Durante dois dias, 18 representantes do cristianismo (católicos, ortodoxos e protestantes), islamismo (muçulmanos sunitas), judaísmo, budismo, taoísmo e xintoísmo vão estar reunidos no coração do «Arquipélago Gulag» descrito pelo Nobel da Literatura russo Aleksandr Solzhenitsin, para onde Estaline deportou dois milhões de pessoas.

À entrada de Astana (norte), a nova capital da maior das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, um enorme monumento às vítimas do comunismo, no melhor estilo do realismo socialista, representa um deportado de joelhos fincados no chão e com a roupa esfarrapada, a levantar os braços ao céu, com um sofrimento infinito no rosto.

É a imagem dos caucasianos – inguches, tchetchenos (mais de meio milhão), balcares e carachais -, tártaros (250.000) e armênios da Crimeia, gregos, búlgaros e turcos mesketis deportados em comboios de mercadorias, ou caminhões de transporte de gado, para o gulag, sob pretexto de terem colaborado com o ocupante nazi na II Guerra Mundial.

Apesar do regime considerado autocrático, nepotista e corrupto, denunciado nomeadamente pelo Conselho da Europa e pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), o Papa João Paulo II efetuou ao Cazaquistão a sua 95ª viagem pastoral pouco depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos.

Num país com uma superfície mais de quatro vezes a da Península Ibérica e 15 milhões de habitantes – metade cazaques (turco-mongóis sunitas laicos) e os restantes, na maioria, eslavos (russos e ucranianos cristãos ortodoxos) -, o Santo Padre dirigiu-se sobretudo aos escassos 20.000 católicos, menos de 2% da população.

Em Setembro de 2003, o Cazaquistão promoveu também em Astana o I Congresso de Líderes das Religiões Tradicionais Universais, que condenaram o terrorismo e apelaram à paz e à segurança globais.

Agora, o Vaticano estará representado pelo cardeal Roger Etchegaray, tendo a seu lado o arcebispo de Washington, cardeal Theodore Edgar McCarrick, o patriarca de Constantinopla Bartolomeu I e Garegin II pela Igreja Apostólica Armênia (ortodoxos), Nicholas Baynes, bispo de Croydon, pela Igreja Anglicana, e Ishmael Nokko, secretário-geral da Federação Mundial Luterana.

Pelo mundo árabe e muçulmano estarão presentes o ministro para os Assuntos Islâmicos do executivo do Cairo, Mahmud Zakzuk, e o grande imã do Egipto, xeque Muhammad Tantawi, o presidente da Universidade Internacional Islâmica do Paquistão, Mahmud Ghazi, o secretário-geral da Liga Universal Muçulmana, o saudita wahhabi xeque Abdullah al-Turki, o líder dos maometanos na Índia, Salman al-Nadvi e o chefe mufti (juiz islâmico) cazaque Absattar Derbisalli.

Contam-se ainda entre os participantes o dirigente rabino sefardita de Jerusalém, Shlomo Amar, o vice-presidente da Associação Budista de Pequim, o presidente de uma organização sul-coreana do mesmo credo, o «número dois» dos taoístas chineses, o máximo responsável dos xintoístas japoneses e, até, um enviado da Fundação Cultural Zoroastrista (culto do fogo oriundo da época clássica persa).

Para o encontro ecumênico, a que assistem numerosos jornalistas estrangeiros, foram também convidados representantes de organizações religiosas norte-americanas e indianas, e personalidades honoríficas. Do leque das personalidade honoríficas fazem parte o antigo presidente soviético Mikhail Gorbachov, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o japonês Koichiro Matsuura, o chefe do Centro para os Direitos Humanos e Democracia (ODIHR) da OSCE, Christian Schtrohal, o vice-presidente do Parlamento Europeu (PE), Alejo Vidal-Cuadras, e o presidente da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa, Rene van der Linden.

A iniciativa do Presidente Nursultan Nazarbaiev, 65 anos, ininterruptamente no poder deste que o Cazaquistão declarou a independência da União Soviética (URSS) em 1991, foi delegada no presidente da câmara alta do Parlamento (Senado), Nurtai Abikaiev, que é o responsável pela comissão organizadora.

O partido presidencial da Pátria (OTAN) detém a maioria na câmara baixa do hemiciclo (Majilis) desde as legislativas de Setembro de 2004, estando os outros assentos nas mãos de duas forças políticas simpáticas a Nazarbaiev: a ASAR (Todos Juntos), dirigida pela sua filha Dariga, e a aliança agrário-industrial AIST. A oposição, em bloco, ficou com um deputado.

Este congresso foi preparado ao longo dos últimos dois anos e, de acordo com a organização, visa «assegurar a contribuição efetiva das cinco maiores religiões do mundo para uma paz e segurança permanentes».

«O Cazaquistão realiza o evento enquanto país que, tendo no seu território mais de uma centena de identidades raciais e culturais, desenvolveu uma sociedade multi-étnica e religiosa pacífica», salienta a organização. No entanto, entre os requisitos exigidos pela atual presidência belga da OSCE ao Cazaquistão estão os da promoção do pluralismo político através de profundas reformas, a tolerância e um melhor entendimento inter-étnico, cultural e religioso, bem como o respeito pelos direitos humanos.

Fonte: Diário Digital / Portugal