Fábio Henrique Paganin, 30 anos, virou pai. O filho, uma criança de pele clara e olhos azulados, está prestes a completar um ano de idade. O detalhe é que Paganin é padre em Rio Preto.

Por conta do relacionamento amoroso, teve de solicitar afastamento da paróquia Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, no Bosque da Felicidade, enquanto seu caso é analisado pela Diocese. Ele pode ter de abandonar o sacerdócio em definitivo.

O caso de Paganin reacende a polêmica do celibato na Igreja Católica. Padres e teólogos defendem sua flexibilização, para possibilitar a ordenação de padres casados, no momento em que o catolicismo carece de sacerdotes. De acordo com o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), o Brasil tem hoje um padre para cada 8,6 mil habitantes – a Itália tem um para cada mil.

Casos de padres pais são raros e costumam ser ocultados pela Igreja. Na região, são conhecidos apenas três padres que tiveram filhos no exercício do ministério – um deles abandonou em definitivo o sacerdócio. Em outros seis casos, os párocos abandonaram a batina formalmente antes de optar pela vida conjugal.

Nascido em Mirassol, Paganin foi ordenado padre há quatro anos. Começou na paróquia São Sebastião, em Talhado, distrito de Rio Preto, e depois passou a acumular também a paróquia do Bosque da Felicidade. Foi quando se relacionou com uma paroquiana. “Caí em tentação e tive um relacionamento afetivo”, disse por meio de carta enviada ao Diário – ele preferiu não dar entrevista.

Na carta, Paganin não dá detalhes desse relacionamento. Diz apenas que foi resultado de seu envolvimento nas duas paróquias. “Eu me apaixonei pelo trabalho e me envolvi de todo o coração. E talvez tenha sido meu ativismo dessa época a fonte de toda a situação futura, pois me atrapalhava pensar, rezar, avaliar.”

Ele soube da criança semanas antes dela nascer, em abril de 2012. Aguardou a posse do novo bispo, dom Tomé Ferreira da Silva, em novembro, para comunicá-lo do fato, e,orientado pelo bispo, no dia 13 de janeiro último pediu afastamento da paróquia. Aos fiéis, alegou “problemas pessoais”.

Desde então, tem dado aulas para sustentar o filho. O afastamento, segundo a Diocese, é por tempo indeterminado – o caso ainda será examinado por dom Tomé. Mas o padre tem esperanças de retornar ao ministério. “Espero muito um dia poder voltar ao meu ministério, pelo qual sou apaixonado. Sei que vou passar pelo crivo do meus superiores, das sanções da Igreja, da misericórdia das pessoas, mas, sobretudo, sei em meu coração a grande missão à qual o Senhor me chamou.”

Para o padre Márcio Tadeu, porta-voz da diocese, há chances de Paganin voltar às atividades sacerdotais. “Não podemos crucificá-lo, mas olhar o caso com misericórdia. Sabemos das qualidades e do empenho dele. Esperamos que nesse tempo de afastamento, ele reflita sobre sua vocação”, afirma.

[b]Gêmeos[/b]

O padre V.G., 48 anos, – ele prefere não ser identificado – teve essa segunda chance. Nascido em Nhandeara, o pároco estava à frente de uma paróquia em Promissão, na Diocese de Lins, quando em 2007 teve, segundo ele, um “momento infeliz”. “Eu estava em um bar em Rio Preto quando conheci uma mulher. No mesmo dia, saímos e tivemos relação sem camisinha”, diz V.G. Duas semanas depois, a mulher, R.S.C., o procurou, dizendo estar grávida. “Embora fosse a solução mais simples, o aborto jamais passou pela minha cabeça”, diz.

Em 11 de maio de 2008, nasceram os gêmeos P. e S. no Hospital de Base, conforme atesta a certidão de nascimento de ambos. A partir desse momento, segundo o padre, a mulher começou a chantageá-lo. “Nunca desamparei meus filhos, mas ela queria, além da pensão, uma casa, um carro e uma carteira de motorista.”

Diante da negativa do padre, em novembro daquele ano a mulher apareceu na paróquia em Promissão com os filhos. Entregou os gêmeos ao sacristão e, na versão do padre, começou a gritar na frente da igreja que o padre era pai. O caso foi parar na diocese.

Imediatamente, V.G. foi afastado da paróquia, e seu caso foi remetido ao Vaticano. O padre passou por acompanhamento psicológico até 2010, quando foi perdoado e pôde retomar o sacerdócio, desta vez em Avanhandava, onde teria novo problema com mulheres (leia mais nesta página). Atualmente, V.G. comanda uma paróquia em outra diocese no interior paulista.

