Morto em dezembro, Kalashnikov escreveu carta a chefe da Igreja Ortodoxa da Rússia, diz jornal. No documento, militar russo diz: ‘Se meu rifle terminou com a vida de tantas pessoas, pode ser que eu seja culpado?’

O ex-militar russo Mikhail Kalashnikov, que criou o fuzil AK-47, enviou uma carta ao chefe da Igreja Ortodoxa da Rússia manifestando seu temor por ser o responsável por uma arma que matou milhões de pessoas, informou ontem o jornal “Izvestia”.

Kalashnikov morreu em 23 de dezembro, aos 94 anos. Durante sua vida, ele nunca havia manifestado algum tipo de arrependimento em relação à invenção. Em diversas ocasiões, disse que havia inventado o fuzil para defender seu país e não tinha culpa se o usaram para cometer atrocidades.

Na carta publicada pelo “Izvestia”, no entanto, ele afirmou ao patriarca da Igreja Ortodoxa russa, Kirill, que sentia uma “dor espiritual insuportável”.

“Me faço sempre a mesma pergunta que não posso responder: Se meu rifle terminou com a vida de tantas pessoas, pode ser que eu seja culpado pelas mortes, ainda que fossem inimigos?'”.

O documento foi enviado em maio de 2012, em papel timbrado da organização chefiada pelo criador da arma e assinada por ele, que se descreveu como “um servo de Deus, o designer Mikhail Kalashnikov”.

O secretário de imprensa do patriarca Kirill, Alexander Volkov, declarou ao “Izvestia” que o chefe da Igreja Ortodoxa russa escreveu uma resposta pessoal.

“A Igreja tem uma posição muito clara: quando as armas servem para proteger a pátria, a Igreja apoia tanto os seus criadores quanto os soldados que as utilizam”, afirmou Volkov.

Estima-se que a arma tenha vendido mais de 100 milhões de exemplares até hoje. O fuzil foi criado em 1947, quando Kalashnikov era oficial do Exército Vermelho e se recuperava de ferimentos sofridos durante a Segunda Guerra (1939-1945).

Logo, tornou-se a arma padrão da infantaria soviética e passou a ser adotada por exércitos de mais de 80 países, por guerrilheiros radicais e até por terroristas, como Osama bin Laden.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]