Papa Francisco pensativo
Papa Francisco pensativo

No próximo domingo (26), durante uma visita de dois dias à Irlanda, o papa Francisco fará sua peregrinação pessoal à Basílica de Nossa Senhora de Knock. Verá um complexo moderno, com centros de aconselhamento para a juventude inaugurados recentemente, um museu e um hotel, cercados por hectares de gramados bem cuidados.

O complexo está todo conectado por fibra ótica e wi-fi, e conta com sistemas de som modernos e perfeitamente capazes de atender os suplicantes do século 21.

Mas o santuário de Knock é uma ilha de fé em um mar de problemas para a Igreja Católica na Irlanda. O número de fiéis vem caindo muito no país e a autoridade de seu clero, no passado todo-poderoso, sofreu abalos sucessivos —primeiro quando o Legislativo do país revogou restrições contra o controle da natalidade, homossexualidade e divórcio e, mais recentemente, em dois referendos de resultado chocante.

Em 2015, a Irlanda se tornou o primeiro país do mundo a aprovar o casamento homossexual em referendo popular. Em maio, o país revogou alguns dos mais severos controles sobre o aborto entre os países desenvolvidos, em uma votação por margem esmagadora que marca a transformação da Irlanda em um Estado socialmente liberal, não mais obediente aos ditames católicos.

As duas votações “ilustram a rapidez do avanço da cultura laica na Irlanda —eles conseguiram em uma geração o que demorou séculos em outros lugares”, disse Crawford Gribben, professor de história na Universidade Queen’s, em Belfast.

Em companhia dessas mudanças sociais dramáticas, o comparecimento às igrejas despencou. Isso é perceptível nas manhãs de domingo, em paróquias de todo o país, com padres idosos e de mãos trêmulas ministrando a comunhão a um punhado de aposentados, em meio a fileiras e mais fileiras de bancos vazios.

No passado o mais católico dos países europeus, a Irlanda hoje é um lugar em que apenas um terço dos adultos vai à missa semanalmente, de acordo com pesquisas.

Os católicos irlandeses também se chocaram com as notícias explosivas surgidas nos Estados Unidos, onde um júri de instrução determinou que centenas de sacerdotes haviam praticado abusos sexuais contra mil crianças da Pensilvânia.

“Seria possível dizer que a Igreja está no fundo do poço”, disse Richard Gibbons, pároco no santuário de Knock.

Os escândalos relacionados a abusos sexuais “reduzem nossa autoridade moral”, ele disse. “E houve uma reação contra o domínio que um dia exercemos sobre a sociedade irlandesa”.

A igreja que ele comanda poderia trazer de volta os fiéis que se afastaram, disse Gibbons, “mas temos de ir a eles”.

Nada de julgamento, disse o padre. Só coração aberto. “Se você não se confessa há muito tempo, venha nos procurar. Estamos aqui para ajudar.”

Gibbons disse que os 45 mil ingressos para ver o papa em Knock neste mês foram distribuídos em poucas horas, o que ele toma como sinal de fervor persistente.

No entanto, quando o papa João Paulo 2º visitou Knock em 1979, um momento importante para a Igreja na Irlanda, 450 mil pessoas assistiram ao discurso do pontífice. Fotos do evento mostram multidões de fiéis se estendendo até o horizonte, sob céus tempestuosos —como se estivessem em uma versão católica de Wooodstock.

Isso ficou no passado. Os irlandeses hoje falam abertamente sobre a morte da Igreja, o fim da Igreja, ou, entre mais otimistas, sobre a busca de um novo modelo de religião, mais individualizado, sob a qual as pessoas escolhem de que maneira viverão sua fé, aceitando ou rejeitando os ensinamentos da igreja sem medo de consequências.

No mais recente recenseamento irlandês, em 2016, 78% dos irlandeses se declararam católicos, ante 93% três décadas antes.

Embora essa continue a ser uma maioria considerável, os sinais de declínio da religião estão visíveis em toda parte. Os jovens católicos, equipados com celulares, expressam indiferença, e seus pais expressam vergonha pelos muitos pecados da Igreja, especialmente as décadas de abusos contra crianças, aqui, e os esforços da Igreja irlandesa, apoiada pelo Vaticano, para acobertá-los.

Em 1961, o papa elogiou a Irlanda como um dos países que mais produziam padres católicos, enviados para servir no mundo todo, especialmente os Estados Unidos, mas hoje as fileiras do clero estão se reduzindo rapidamente.

No ano passado, apenas seis jovens se matricularam no seminário nacional do St. Patrick’s College, em Maynooth, para formação como padres, “o que se acredita ser o menor número já registrado desde sua fundação em 1795”, de acordo com o jornal Irish Times.

A idade média de um padre católico na Irlanda hoje é de 70 anos, e as sacristias começam a parecer casas de repouso.

Abuso sexual

A sucessão de escândalos de abusos que desgraçaram a Igreja na Irlanda —como nos Estados Unidos, Austrália— e outros países começou a ser revelada na década de 1990, com acusações fundamentadas contra sacerdotes por praticarem sexo gay consensual, romperem os votos de celibato, terem filhos e molestarem e estuprarem crianças e adultos.

Pior ainda é que os escândalos revelaram de que modo a Igreja irlandesa, apoiada pelo Vaticano, acobertou ativamente os crimes, protegeu os responsáveis e ignorou as vítimas.

Em 2011, o então premiê irlandês Enda Kenny condenou as “disfunções, desconexão, elitismo e narcisismo” que, segundo ele, dominavam a cultura do Vaticano. “O estupro e tortura de crianças eram minimizados ou ‘administrados’, em nome de sustentar a primazia da instituição, seu poder, sua posição e sua ‘reputação’.”

Quando Francisco celebrar uma missa no Phoenix Park de Dublin, no domingo, depois de sua visita a Knock, vítimas de abusos cometidos pela Igreja estarão reunidas no Jardim da Recordação.

Um dos organizadores do evento é Colm O’Gorman, diretor-executivo da Anistia Internacional em Dublin, que falou publicamente sobre os abusos sexuais cometidos contra ele na infância por um padre.

Os católicos da Irlanda querem que Francisco fale sobre o papel da Igreja Católica nos escândalos por abusos, disse O’Gorman. Querem que Francisco peça desculpas, se encontre com as vítimas e prometa que a Igreja se sairá melhor.

“Para lidar com qualquer trauma ou grande falha, a primeira coisa é reconhecer sua verdade. Como avançar se o simples fato é ignorado?”, ele disse. “Pesar e arrependimento são uma resposta humana. Mas não equivalem a um reconhecimento e um pedido de desculpas.”

Fonte: Folha de São Paulo