Ao ler um artigo na “Cristianity Today”, maior revista evangélica dos EUA, recentemente escrito por Charles Colson, deparei-me novamente com um assunto que tem me intrigado bastante nos últimos tempos.

Colson começa seu artigo falando sobre sua preocupação em relação à coerência teológica dos cânticos congregacionais modernos, e cita um exemplo de determinada música que tem letra com certa dubiedade, podendo ser interpretada tanto como louvor, ou como uma canção romântica qualquer (o que me fez lembrar de algumas músicas brasileiras que se encaixariam perfeitamente na descrição do autor).

Mas, o texto vai mais adiante e questiona com muita propriedade os rumos que a música Cristã contemporânea tem tomado nos Estados Unidos, e fornece números alarmantes da quantidade de programas de rádio doutrinários e evangelísticos cancelados em detrimento da pura veiculação de música com mensagem “positiva”. Certos temas, como inferno, dízimo, pureza sexual são, inclusive, evitados a qualquer custo, para, segundo os produtores “ não desgradar aos ouvintes”. Ou seja, há muito pouco compromisso com o evangelho e muito compromisso com os patrocinadores (leia-se, dinheiro).

Mais uma vez, vi com tristeza, que o quadro, no Brasil, não está muito diferente do descrito por Charles Colson; temos visto o meio musical evangélico brasileiro se tornar cada vez mais fútil e sem profundidade, músicas com letras sem base teológica nenhuma e repletas de côros de fácil assimilação, para “pegar” mais facil. Temos trocado louvor por entretenimento sem a menor cerimônia e tanto artistas quanto ouvintes não têm a menor idéia do que estão cantanto; o importante é a música ser “animada” e estar tocando nas rádios.

Na verdade, penso que a situação no meio musical é apenas um reflexo do que está acontecendo de forma geral nas igrejas evangélicas brasileiras. Nosso povo sofrido tem procurado muito mais aquelas igrejas que usam a tal da teologia da prosperidade, (uma aberração!) ou qualquer outra que aborde o evangelho com simplicidade e toques de terapia de auto-ajuda; os cultos de forma geral também priorizam muito mais o entretenimento do que o louvor, ou uma teologia mais profunda, uma doutrina mais biblica.

Qualquer pastor, bispo ou “apóstolo” que se apresente prometendo milagres e bênçãos materiais tem congregação garantida e apoio incondicional da mesma. Ninguém quer “perder” tempo estudando a Biblia; basta ir uma vez por semana e participar de um ritual sensacionalista e calcado na emoção, que já é suficiente. O compromisso é muito mais com a denominação do que com o evangelho em sí, com as frases-chavão e palavras de ordem do que com os princípios Cristãos.

Da mesma forma, niguém quer perder tempo analisando a teologia da letra de suas músicas prediletas, ou a proposta ministerial da banda do momento. O compromisso é muito mais com os artitas do que com a mensagem, com o glamour do que com o ministério.

O artigo termina com um questionamento: afinal para que servem as radios evangélicas e programas de televisão? Dar as pessoas o que elas querem ouvir, ou o que elas PRECISAM ouvir?

Em relação à música cristã, faço os mesmos questionamentos: o que motiva um adolescente a se juntar com seus quatro melhores amigos e na garagem da casa de seus pais começar a ensaiar uma banda evangélica? Necessidade de expressar seu amor e adoração à Deus, ou simplesmente o desejo de alcançar o mesmo sucesso das bandas e artistas que os inspiraram? Quais são os critérios de uma gravadora cristã ao escolher que novo artista vai ser lançado no próximo verão? O que leva um ouvinte cristão a optar por esse ou aquele grupo musical? Qualidade musical, ritmo agradavel, bons arranjos ou conteúdo das letras? Que tipo de modelos estamos fornecendo para a comunidade evangélica brasileira? As músicas cristãs têm comunicado o que o povo brasileiro PRECISA ouvir, ainda que nem sempre seja agradável?

Não tenho as respostas nem me acho no direito de julgar ninguém. Apenas gostaria de levantar a questão de que precisamos sempre analisar nossas atitudes frente a pressão que a contemporainedade e os meios de comunicação em massa tem exercido sobre nossos princípios e valores cristãos.

Não sou contra a utilizaçao de nenhum veículo de comunição para a pregação do evangelho e a veiculação de programas com conteúdo evangélico. Mas, se ao invés de influenciar, estamos sendo influenciados e nos tornado iguais aos ímpios e idólatras que amam mais ao dinheiro do que a Deus, então está na hora de parar e “fechar para balanço”, rever nossas ações e intenções, nossas organizações, projetos e veículos, antes que aconteça, como diz a palavra de Deus, assim como o sal que perde o sabor: “para nada mais presta senão para ser jogado fora, e ser pisado pelos homens”… (Mateus 5:13)

Um abraço,

Leon Neto