Espécie de consciência crítica da política da África do Sul, o Nobel da Paz Desmond Tutu, ex-arcebispo da Cidade do Cabo, afirmou estar “desolado” pelos abusos de direitos humanos cometidos pelo governo do Zimbábue.

“Parece uma aberração esta súbita mudança de personalidade”, disse nesta semana Tutu à agência Reuters, em referência ao ditador do país vizinho, Robert Mugabe.

Tido como herói africano por sua luta pela independência da antiga colônia britânica da Rodésia, o ditador de 83 anos, no poder desde 1980, é hoje acusado de intimidar a oposição, censurar a imprensa e fraudar eleições. Nos últimos anos, o Zimbábue – “durante muitos anos um país promissor”, diz Tutu – foi à bancarrota.

A crise política e econômica já levou mais de 2 milhões de zimbabuanos a atravessarem a fronteira para a África do Sul. Mas, apesar das evidências de desastre, no país vizinho o reconhecimento de que a situação no Zimbábue é grave só ocorreu no começo de 2007.

O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, foi enviado pela Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla em inglês) para mediar o diálogo entre governo e oposição em Harare.

“Já critiquei no passado a abordagem suave da África do Sul [na crise do Zimbábue]”, diz Tutu, reconhecendo as falhas na atuação de seu país. Mas agora, segundo o ex-arcebispo, a mediação de Mbeki vem dando resultados. “Dêem a ele mais tempo e vamos ver se algo substancial acontece.”

Riscos

Na última semana, com a ajuda de Mbeki, governo e oposição chegaram a um consenso e aprovaram uma lei que abre caminho para eleições parlamentares e presidenciais no ano que vem. Ao mesmo tempo, porém, a lei tira do povo e dá ao Parlamento o poder de escolher o sucessor de um presidente que renunciar ou não terminar o mandato.

Mas o risco da mediação sul-africana, para o centro de estudos International Crisis Group, é que a SADC aceite mudanças “cosméticas” que apenas perpetuem o status quo no Zimbábue. A SADC rejeita como resquícios da dominação colonial as acusações de fraudes eleitorais e abusos de direitos humanos contra o ditador: ali, a crise é classificada como disputa entre o Ocidente e as ex-colônias.

Mas há também razões econômicas para o apoio. Rico em recursos minerais inexplorados, o Zimbábue é parceiro estratégico dentro da SADC, que promove uma redução de 85% das tarifas alfandegárias internas e planeja se tornar uma zona de livre comércio em 2008.

O principal parceiro comercial do Zimbábue, aliás, é a África do Sul, responsável em 2006 por 32,3% das exportações e 46,1% das importações do país.

Crise

Nem na África, porém, nega-se a crise econômica no Zimbábue. Apontada como uma das responsáveis pelo colapso da economia está a política de reforma agrária, que tirou fazendas rentáveis de fazendeiros brancos e as entregou para negros -muitos dos quais apoiadores de Mugabe- sem assistência financeira.

Também é criticada a impressão desordenada de moeda, que gerou inflação entre 7.000% e 13.000% ao mês (a maior do mundo).

Neste ano, o congelamento de preços causou escassez crônica de produtos básicos. Com a aprovação de uma lei que retira 51% da propriedade de empresas de brancos e as repassa a negros, o caminho parece se aprofundar. “Essa não é uma lei econômica, mas sim política”, defendeu o governo.

Fonte: Folha de São Paulo