Becky Murry fundou a organização missionária “One by One” para levar esperança a crianças em extrema pobreza. (Foto: Reprodução/Instagram).
Becky Murry fundou a organização missionária “One by One” para levar esperança a crianças em extrema pobreza. (Foto: Reprodução/Instagram).

Becky Murray viu seu sonho de ser missionária quase acabar antes mesmo de começar, depois de ter sido abusada sexualmente em sua primeira viagem missionária. Em 2004, a jovem embarcou para Moçambique, com o propósito de atuar com crianças e os mais vulneráveis, através de uma organização humanitária evangélica.

A cristã contou, em entrevista ao Christian Today, que num raro dia de folga, decidiu ir à praia para tomar um banho do sol tropical de Moçambique. Na cultura do país, mulheres não devem deixar os joelhos descobertos, porque caso eles estejam à mostra é um anúncio de que a mulher é uma prostituta.

Porém, Becky relata que queria tanto pegar sol e ficou tão encantada com a beleza da praia ao seu redor, que não notou que um homem o seguia.

“Olhando para trás, eu deveria ter pensado melhor, mas eu queria aquele bronzeado, então eu enrolei minha saia e caminhei até a praia. Havia estrelas do mar lá como eu nunca tinha visto antes. Na verdade, nunca vi nada parecido desde então. Cores vibrantes, lindos tons de vermelho, verde e azul, com tantos tons intermediários. Fiquei cativada por eles, por isso não vi um homem vir por trás de mim. Quando eu estava me curvando, ele levantou minha saia e empurrou seu corpo contra mim. Eu gritei, me virei e recuei”, relata a missionária.

Em choque, Becky conta que vislumbrou de canto de olho o café localizado na praia e caminhou rápido para lá a fim de pedir ajuda. “Eu também precisava ser corajosa e não mostrar medo. Gritei ‘não’ tanto em português como na língua tribal local. Mas mesmo assim ele veio em minha direção, exposto”, relembra.

Duas meninas da sua base missionária que estavam no café, avistaram Becky e correram para socorrê-la. Assim que o abusador viu ela com outras pessoas, ele recuou e fugiu correndo. “Minha educação foi protegida. Eu tenho uma família amorosa. Eu mal tinha saído do Reino Unido. Então, ser atacada desta forma foi um choque. Olhando para trás, deveria ter denunciado o homem à polícia, mas não o fiz”, diz a missionária.

A chama missionária não pôde ser apagada

Mas o drama de Becky ainda não havia acabado. Dois dias depois do abuso, ela e outros jovens estavam ouvindo as palestras matinais na base missionária, que eram exclusivas para os alunos da missão. No meio da aula, um homem bêbado entrou no local e sentou na cadeira em frente a Becky. A jovem logo o reconheceu: era seu abusador.

“Eu queria gritar. Era ele. Senti um aumento de raiva e tive que me conter para não bater nele”, relembra.

Uma das garotas que a tinha ajudado no café, Meredith, viu o que estava acontecendo e se dirigiu até Becky e começou a orar por ela, enquanto a palestra acontecia.

“Toda a raiva e todo o medo me deixaram. Foi imediato. Assim, eu fui capaz de ir até o homem após a palestra e dizer a ele: ‘Jesus ama você.’ Ele olhou para mim, surpreso e perplexo. Ele saiu cambaleando da tenda e eu nunca mais o vi, mas sei que no momento em que ele deveria ter esperado raiva e retaliação, ele viu o amor de Deus. Eu oro para que ele o tenha encontrado”, testemunha a missionária.

Embora Becky tenha perdoado o homem, as lembranças do trauma ainda existiam e ela se questionava se conseguiria continuar seu ministério missionário. “Eu me perguntava se era corajosa o suficiente para fazer esse tipo de trabalho. E se acontecer de novo? E se eu fosse atacada de forma mais severa? Eu poderia lidar com isso?”, indagava.

Mas a missionária entendeu que seu compromisso com sua chamada precisava ser mais forte do que suas emoções e permaneceu no trabalho. Dois anos depois, Becky viveu mais um incidente na África, que mudaria sua vida e a levaria a dar um passo maior em seu ministério.

Esperança para crianças exploradas

Em 2006, caminhando pelas ruas pobres da cidade de Bo, em Serra Leoa, Becky avistou Felicity, uma menina de 9 anos, implorando por dinheiro e descalça. Então, a missionária e suas amigas compraram sapatos e deram para a menina. Mas Becky ficou estarrecida ao perceber que a garota presumiu que ela queria favores sexuais em troca do par de calçados.

Foi neste momento, que a missionária percebeu o terrível problema da exploração sexual de crianças em países de extrema pobreza e decidiu fazer algo por elas. Em 2011, Becky criou a “One by One”, uma organização missionária que alcança crianças em vulnerabilidade social em países de Terceiro Mundo.

O primeiro projeto do “One By One” foi a construção do King’s Children’s Home, no Quênia, com o objetivo de realojar e dar esperança às crianças que, de outra forma, estariam vivendo na extrema pobreza. A organização de Becky também desenvolve um programa para viúvas no norte do Sri Lanka, cujos maridos foram mortos na guerra civil.

Além disso, o The Dignity Project – que fornece educação e artigos sanitários reutilizáveis ​​para adolescentes – foi formado em 2016 e se expandiu para várias nações, como Serra Leoa, Paquistão, África do Sul e Suazilândia. O projeto mais recente é o King’s Children’s Home, no Paquistão, que resgata crianças do trabalho forçado em fábricas de tijolos.

Nesta quinta-feira (10), às 16h (horário de Brasília), Becky Murray vai compartilhar seu testemunho durante o lançamento online de seu livro “Embrace The Journey”, em entrevista à BBC. É possível assistir ao evento gratuitamente, se inscrevendo aqui

Fonte: Guia-me com informações de The Christian Today