O reverendo Georg Ratzinger, irmão mais velho do papa emérito Bento 16, declarou em entrevista no domingo (10) que não tinha conhecimento de que meninos pequenos haviam sofrido abuso sexual no coral de uma igreja alemã conhecida internacionalmente que ele dirigiu por 30 anos.

[img align=left width=300]http://images.teinteresa.es/religion/Georg-Ratzinger_TINIMA20130211_1227_5.jpg[/img]”Não fui informado de maneira alguma sobre abusos sexuais”, disse Ratzinger, 91, ao “Passauer Neue Presse”, um jornal regional bávaro. “Não estava ciente de que quaisquer abusos sexuais estivessem acontecendo naquela época”.

Informações sobre abusos físicos e sexuais no coral, o Regensburger Domspatzen, da Baviera, começaram a surgir em 2010 como parte de uma onda nacional de revelações que vinculava dirigentes da Igreja Católica alemã a maus tratos contra crianças.

Mas um relatório interno da Igreja identificou apenas 72 casos de abuso na diocese de Regensburg, a maioria dos quais envolvendo punição corporal severa.

Na semana passada, Ulrich Weber, o advogado encarregado pelo coral de estudar as acusações de espancamento, tortura e abuso sexual, apresentou suas constatações iniciais, baseadas em mais de 140 entrevistas, metade das quais com vítimas, e no exame dos arquivos.

Weber estimou que entre 1953 e 1992, um terço dos estudantes da escola a que o coral está vinculado sofreu abusos físicos de alguma espécie. Ele disse que os maus tratos em instituições vinculadas ao Domspatzen incluíam pelo menos 40 casos de violência sexual.

Se forem verdadeiras, as constatações voltam a suscitar questões sobre o conhecimento pelo Papa Bento 16 de abusos ocorridos no coral dirigido por seu irmão. O Papa emérito lecionou teologia em Regensburg entre 1969 e 1976.

Durante sua passagem como pontífice, Bento 16 definiu o problema dos abusos sexuais praticados por clérigos como “um pecado dentro da Igreja”, e se reuniu com grupos de vítimas.

Porém, jamais respondeu diretamente a perguntas sobre a maneira pela qual havia tratado questões de abuso sexual em seus postos precedentes, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano, e arcebispo de Munique em 1980, quando um padre pedófilo foi transferido à sua diocese para tratamento.

Em entrevista ao “Passauer Neue Presse” em 2010, Georg Ratzinger pediu desculpas aos alunos que havia esbofeteado antes que punições corporais fossem proibidas na Baviera, em 1980.

Mas vem sustentando firmemente que jamais foi informado de delitos sexuais enquanto dirigia o coral, entre 1964 e 1994. Na entrevista publicada domingo, ele reiterou essa posição.

De acordo com Weber, os abusos sexuais variavam de “carícias a estupros”. Dada a dimensão e a seriedade das acusações, disse Weber a jornalistas na sexta-feira (8), ele acredita que Georg Ratzinger deveria ter sabido do que estava acontecendo.

O bispo de Regensburg, Rudolf Voderholzer, se recusou a comentar sobre as constatações de Weber, afirmando em comunicado que a Igreja desejava conversar com as vítimas e avaliar o relatório final, que deve ser concluído no ano que vem, antes de comentar. As vítimas criticaram a diocese por não ter tratado as acusações com seriedade.

PROVIDÊNCIAS

Abalados pela extensão dos casos de abuso que emergiram em 2010, a Igreja Católica e o governo da Alemanha estabeleceram uma linha para denúncia telefônica de casos de abuso, e para oferecer assistência profissional e judicial às vítimas.

No ano passado, como resultado das acusações, o Legislativo alemão aprovou uma lei alongando o prazo de prescrição para os casos de abuso sexual, que agora vai de cinco a 30 anos, a depender da severidade do crime.

Mas já que a maioria dos casos de abuso envolvendo o Domspatzen aconteceu antes de 1992, apenas alguns poucos deles devem ainda ser passíveis de processo.

Isso torna a demanda das vítimas quanto a uma exposição completa dos passados abusos da Igreja ainda mais importante.

Uma decisão da Igreja em 2013, de cancelar um estudo independente sobre o abuso de crianças por membros do clero, colocou em questão a credibilidade do compromisso da instituição para com a solução do problema.

Roland Büchner, diretor do coral, recebeu positivamente as mais recentes constatações, como um passo importante na direção da transparência.

“O número de vítimas apontado nesse relatório provisório nos horroriza, e gostaríamos de enfatizar que cada caso nos comove profundamente e nos deixa sem fala”, disse Büchner.

“Consequentemente, gostaríamos de aproveitar essa oportunidade para uma vez mais, com o mais profundo choque e vergonha, expressar nossas desculpas às vítimas no Domspatzen e instituições associadas”.

Büchner disse que uma comissão seria formada em fevereiro para discutir como lidar com relatório final. A comissão será formada por um representante das vítimas; dois mediadores; membros da fundação que mantém o coral; Michael Fuchs, o vigário geral; e o bispo.

No domingo, as vozes dos meninos do coral ecoavam nas alturas da catedral gótica de Regensburg, em seu primeiro serviço matinal depois da parada natalina. A maior parte das pessoas presentes preferiu não comentar as revelações mais recentes.

“Vejo como um sinal de que eles estão dispostos a enfrentar o problema”, disse uma mulher que forneceu apenas seu prenome, Annette. “De muitas maneiras, é uma história antiga, mas também é algo que requer muito tempo para investigar devidamente”.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]