No início dos anos 2000, os Estados Unidos estavam otimistas em relação a ações punitivas por parte da Igreja Católica contra sacerdotes que cometessem abusos sexuais.

A expectativa foi relatada em um despacho diplomático de março de 2001, publicado nesta quarta-feira (24/08) pelo Wikileaks.

O documento abordava a repercussão de uma matéria publicada três dias antes pela revista norte-americana NCR (National Catholic Repórter). Ela trazia várias denúncias de abuso sexual de freiras por parte de padres em várias regiões do mundo e, em especial, na África durante os anos 1990. Na ocasião, o Vaticano só respondeu à matéria quatro dias após sua publicação, em 20 de março, e prometeu “solucionar o problema”.

O autor do despacho era Joseph Merante, deputado-chefe da missão norte-americana nos EUA no Vaticano. Ele relatava que a Santa Sé estava se tornando “cada vez mais sensitiva a incidentes de abuso sexual pelo clero”. “Esperamos que informes de abusos sexuais por padres em territórios missionários sejam encarados seriamente e resolvidos de forma profissional”, comentou o funcionário.

A NCR relatava a ocorrência de abusos em 23 países, inclusive estupros. Os relatos mostram que padres exigiam sexo em troca de favores. No continente africano, em especial, as freiras eram muitas vezes vistas pelos padres agressores como um “meio seguro de praticar sexo”, sem correr o risco de contrair Aids, epidemia que já se espalhava pelo continente.

Uma das denúncias mais chocantes foi feita por Maura O’Donohue, na época, coordenadora de um projeto católico assistencial para portadores do vírus HIV. Segundo ela, grupos de irmãs de congregações locais fizeram “apelos apaixonados” para que membros de outras congregações fizessem as denúncias. Isso porque, quando elas mesmas tentavam relatar as perseguições dos padres para autoridades da Igreja, simplesmente “não eram ouvidas”. A freira narrou que, em um dos casos, um padre obrigou uma freira a fazer aborto, mas ela acabou morrendo durante o procedimento.

Joaquín Navarro Valls, porta-voz do Vaticano na época, reconheceu as ocorrências e afirmou que a Igreja tomaria providências. “O Vaticano está trabalhando para resolver o problema”, declarou, sem maiores esclarecimentos.

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Dez anos depois da explicação de Valls, a Igreja Católica continua envolvida em escândalos sobre abusos sexuais. O último grande escândalo foi em julho deste ano.

Um relatório mostrou que a Igreja Católica irlandesa encorajou bispos a não reportar casos de suspeitas de pedofilia entre padres no país. Conhecido como relatório Cloyne, ele resultou de uma investigação sobre como acusações de abuso sexual infantil na diocese de mesmo nome, na Irlanda, foram tratadas pelo Vaticano até 2009.

Também em 2011, um ex-sacerdote italiano foi condenado a nove anos de prisão por abusar de uma mulher que trabalhava em uma de suas organização de caridade.

[b]Fonte: Opera Mundi[/b]