Depois do enorme barulho que os documentários “Uma Verdade Inconveniente” e “O Túmulo Perdido de Jesus” causaram recentemente, pouca gente reparou em um outro filme do mesmo gênero, que também teve grande impacto aqui nos Estados Unidos. Trata-se de “Jesus Camp” , filme produzido e dirigido por Heidi Ewing e Rachel Grady, que foi indicado ao Oscar desse ano, na mesma categoria do filme de Al Gore.

“Jesus Camp” tem como temática a doutrinação fundamentalista de crianças evangélicas, através do ministério da Pastora Becky Fischer, que tem como objetivo na vida preparar crianças e pré-adolescentes para assumir cargos de relevância na sociedade americana e assim restaurar a liderança cristã naquele país. O filme dá especial destaque a um acampamento chamado “Kids on Fire” ou “Crianças em Fogo” que ocorre anualmente nas proximidades de uma cidade chamada, vejam só, Devil’s Lake, ou “Lago do Diabo”.

No tal acampamento, a pastora usa de todos os artifícios e recursos possíveis para incrementar suas palestras que surpreendentemente chegam a durar mais de duas horas; e olha que estamos falando de uma faixa etária entre 8 e 12 anos! Desde de cérebros de gelatina , para ilustrar a influência maligna de satanás, ou modelos de fetos em plástico para demonstrar a crueldade do aborto e coisas do gênero, vemos de tudo acontecer em suas mensagens.

O documentário não foca somente a pastora e a liderança do seu ministério, mas também acompanha algumas crianças, mostrando desde seu contexto familiar até a chagada no acampamento e seus efeitos em suas cabecinhas tenras e inocentes. As crianças mostradas no filme, são lindas , inteligentes e saudáveis, mas ao mesmo tempo demonstram uma “maturidade” desproporcional para suas idades; em alguns momentos, têm-se a impressão de que estamos ouvindo adultos “em forma de guris”, como diriam na época da jovem guarda. Algo que só conseguimos entender, a partir do momento em que vemos a Pastora Becky e sua equipe em ação.

A linha teológica do ministério é visivelmente neo-pentecostal e fundamentalista, beirando perigosamente o extremismo religioso. A cena mais chocante, especialmente para quem não é americano, acontece quando uma imagem de papelão em tamanho natural do presidente George W. Bush é trazida ao púlpito, e apresentada como o enviado de Deus para salvar os Estados Unidos e o mundo, e toda a gurizada é posta para orar e, estendendo as mãos, abençoar o “presidente/super-herói”. Para muitos lideres evangélicos norte-americanos, não deve haver separação entre igreja e estado, portanto o perfil religioso de qualquer canditato vem a ser determinante em um eleição, aliás, o foi na eleição de Bush, por sinal. Em suas mensagens a pastora deixa isso bem claro para as crianças e não tem o menor pudor de tocar em temas políticos como parte de sua doutrinação.

Porém, o que mais me incomodou, foi a forma irresponsável com que os adultos e a Pastora becky em especial, manipulam emocionalmente as cabecinhas inocentes da garotada. Irresponsável, porque me parece que ela não entende absolutamente nada de psicologia infantil, e não tem consciência dos danos que aquele carga emocional toda pode causar em seres tão jovens. Vemos ao longo do filme todo lindas menininhas de 8 ou 10 anos chorando copiosamente e sendo influenciadas a manifestar de forma visivelmente forçada o “dom de línguas” e coisas do gênero, e meninos da mesma idade se martirizando de forma tão dramática por seus pecados cometidos (imagino quão “terríveis” devem ser..), que estão a ponto de entrar em colapso nervoso.

Não estou aqui me posicionando contra o treinamento e mesmo evangelização de crianças; muito pelo contrario, eu mesmo fui extremamente abençoado na minha infância por ter freqüentado escola dominical, escola bíblica de ferias e mesmo acampamentos similares. Muito da base que tenho hoje em minha vida, recebi naquela idade. Acho acampamento uma ferramenta muito importante e vejo instituições como “Palavra da Vida”, sendo usadas poderosamente por Deus para alcançar e edificar jovens e crianças. Mas, precisamos pedir ao Senhor sabedoria e discernimento para não passar dos limites e causar mais malefícios do que benefícios. Não questiono as boas intenções de ninguém, mas a forma extremista e manipuladora com que a Pastora conduz seu acampamento não difere muito das imagens que vemos de campos de treinamento de terroristas e homens-bomba no Oriente Médio; algumas cenas são quase tão chocantes quanto ver uma criança com fuzil em punho. Extremismo sempre é perigoso, qualquer que seja a sua forma.

Mas, de forma geral o documentário e bem realizado e não tenta influenciar a audiência de forma tendenciosa; muito pelo contrario, quase não há antagonismo, já que quase todos os que são retratados no filme acreditam piamente no que estão fazendo. A única exceção fica por conta de um locutor de um programa de radio que traz alguns questionamentos, inclusive fazendo um breve debate ao vivo com a pastora. A grande ironia do filme, produzido no ano passado, foi incluir uma participação especial do televangelista Ted Haggard, recentemente desmascarado por ter mantido um longo relacionamento homossexual com um ator pornô, falando justamente contra o homossexualismo. Por essa ninguém esperava…

Não sei com que título “Jesus Camp” vai chegar ao Brasil, mas, sem dúvida, é um daqueles filmes que merece ser assistido e debatido.

Um abraço,

Leon