Para quem deixou de ver esse filme no cinema, vale a pena correr à locadora e alugar “O Último Rei da Escócia”, estrelado por Forest Withaker, vencedor do Oscar de melhor ator da edição desse ano.

O filme é baseado na vida do ditador de Uganda, da década de 70, Idi Amin Dada, mas introduz alguns elementos fictícios na trama, que é apresentada sob o ponto-de-vista de um suposto médico escocês.

É fato conhecido que o ditador tinha em sua côrte, diversos médicos britânicos, que cuidavam de sua saúde e da sua família. Mas o personagem em questão foi concebido pelos autores do roteiro e não faz parte da historia de Idi Amin. O roteiro, bastante criativo, intercala situações verídicas com fictícias e tece um interessante comentário sobre insanidade, violência e poder, retratando Idi Amin sem estereótipos, com todas as nuances do ser humano e não só do personagem histórico.

Fica difícil definir o gênero desse filme já que não é totalmente ficção, nem totalmente biográfico; mesmo tomando liberdades artísticas, o conteúdo histórico é bastante consistente e não deve ser desprezado ou deixado de ser levado à sério. Um exemplo disso, é a situação na qual uma das esposas de Idi Amin é cruelmente assassinada e mutilada ( não sei se nessa ordem necessariamente…), após ter seu caso extra-conjugal descoberto. O filme usa esse fato histórico, e insere o medico no contexto final, o que não contamina em nada o evento em si e nem as causas e conseqüências diretamente.

O filme foi muito celebrado principalmente por conta da atuação inspiradíssima de Forest Withaker, que lhe rendeu inúmeros prêmios, incluindo o “Golden Globe” e o “Oscar” desse ano. Só quem não conhece ou não tem acompanhado a carreira de Withaker se surpreendeu com seu recente sucesso de crítica ; Withaker é um grandíssimo ator e vem fazendo filmes de ótima qualidade à pelo menos duas décadas.

Na minha opinião, inclusive, ele já devia ter sido premiado em 1988 por sua performance em “Bird”, sobre a vida do saxofonista Charlie Parker. Ele só não tem recebido papéis mais relevantes, porquê não se encaixa nos padrões “Hollywoodianos” de beleza. Mas talento, ele tem de sobra e já esta provando isso a muito tempo. Contudo, em relação á sua participação em “O Último Rei da Escócia”, penso que a categoria em que ele deveria ter sido indicado seria a de melhor ator coadjuvante e não a de melhor ator, já que no roteiro, o médico escocês é que conduz toda a trama e não o ditador Ugandense.

Mas, isso é apenas um preciosismo; Forest Withaker faz aqui neste filme uma das melhores atuações de sua carreira e talvez uma das melhores da história do cinema, ao encarnar com perfeição e total entrega o monstruoso Idi Amin Dada, figura que chocou o mundo nos anos 70. Withaker conseguiu trazer para a tela as várias faces e as complexidades da personalidade de Idi Amin, com paixão e veracidade. É notável como uma pessoa capaz de ordenar a morte de mais de trezentas mil pessoas podia ser tão dissimulado e manter ares de “gente boa” e “defensor dos fracos e oprimidos”; Idi Amin soube usar a mídia como poucos , para sua auto-promoção e para camuflar suas reais intenções e artimanhas.

Atacava o governo britânico para desviar a atenção dos massacres que cometia contra sua própria gente no interior do país; se auto-proclamava pacifista e mediador de conflitos, mas na surdina estabelecia lucrativas ligações com grupos terroristas. Ao ver esse filme, me deu um frio na espinha, ao lembrar de certos líderes políticos sul americanos que talvez estejam indo pelo mesmo caminho.

Se você alugar o DVD, não deixe de assistir também a um documentário, disponível nos extras, sobre a vida de Idi Amin Dada, que contém imagens reais do ditador e comentários de pessoas que viveram aqueles dias turbulentos.

Um Abraço,

Leon Neto