nível mais subjetivo.

[b]Fé sem religião também vale
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Os benefícios da fé, no entanto, não requerem que ela seja institucionalizada. Ou seja, não é preciso seguir os preceitos de determinada religião ou sequer frequentar qualquer tipo de templo. “Ter fé é assumir um compromisso pessoal com uma determinada visão de mundo, com ideias, ideologias e conceitos que podem ser retirados de uma única religião ou de várias”, afirma David Charles, teólogo e chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

De fato, muitas pessoas praticam uma fé própria e criam um mix de crenças de diferentes origens, sem se submeter a uma única vertente. “A religião e a religiosidade, que é a prática e a vivência da religião, são ferramentas que o ser humano pode usar para desenvolver a espiritualidade, mas não são as únicas”, pondera Monezi. Meditação, leituras diversas, orações e músicas também podem ser empregadas com o mesmo fim. “Até pelo diálogo com outra pessoa, porque um dos maiores exercícios de espiritualidade é a doação amorosa”, exemplifica.

[b]Fé na prática
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Numa perspectiva objetiva, a grande contribuição da fé é oferecer diretrizes para o comportamento, uma vez que ela geralmente está ligada a determinados valores. Por isso mesmo, o ideal é combinar razão e emoção na adoção de uma religiosidade. “Só tem sentido comprometer-se pessoalmente quando se consegue atribuir verdade e valor ao conjunto de princípios que ela expressa”, defende Charles. Quer dizer, não vale acreditar só por acreditar, por achar bonito. “É interessante que a experiência em que se está investindo apresente subsídios que poderão ser usados no dia a dia. Ou seja, o que se aprende no templo precisa fazer sentido no mundo lá fora”, reforça.

Em outras palavras, agir de acordo com o que se prega e vice-versa é o que fortalece a fé. “Quando há coerência entre o que se fala e o que se vive, a fé realmente passa a funcionar como um instrumento para o desenvolvimento pessoal, pautando a mudança real de atitudes”, acredita o teólogo. E ela só é prejudicial quando pressupõe intolerância. “Quando uma determinada fé desrespeita o conjunto de crenças dos outros, automaticamente implica no desrespeito ao ser humano, o que pode levar a sentimentos como raiva e desejo de vingança”, ressalva Monezi.

[b]Fonte: UOL[/b]