Semana passada encerrou-se mais uma edição do badalado “reality show” American Idol, com uma votação recorde de 74 milhões de expectadores. Números impressionantes para um programa que já está em sua 6ª edição e que desde sua criação praticamente não mudou nada do formato original. Na verdade de original o formato não tem absolutamente coisa nenhuma, já que não passa de uma versão sofisticada do batido “show de calouros”, há mais de 50 anos no ar em televisões do mundo inteiro.

A edição desse ano teve um interesse especial para o público evangélico, já que entre os 12 finalistas, pelo menos a metade tem alguma ligação com o meio gospel e até mesmo a grande vencedora, Jordin Sparks, professa a fé cristã. Não que seja surpreendente em um país predominantemente evangélico como os Estados Unidos, ter candidatos cristãos, mas esse ano a disputa quase que virou competição gospel. Na finalíssima, inclusive, tivemos a participação dos cantores gospel BeBe e CeCe Wynans em um animadíssimo trio com a vencedora da competição.

Em relação ao programa em sí, não tenho muitas críticas, mas já estou ficando um pouco cansado da formula; a primeira fase, onde milhares e milhares de jovens tentam em poucos segundos impressionar os juizes, termina sendo bem mais interessante do que a segunda fase, na qual os competidores restantes tem chance de cantar pelo menos uma musica inteira. Isso porquê ninguém agüenta mais os comentários dos Juizes. Randy Jackson, músico e produtor, fala sempre a mesma coisa e pouco acrescenta ao programa. Paula Abdul, ex-cantora, ex-dançarina e coreógrafa, é absolutamente inerte e sem personalidade, incapaz de fazer algum comentário coerente e objetivo. Simon Cowell, executivo da indústria fonográfica, é o único que ainda faz alguns comentários interessantes, mas entende pouco ou quase nada de música ou técnica vocal, o que limita muito sua participação. Na minha opinião os juízes é que deveriam ser votados fora do programa. Se o “American Idol” é, como Simon gosta de dizer, “uma competição vocal”, deveria ter um juri condizente e preparado tecnicamente para julgar os participantes e não deixar a decisão nas mãos do público, que em geral não entende bulhufas do assunto. Mas, como “em time que está ganhando, não se mexe”, acredito que minhas sugestões não tem a menor chance de serem ouvidas pela produção do programa.

Em relação ao número de participantes evangélicos, como disse antes, nada de muito surpreendente, já que inúmeros cantores norte-americanos começaram suas carreiras nas igrejas cantando em corais gospel. Além disso, para a indústria americana o meio gospel é apenas mais um segmento do mercado e muitos cantores e bandas trafegam com facilidade por esse gênero sem problemas ou questionamentos ideológicos. Aliás, hoje em dia está cada vêz mais difícil detectar o que é evangélico e o que não é, aqui nesse país; músicas com letras dúbias e genéricas tem sido utilizadas sem a menor cerimônia em cultos e eventos gospel. Musicas tipo “You Raise me up” de Josh Groban, são cantadas como se fossem canções cristãs, muito embora na verdade falem de relações interpessoais e não tenham nenhum conteúdo bíblico. Outra coisa que me incomoda um pouco em relação a participação de cantores cristãos, é o nome e o conceito do show, especialmente a palavra “Idol” ou “ídolo”, algo incopatível com nossos princípios. Um artista cristão deveria ter coisas muito mais importantes para buscar, do que a autopromoção e o estímulo a iconização exacerbada.

O sucesso e os mega-dolares que o “American Idol” tem gerado nesse poucos anos de existência, já foram suficientes para importar o show para dezenas de países, e até mesmo o Brasil já tem sua versão, o programa “ĺdolos” do SBT (ô nomezinho infeliz…). Assisti à edição do ano passado e achei meio sem sal, uma versão “primo pobre” do programa original. O nível dos participantes não foi dos melhores, na minha opinião, e o juri conseguiu ser pior do que o da versão americana. Não questiono o currículo de nenhum dos jurados, mas como eles falam e se expressam mal! É de doer a qualidade dos comentários . Mas, de qualquer forma, esse é o tipo de produtor que os vencedores da competição vão ter que lidar no seu dia-a-dia. Talvez fosse interessante ver algum candidato evangélico na edição desse ano, que por sinal já começou.

Acho que iria acrescentar qualidade ao programa, já que em nosso país onde quase ninguém tem acesso a musicalização infantil, as igrejas evangélicas fazem um contribuição muito relevante, com seus corais infantis e cânticos para crianças, sendo assim das poucas oportunidades que se têm para o estímulo a um treinamento musical. Seria também uma oportunidade para testemunho e pregação do evangélico. Mas, por outro lado, tenho calafrios ao pensar que isso poderia contribuir para uma banalização ainda maior do nosso meio musical evangélico e para aumentar a inversão de valores que já existe nesse meio. Afinal de contas, fica difícil colocar na mesma frase palavras como “ídolos” e “cristianismo”…

Um abraço,

Leon Neto