Um dos nove ameaçados sob proteção no Pará, o bispo Erwin Krautler, 68, do Xingu, afirma que a absolvição de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, “escancara todas as portas para outros crimes” no Pará. “Quem já está pensando em eliminar alguém que contraria seus interesses agora não vê problema.”

Desde março sem fazer sua caminhada diária de 45 minutos, nem mesmo com a escolta de três policiais, Krautler diz que a soltura do acusado de encomendar a morte de Dorothy Stang “causa pavor e temor nas outras pessoas que lutam pela mesma causa no Estado”.

Presidente do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), o bispo austríaco naturalizado brasileiro vive há 42 anos na Amazônia e foi quem recebeu Dorothy Stang, de quem diz que se tornou amigo.
Como encara a decisão do Tribunal de Júri?

Fiquei estarrecido. Foi uma decisão que queira ou não favorece a impunidade. O que eu simplesmente não consigo imaginar é que, diante dos fatos que constam dos autos do processo, alguém possa colocar esse homem em liberdade. Não sei o que aconteceu por trás, nos bastidores, mas a pressão em cima dos jurados deve ter sido forte.

É o fim do caso?

Não. Esse júri popular tem que ser revisto e o apelo tem que ser considerado, antes do julgamento do outro acusado de mando [Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão]. O homem [Bida] forneceu munição, arma, mas isso foi ignorado.

Para o sr., ainda há outros mandantes livres?

Sim. Eu sempre falo em consórcio. Há os que mandaram fazer e os que colaboravam para aquilo ser feito. Um ano antes da morte dela, soube de reuniões que foram feitas. Um grupo teceu toda uma trama para tirar a vida da irmã.

Houve omissão por parte do Estado?

Aquilo que nós esperávamos não aconteceu, pelo contrário. Há um homem acusado com indícios gravíssimos, provas que levam ao mando, mas ele está em liberdade. Isso prejudica toda uma área. Colocá-lo na rua causa pavor, temor para outras pessoas que lutam pela mesma causa.

O problema é com a Justiça estadual?

Desde o início defendi a federalização do caso. Essa terra que estava sendo disputada era da União. Não há por que não federalizar, até porque foi um crime contra os direitos humanos.

Qual o principal problema na região?

O Estado continua ausente. Há manifestações, mas ainda lamento em termos de saúde, transporte, segurança, conservação de estradas. Muito pouco ou quase nada se faz. Isso torna o povo refém de madeireiros, de gente responsável pela agressão à Amazônia.

O sr. continua ameaçado?

Sim. Desde 2006, não saio de casa sem escolta. No fim de fevereiro, um soldado da PM ouviu conversas de dois elementos em um bar, de uma “parada” que iriam realizar em Altamira. Essa “parada”, a minha morte, tinha um preço avaliado em R$ 1 milhão. Eu me sinto cerceado, mas não posso deixar de lutar em favor da Amazônia, dos povos indígenas, da dignidade humana.

Fonte: Folha de São Paulo