Bento 16 estará no Líbano entre os dias 14 e 16 de setembro, em um contexto marcado pela crise síria e suas consequências para os cristãos.

Alguns religiosos veem na viagem que Bento 16 se prepara para efetuar ao Líbano, entre os dias 14 e 16 de setembro, o mais arriscado dos deslocamentos de um papa ao exterior, ainda mais com o choque provocado pelo atentado de Benghazi, que matou o embaixador dos Estados Unidos na Líbia.

O contexto no mínimo instável que prevalece no Oriente Médio e a perigosa proximidade da vizinha Síria foram considerados. Mas Bento 16 repetiu, no último domingo (9), a partir de sua residência em Castel Gandolfo, quais são seus princípios: “Minha viagem apostólica ao Líbano e, por extensão, a todo o Oriente Médio, é dedicada à paz”.

Embora sua comitiva tenha lembrado que essa viagem é “pastoral e eclesiástica”, mais do que política, não é certeza de que o tom geral vá escapar da atualidade imediata: a vida das comunidades cristãs no Oriente é amplamente sujeita aos sobressaltos da região…

Provavelmente o papa lembrará o posicionamento prudente e atento da Igreja frente às “dificuldades” originadas das “primaveras árabes”.

De fato, a razão dessa viagem é a mensagem de encorajamento de um líder religioso a um rebanho apreensivo. O papa voltará a falar sobre a antiga preocupação do Vaticano frente ao “êxodo mortal” dos cristãos de uma região que viu nascer o cristianismo e que a Igreja católica se recusa a considerar como um museu a céu aberto. Mas ele também deverá reforçá-los em sua permanência no local, como atores “de justiça, de concórdia e de paz”.

Na sexta-feira, Bento 16 retomará a exortação apostólica redigida após o sínodo de Roma sobre o Oriente Médio em outubro de 2010. Um “documento programático fundamental para a vida e a missão da Igreja católica no Oriente Médio e seu papel de promotora do diálogo e da paz”, considerou o porta-voz do Vaticano, antes da viagem.

Os 165 bispos reunidos dois anos atrás para iniciar esse trabalho de reflexão haviam realizado um discurso alarmista, e político, sobre a precariedade da situação dos cristãos na região. Eles se preocupavam com a partida das novas gerações, por razões econômicas, de segurança ou religiosas, com o peso do conflito entre Israel e Palestina, com a atitude das potências ocidentais na região, mas, sobretudo, com as difíceis relações das comunidades cristãs com os muçulmanos em geral e a ascensão do islamismo.

Desde então, as agitações no Egito e na Síria viraram de cabeça para baixo os equilíbrios, nos quais as comunidades cristãs, minoritárias e às vezes protegidas por poderes autoritários, haviam encontrado seu lugar. Essas mudanças têm provocado, em proporções difíceis de avaliar, novas partidas.

Segundo as autoridades religiosas locais, o êxodo continua, sobretudo no Iraque, onde os cristãos não passariam de 400 mil a 500 mil, contra 1,5 milhão nos anos 1990. Milhares de cristãos sírios, cuja comunidade é uma das maiores da região, encontraram refúgio no Líbano nos últimos meses.

Portanto, o papa deverá “colocar o dedo na ferida que é o desaparecimento da presença cristã na região”, explica um oficial maronita libanês. Ele também deverá ser diretamente informado sobre a situação dos cristãos da Síria. Autoridades religiosas sírias afirmaram ao Vaticano que “na região de Homs, as igrejas e os conventos eram destruídos sistematicamente, os cristãos eram expulsos, de maneira a impedir qualquer retorno”.

Outros, como o jesuíta Paolo Dall’Oglio, expulso da Síria na primavera, acreditam que apesar da proximidade de alguns deles com o regime de Bashar al-Assad, “não haja perseguições específicas aos cristãos”. “Eles são vítimas, como os outros sírios”.

Esse novo contexto tem tornado difícil o “apego” dos cristãos “à terra”, defendido pelos bispos em 2010. Eles exortavam os fiéis a “não cederem à tentação de vender suas propriedades imobiliárias” aos muçulmanos, e Bento 16 deverá encorajá-los novamente a permanecer e reforçar o papel das inúmeras instituições católicas (escolas, hospitais), ainda ativas na maior parte dos países da região.

Em compensação, o papa deverá mais uma vez lamentar as divisões que minam as inúmeras Igrejas cristãs separadas há séculos, mas ainda presentes em territórios às vezes reduzidos. Esses antagonismos também haviam sido evidenciados pelos bispos que, retomando um antigo tema recorrente, defendiam um trabalho sobre “a unidade” e o ecumenismo. Cinquenta anos atrás, durante o Segundo Concílio do Vaticano, a Igreja já reconhecia que “a divisão dos cristãos era motivo de escândalo para o mundo”.

Sobre o ponto mais complicado das relações com o islamismo, será que Bento 16 conseguirá ir além dos apelos por “um diálogo frutífero com os muçulmanos”, pela “recusa das atitudes de recolhimento e de ódio”, pelo “alerta contra qualquer forma de extremismo” defendidos pela Igreja, considerando que os movimentos islamitas, ou até fundamentalistas muçulmanos, se tornaram atores políticos centrais dos cenários do Oriente Médio, promotores de leis civis apoiadas na lei islâmica? Alguns cristãos querem isso.

“A viagem não pode ter o aspecto de um apoio a um ‘campo cristão’ contra um ‘campo muçulmano’,” explica Dom Pascal Gollnisch, diretor-geral da L’Oeuvre d’Orient, uma organização católica que dá apoio aos cristãos do Oriente há 150 anos. “Essa caricatura seria somente a projeção de fantasias ocidentais”.

A Igreja tem pedido regularmente para que essas sociedades promovam a cidadania e a igualdade dos direitos e dos deveres de todos os cidadãos, qualquer que seja sua religião, uma forma de laicidade, assim como a liberdade religiosa e de pensamento.

Desse ponto de vista, o Líbano, chamado de “país mensagem” por João Paulo 2º durante sua visita de 1997, mais uma vez deverá ser citado como exemplo, apesar das divisões entre as comunidades cristãs e muçulmanas e dos limites reconhecidos de um sistema político baseado em frágeis equilíbrios religiosos.

[b]Fonte: Le Monde[/b]