Francisco, que cumpre 100 dias de pontificado nesta quinta-feira, aproxima-se dos fiéis mas mantém-se fiel ao pensamento dos antecessores, nas questões do aborto, casamento homossexual e ordenação de mulheres.

O papa Francisco completa nesta quinta-feira, 100 dias à frente da Igreja Católica. O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, foi eleito Pontífice em 13 de março e foi entronado, oficialmente, no dia 19.

A eleição de Bergoglio foi histórica, já que ocorreu após a renúncia do papa Bento XVI. O argentino também foi o primeiro latino-americano a ser eleito ao encargo e o primeiro jesuíta.

Nesses 100 dias de Pontificado, Bergoglio — declaradamente torcedor do clube argentino San Lorenzo — ficou marcado por sua informalidade e discursos que pregam a humildade. Em diversas ocasiões, ele quebrou protocolos durante cerimônias oficiais, como quando assinou o gesso de uma menina na Praça São Pedro ou dispensou veículos oficiais do Vaticano.

Em sua primeira celebração de Páscoa como Papa, Bergoglio presidiu uma missa na prisão para menores Casal del Marmo, em Roma. Lá, ele lavou pés de jovens detentos.

No dia 12 de maio, na praça de São Pedro, onde se encontravam os participantes de uma grande marcha em “defesa da vida”, Jorge Bergoglio pediu solenemente aos governos “uma garantia jurídica para o embrião (…), para proteger todos os seres humanos, desde o primeiro momento da existência”.

Antes, o papa recebeu no Vaticano as superioras das ordens femininas de todo o mundo, num encontro dominado pela contestação das religiosas norte-americanas da LCWR (Conferência da Liderança das Mulheres Religiosas), que o Vaticano considera radicais e feministas.

Francisco reafirmou a validade da obediência à ordem, imposta pelo papa emérito Bento XVI, e pediu às religiosas que voltassem a encontrar o sentimento de pertença à Igreja.

As religiosas norte-americanas questionam a supremacia masculina na hierarquia do Vaticano e defendem posições mais liberais sobre o aborto, a contracepção e a homossexualidade.

Categoricamente oposto à legalização do casamento homossexual, o papa celebra a família e a defesa do casal – tal como Bento XVI, ou João Paulo II – formado por um homem e uma mulher, com crianças.

Jorge Bergoglio chegou ao papado com a reputação de um conservador de rosto humano, que adotou posições pragmáticas em defesa das uniões civis. Na Argentina, criticou os bispos que recusavam batizar crianças de casais não casados.

Em todas as posições tomadas, Francisco evitou condenar pessoas e comportamentos privados, mas aos responsáveis pediu a proteção da vida, da família e da criação.

Sobre a reforma da Cúria, o papa reconheceu, de acordo com o site católico progressista “Reflexão e Libertação”, durante um encontro privado com religiosos latino-americanos em 06 de maio, que “na Cúria, há pessoas verdadeiramente santas, mas também há uma corrente de corrupção”.

“Fala-se de um lóbi gay e é verdade, existe. É preciso ver o que podemos fazer”, acrescentou, na mesma ocasião.

Durante o mesmo encontro, o papa teria afirmado não poder realizar “sozinho a reforma” da Cúria. Esse será o trabalho de oito cardeais, já nomeados e que se vão reunir pela primeira vez, de forma oficial, em Roma,em Outubro. Francisco afirmou trabalhar estreitamente com os oito cardeais para reformar a Igreja.

Para o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, tratou-se de uma “conversa privada”, à qual não assistiu, e sobre a qual não tinha “qualquer comentário a fazer”.

Antes da eleição de Jorge Bergoglio, em 13 de março, vários jornais italianos referiram a existência de um lóbi gay. A Santa Sé considerou estas acusações “calúnias e desinformação”.

Outro tema preferido do papa, é a pobreza na Igreja.

“Quando queremos fazer uma Igreja rica, a Igreja envelhece, não tem vida”, disse, perante uma pequena assembleia que incluía o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Muller.

“É preciso continuar as obras da Igreja – e algumas são um pouco complexas – mas com um coração habitado pela pobreza”, insistiu.

Estas declarações, difundidas pela Rádio Vaticano, podem acentuar o desconforto de uma parte da Igreja institucional, defensora de alguns privilégios.

Numa outra reflexão original da parte de um papa, Francisco explicou aos religiosos que não devem ter medo de se enganar. “Talvez recebam uma carta da Congregação da Doutrina da Fé (a sucessora da Inquisição). Mas não se preocupem, expliquem o que houver a explicar e em frente!”.

Aos fiéis, Francisco – de formação jesuíta – pediu um maior envolvimento na política.

“É uma obrigação dos cristãos, que não podem lavar as mãos como (Pôncio) Pilatos. A política é a forma mais elevada de caridade, porque procura o bem comum”, afirmou.

Além de uma reforma profunda da Cúria Romana, os católicos liberais esperam que o papa autorize, um dia, os homens casados a serem padres, a ordenação das mulheres, a liberalização da posição da Igreja sobre a pílula e o preservativo, a integração de divorciados e homossexuais.

Entre os dias 23 e 28 de julho, Francisco fará sua primeira viagem internacional. Ele irá ao Rio de Janeiro por ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e visitará o Santuário Nacional de Aparecida, que fica no estado de São Paulo.

[b]Fonte: Ansa e Diário Digital de Portugal[/b]