Diz pagar regularmente a pensão aos filhos, que ele visita pelo menos uma vez por mês em Rio Preto, onde moram com a avó – ele afirma não ter mais contato com a mãe das crianças. Perguntado se sente orgulho por ser pai, ele reflete. “Tenho orgulho, mas no meu caso é diferente de um pai comum. Não me preparei para essa condição. De todo modo, não posso deixar que elas se sintam um erro. O amor existe em qualquer circunstância.”

[b]Bispo defende a flexibilização do celibato
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O bispo de Jales, dom Demétrio Valentini, defende a flexibilização do celibato na Igreja Católica, para que sejam ordenados padres homens casados. A mudança, argumenta o bispo, permitiria minimizar a carência de padres no Brasil. “Ficaria menos traumática a necessidade de padres”, afirma.

“A solução não é casar os padres, mas ordenar homens casados, que seriam indicados pelas próprias comunidades, pessoas já maduras que poderiam receber a ordenação presbiteral, para estarem à disposição das comunidades”, diz dom Demétrio, conhecido por sua posições mais liberais em relação aos costumes da Igreja.

Com menor necessidade de padres celibatários, diz o bispo, haveria mais espaço para a livre opção, e o celibato só seria adotado por pessoas que realmente quisessem adotar essa escolha. Apesar da tese, Dom Demétrio defende a importância do celibato, “bonito testemunho de doação da própria vida, feita com amor, que se traduz em tantas obras levadas em frente por religiosos”.

Para ele, o que está em jogo não é o celibato como opção de vida, mas como condição para o ministério sacerdotal. Por isso, a flexibilização exige tempo para discussão e reflexão, uma vez que “mexe com a espinha dorsal do ministério eclesial”.

Para Valeriano dos Santos Costa, diretor da Faculdade de Teologia da PUC em São Paulo, mudanças no celibato devem ser discutidas em breve pelo novo papa, Francisco. “É possível que a Igreja passe a ordenar padres casados em um curto espaço de tempo”, diz.

Diferente do voto de castidade de algumas ordens do catolicismo, o celibato dos padres diocesanos, “de paróquias”, não é vocação, mas disciplina da Igreja, argumenta o teólogo da Universidade Metodista Jung Mo Sung, que também é especialista em ciências da religião. Segundo ele, o celibato foi imposto pela Igreja na Idade Média para disciplinar a atividade, já que muitos homens sem vocação se tornavam padres.

Agora, nos tempos modernos, mudanças nas regras do celibato podem ser vitais para a própria sobrevivência do catolicismo, diz Sung. “Ordenar homens casados permitiria um crescimento no número de sacerdotes, principalmente na África, onde, por uma questão cultural, a aceitação ao celibato é muito pequena.”

Outra vantagem, ainda que indireta, é combater o problema do homossexualismo e da pedofilia dentro da Igreja. “O celibato seria opção para aqueles realmente vocacionados ao ministério, e deixaria de ser refúgio para aqueles que, por opção sexual, não querem constituir uma família tradicional.”

O teólogo também acredita que o novo papa vai promover mudanças sobre essa disciplina do catolicismo. “Quando acontecem fatos inesperados, como a renúncia do papa Bento e a escolha de um papa jesuíta, surgem condições para atos igualmente inesperados”, argumenta.

[b]Ortodoxos[/b]

Diferente da Igreja Católica Romana, a Igreja Cristã Ortodoxa admite a ordenação de padres já casados. “Apenas padres ordenados solteiros é que não podem se casar depois”, explica o padre Nicolas Ferzoli, responsável pela igreja em Rio Preto. O celibato também vale para bispos.

O próprio Ferzoli é filho de padre ortodoxo, e também é casado, com três filhos e sete netos. A Igreja Ortodoxa foi criada em 1054, a partir do cisma da Igreja Católica Romana. Sua doutrina guarda muitas semelhanças com a dos católicos romanos.

[b]Dom Tomé se cala de novo
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O bispo de Rio Preto, dom Tomé Ferreira da Silva, não quis comentar o episódio envolvendo o filho do padre Fábio Henrique Paganin. É a segunda vez que o bispo se cala diante de polêmicas dentro da diocese. Em dezembro do ano passado, dom Tomé também não quis comentar o posicionamento do padre Cleomar Bessa da Silva, titular da paróquia Santa Terezinha, no Parque Industrial, em Rio Preto, a favor do casamento gay nas redes sociais da internet.

