Proposta do artista alemão Gregor Schneider de expor pessoas em fase terminal ou cadáver em exposição sobre “a beleza da morte” desencadeia avalanche de críticas no país.

O artista de 39 anos, que vive em Mönchengladbach, no oeste alemão, está supostamente em busca de alguém disposto a expor sua própria morte: num ambiente especialmente preparado para “a ocasião” e situado possivelmente num museu. Pois o museu seria, segundo Schneider, “um lugar humano para a morte”. E o moribundo teria, acentua o artista, autonomia para definir aspectos da exposição.

“Infelizmente, hoje, a morte e o caminho até ela são permeados pelo sofrimento. Tratar do assunto como estou propondo poderia afastar o caráter de dor que a morte tem para nós”, diz o artista. Segundo informações divulgadas pela mídia alemã, Schneider já teria até mesmo encontrado um candidato, disposto a “se expor morrendo no museu”.

“Instintos macabros”

A proposta do artista desencadeou no país uma polêmica de grandes proporções, que atingiu não apenas a cena das artes plásticas, mas também a esfera política. Um comunicado assinado pelos deputados da União Democrata Cristã (CDU) Wolfgang Börnsen e Guenter Krings alerta:

“No fim de sua vida, o ser humano não pode ser degradado a um mero objeto a ser admirado. A morte é a fase final da vida do homem e não deveria ser exposta ao público como um instrumento com fins artísticos ou outros propósitos”. Segundo os políticos, Schneider, embora seja um artista contemporâneo de peso, desenvolveu uma verdadeira obsessão por uma idéia, “que apela para instintos macabros e voyeuristas”.

Ameaças de morte

Desde que o assunto começou a ser discutido em público, Schneider vem recebendo ataques constantes, inclusive ameaças de morte. “Recebi chamadas telefônicas e e-mails sugerindo que eu me mate. E também uma absurda ameaça de morte, mas nada aconteceu até agora”, declarou o artista a um jornal regional alemão.

Schneider parece não compreender a indignação causada por suas idéias e declarações de que gostaria, ele mesmo, de morrer num museu, rodeado pela arte. Tudo isso na esperança de “morrer de uma forma bela”. O argumento do artista é de que “possivelmente poderíamos fazer tudo isso, se libertássemos a morte de seus tabus, transformando-a numa experiência positivia, comparável à do nascimento de uma criança”, finaliza.

Polêmicas anteriores

Não é a primeira vez que Gregor Schneider causa polêmica com suas obras. Recentemente, ele criou furor com a instalação composta por um cubo preto, que se assemelha à caaba, santuário venerado pelos muçulmanos como o local mais sagrado da Terra.

Schneider pretendia colocar seu cubo negro na Praça de São Marcos, durante a Bienal de Veneza. Depois que as autoridades locais rejeitaram a proposta e Berlim também teve receios de ofender os islâmicos com a obra de arte no espaço público, o cubo foi parar, em 2007, em frente à Kunsthalle de Hamburgo.

“Mero espetáculo”

A diretoria do Museu Haus Lange, em Krefeld, que, segundo o artista, seria o lugar perfeito para “a morte pública”, desmentiu a intenção de abrigar tal mostra. O diretor da Casa, Martin Hentschel, rotulou as propostas de Schneider de “mero espetáculo” e de “desejo exacerbado de incitar a mídia”. Também na mídia alemã os comentários sobre as intenções do artista foram predominantemente negativos.

Há de se lembrar que tudo pode não passar de um engodo por parte do artista. No ano passado, Schneider enviou convites a várias pessoas interessadas na cena das artes plásticas para assistirem a sua “nova performance” na Staatsoper de Berlim.

Muita gente apareceu e esperou horas a fio, até todos ficarem sabendo, muito mais tarde, que a performance havia acabado. Ou seja, as filas e a espera eram a performance. O que leva a crer que a idéia da morte em público também possa simplesmente não passar de uma brincadeira de mau gosto.

Fonte: DW World