Numa iniciativa ousada para os padrões brasileiros, a rede Record lançou no início de março a minissérie “A História de Ester”, baseada na personagem bíblica de mesmo nome. Que me lembre, parece ser a primeira minissérie de temática bíblica da televisão brasileira. Mas, como não sou especialista em novelas e afins, posso estar enganado.

Claro que algo assim só poderia estar acontecendo mesmo na rede Record; a RGT tem nitidamente uma linha espírita, basta ver as próximas novelas e minisséries, e quando encampa alguma temática cristã, vai pela linha católica, falando sobre santas, milagres e coisas do gênero.

Confesso que não esperava grande coisa dessa empreitada, haja visto as produções anteriores da Record, como aquelas novelas insuportáveis dos tais “mutantes”. Mas, até que a minissérie tem suas qualidades.

Claro que não se trata de nenhuma obra-prima, mas perto das porcarias que a RGT produz, até que não faz tão feio assim. A fotografia, por exemplo é bem razoável e explora de forma interessante as penumbras e tons pastéis dos cenários persas. Filmada em película, a minissérie acerta em alguns momentos com enquadramentos criativos e atmosfera de filme de cinema.

Até mesmo efeitos de computação gráfica foram utilizados em cenas grandiosas de batalha. Não é nenhum “Avatar”, mas também não é tão ruim assim. A musica é bem lugar-comum para uma produção de época, mas não chega a ser decepcionante.

O figurino e os cenários, apesar de ostentarem certa gradiosidade, são meio toscos; as vezes quase dá para ver a fita adesiva segurando a barba de alguns personagens, e as colunas do palácio parecem que vão cair a qualquer momento. Os figurantes são abaixo da crítica e muito mal dirigidos; as produções brasileiras dão pouca importância a esse aspecto, mas às vezes são detalhes como esse que fazem a diferença entre uma superprodução e um filminho de segunda categoria.

Mas, o ponto fraco da serie mesmo, é a sua linha editorial; não ficou claro para mim, nos episódios que assisti, se havia uma intenção confessional, histórica, dramática ou épica. Os diálogos, em alguns momentos são formais, na segunda pessoa, e em outros são coloquiais como se a cena se passasse numa praia carioca em um ponto de ônibus do Leblon.

Também não ficou claro para mim, se a intenção da emissora é a de passar uma mensagem de cunho bíblico ou apenas usar o contexto em questão para ambientar uma trama novelística. Alias, no frigir dos ovos, e apesar das qualidades que listei anteriormente, “A História de Ester”, não passa mesmo disso, um mero dramalhão novelística, apenas com um visual mais requintado.

Os diálogos são tão sofríveis e ridículos quanto os das novelas da RGT e tudo é simplificado para dar espaço ao romance dos atores principais. A história de Ester (a bíblica) é tão rica e importante, que vários filmes e peças teatrais já foram produzidos sobre o tema ao redor do mundo e até mesmo uma opera foi composta. A história é de grande importância para o povo judeu e até mesmo deu origem a uma das festas religiosas mais importantes do calendário judaico, o Purim.

Portanto, há muito mais a ser explorado pela produção da Record, além das intermináveis cenas de amor entre Assuero (ou Xerxes I) e Ester. Que alias, não tem muito embasamento histórico, já que o rei persa tinha um harém com centenas de concubinas e uma relação amorosa e profunda com sua rainha é pura ficção dos roteiristas. Por sinal, foi bom ver cenas intimas tratadas com um pouco mais de decoro e sem as apelações das produções da RGT, mas ainda assim um pouco fortes para uma produção de cunho cristão (bem, se de fato é mesmo uma produção cristã…).

Mas de qualquer forma, é bom ter alguma variedade de temas na televisão brasileira e a iniciativa é louvável. Vamos esperar que os diálogos e a direção sejam melhorados nas próximas produções .

Um abraço,

Leon Neto