“O bispo não irá se pronunciar e recomenda que seja ouvido o próprio padre Cleomar. Tal recomendação considera o fato de ‘a pessoa’ Cleomar, em seu perfil em rede social (Facebook), não apresentar-se no exercício direto de seu ministério, externando ali opinião que só a ele cabe justificar”, informou a assessoria de imprensa da diocese por meio de nota.

Na semana passada, o bispo, diferente dos seus colegas das dioceses de Catanduva e Jales, também não quis dar entrevista ao Diário a respeito da escolha do novo papa, Francisco, o argentino Jorge Mario Bergoglio.

[b]Decisão difícil, mas o amor venceu
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Eles quebraram uma tradição secular ao trocar a batina pela possibilidade de formar uma família comum, com mulher e filhos. Pelo menos seis padres abandonaram o sacerdócio nas três dioceses da região (Rio Preto, Jales e Catanduva) para poder se casar. Um deles é o espanhol Jesus Piñera, 50 anos. Ordenado padre agostiniano na Espanha, em 1986 Piñera mudou-se para São Paulo, e no ano seguinte para Rio Preto, onde passou a trabalhar no Colégio São José.

Foi lá que, meses depois, conheceu a professora Margarete, por quem se apaixonou. Em 1992, veio a decisão radical: Piñera abandonou o ministério para se casar com Margarete. Também deixou o colégio, e passou a dar aulas de espanhol e trabalhar em loja de produtos importados. Nasceu a primeira filha, Laura, e logo ele assumiu a direção do colégio Coopen. Veio então a segunda filha, Carmen.

Embora suspenso do ministério, formalmente Piñera não deixou de ser padre. Por isso, casou-se apenas no cartório, já que não poderia contrair o sacramento do matrimônio. Isso só foi possível em 2005, quando o Vaticano autorizou a chamada “redução ao estado laical”, pela qual o espanhol tornou a ser leigo.

“Até então, ficava em uma situação constrangedora, porque não podia comungar, e minhas filhas me questionavam por isso”, afirma.
Para Sérgio Francisco Valle, 58 anos, a troca veio cercada de reflexões e sofrimento. Em 1996, quando já acumulava 17 anos de sacerdócio, conheceu a jornalista Rosane.

No início, tentaram se afastar, mas em 2000, após quatro anos de crises psicológicas, Valle largou de vez a batina e solicitou ao então papa João Paulo 2º a “exclaustração” – diferente da “redução ao estado laical”. Ele não abandonava a condição de padre, mas não poderia mais exercer o sacerdócio. A concordância do Vaticano veio apenas em 2005. No ano seguinte, ele subia ao altar não mais para celebrar o matrimônio de outra pessoa, mas o seu próprio com Rosane. Hoje o casal tem dois filhos: Pedro, 9 anos, e João Pedro, 3.
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Sem arrependimento
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Nem ele nem Piñera se arrependem da escolha. “Conservo meu amor pela Igreja”, diz o espanhol. Ambos defendem mudanças nas regras do celibato, para ordenar padres já casados. “Defendo o direito à escolha, até por mudanças no perfil familiar. Hoje os casais têm um ou no máximo dois filhos. Por isso são resistentes a que um se torne padre e não dê sequência à linhagem familiar”, argumenta o ex-padre Piñera.

Para Valle, o celibato é importante para “facilitar a dedicação ao povo através do Evangelho”. Mas, segundo ele, padres casados poderiam ser úteis em paróquias menores, que demandam menos trabalho.

[b]Um filho para o padre Ézio
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O padre Ézio Datres, 72 anos, de Buritama, é pai adotivo de um garoto de 17 anos. Ézio, nascido na Itália, conheceu a criança quando ela era um bebê de pouco mais de um mês, em Ouro Preto do Oeste, Rondônia. Na época, o padre também era membro do Conselho Tutelar no município de 37,9 mil habitantes, e acompanhava o abrigo de menores local. Foi lá que teve contato com a criança, filha de um casal de migrantes do Paraná. “Eles eram muito pobres. Retornaram para a terra natal e deixaram três crianças. Eu acabei me afeiçoando a uma delas, e passei a ficar mais próximo”, diz o padre.

Em 2002, ele foi transferido para a Diocese de Rio Preto e solicitou ao então bispo, dom Orani Tempesta, autorização para adotar o menino, chamado Kézio. Com a permissão, o padre teve também autorização judicial para adotar a criança e registrá-la tendo ele como pai. Hoje, Kézio chama o padre de pai e estuda engenharia mecânica em uma faculdade de Araçatuba.

“As pessoas perguntam como eu posso ser filho de padre. Aí tenho de explicar sempre”, diz

[b]Fonte: Região Noroeste[/b]