No quarto dia da onda de violência que alveja a população de cristãos no Orissa, um Estado do leste da Índia, foram registradas, na quinta-feira (28), uma dezena de mortos e 25 igrejas incendiadas, além dos prejuízos materiais sofridos pelas escolas e os centros de saúde mantidos por cristãos.

Contudo, o toque de recolher havia sido decretado, na terça-feira naquele que acabou sendo o distrito mais atingido, o de Kandhamal, a 300 km de Bhubaneswar, a capital do Estado do Orissa. O papa condenou “com firmeza”, na quarta-feira, “esses ataques contra a vida humana” e lançou um apelo para que as autoridades ponham fim de uma vez por todas a essas ondas de violência religiosa.

Conduzidos por extremistas hindus, esses motins foram deflagrados nos dias que se seguiram ao assassinato, no sábado de um religioso hindu, Laxmanananda Saraswati, de 85 anos, um membro do grupo fundamentalista VHP (Conselho Mundial Hindu), e de quatro dos seus assistentes.

Este religioso era conhecido pelas suas campanhas virulentas contra as “conversões” ao cristianismo por parte de hindus de baixas castas (os “dalits”) e de aborígines (“tribals”) marginalizados.

Imediatamente, a polícia apresentou uma lista de suspeitos, dando conta do possível envolvimento de rebeldes maoístas. Contudo, os dirigentes do VHP preferiram acusar antes “militantes cristãos”, e foi contra estes que eles deram o sinal da vingança.

Na segunda-feira, o orfanato de Panampur (no distrito de Bargarh), que abrigava filhos de pais leprosos e que era mantido por religiosas católicas, foi incendiado. Uma enfermeira, Rajani Majhi, com idade de 20 anos, foi encontrada morta nos escombros.

“Ela apressou-se para colocar as crianças para fora, mas ela mesma não encontrou tempo para fugir”, contou um padre que presenciou o incêndio. O diretor deste estabelecimento, o padre Edward Sequeira, foi molestado pelos amotinados e teve de ser hospitalizado.

Os motins foram se espalhando por outras áreas. Dois responsáveis católicos e um hindu foram mortos, na terça-feira, num confronto que ocorreu na paróquia de Betticola, que pertence à diocese de Bhubaneswar. Enquanto a população procurava refugiar-se nas florestas situadas nos arredores das aglomerações, o número de vítimas não parou de aumentar desde então no distrito de Kandhamal.

Reação no Vaticano

No Vaticano, a reação foi imediata. As autoridades eclesiásticas condenaram simultaneamente o assassinato do dignitário hindu e as represálias que alvejaram uma comunidade cristã que é muito minoritária no Estado do Orissa (2,3% para uma população de 39 milhões de habitantes). “Esses atos de violência são um pecado contra Deus e contra a humanidade”, declarou o cardeal Jean-Louis Tauran, encarregado das relações com as outras religiões. Ele se diz convencido de que a prioridade que foi dada para o “diálogo” com o Islã não deve, de modo algum, ocultar outras ameaças.

O Orissa é um dos Estados onde os extremistas do Partido do Povo Indiano (PJP, nacionalista hindu), andaram se mostrando mais ativos. No Natal de 2007, uma onda de violência contra os cristãos já havia provocado a morte de cinco pessoas neste mesmo distrito de Kandhamal.

Em 1999, em Keonjhar, um grupo de fundamentalistas hindus havia assassinado o pastor australiano Graham Stuart Staines e seus dois filhos, dentro do carro em que estes circulavam. Eles foram queimados vivos.

Fonte: Le Monde

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