A eleição de Fernando Lugo para a Presidência do Paraguai está colocando o Vaticano em uma situação sem precedentes: é a primeira vez que um bispo, ainda que aposentado e afastado de suas funções de sacerdote para atuar na política, chega ao cargo executivo mais alto de um país.

Segundo o código do direito canônico, o conjunto de leis que governa a igreja, a ordenação de Lugo como bispo não pode ser anulada.

O caso é tão complexo e sua dimensão política e diplomática tão grande que o Vaticano ainda não se pronunciou sobre o assunto.

“A lei canônica não prevê a saída de um bispo, portanto essa é uma situação nova. Os especialistas (do Vaticano) estudam o tema para encontrar uma solução que seja o mais aceitável possível para a Santa Sé”, disse o porta-voz da Conferência Episcopal Paraguaia, Roque Acosta.

Teologia da Libertação

Depois de ser ordenado padre em 1977, Lugo foi enviado como missionário ao Equador, onde entrou em contato com a Teologia da Libertação, que vincula o cristianismo ao ativismo político em favor dos pobres e oprimidos.

Depois de retornar ao Paraguai, Lugo foi nomeado, em 1994, bispo da diocese de San Pedro, onde se destacou pelo trabalho em prol dos mais necessitados.

Em 2004, as responsabilidades de Lugo como bispo terminaram oficialmente, quando o papa João Paulo 2º ordenou sua aposentadoria. No entanto, ele teve a permissão para continuar exercendo a função de padre.

Em dezembro de 2006, Lugro decidiu abandonar o hábito para se candidatar à Presidência, já que a Igreja Católica proíbe a participação de padres na política e a lei paraguaia também impede que clérigos se candidatem a cargos públicos.

Mas o Vaticano não aceitou a renúncia de Lugo como sacerdote. Em vez disso, aplicou uma sanção impedindo que Lugo exercesse as funções de sacerdote.

Decisão semelhante havia sido tomada no caso do sacerdote Jean-Bertrand Aristide, eleito presidente do Haiti em 1991.

Durante um comício no último dia 20, Lugo pediu perdão à Igreja por sua decisão de se candidatar à Presidência.

“Se minha atitude e minha desobediência das leis canônicas causaram dor, peço sinceramente perdão aos integrantes da Igreja”, disse Lugo.

Opções

O Vaticano tem, agora, três opções para lidar com o caso de Lugo.

A primeira seria a saída definitiva do sacerdócio e a redução de Lugo ao status de leigo.

A segunda, menos drástica, seria retirar temporariamente a sua capacidade de bispo.

“Assim, se ele desejar e se a lei permitir, ele poderia voltar a exercer suas funções na Igreja ao final de seu mandato na Presidência”, disse Acosta.

Uma terceira opção, segundo fontes do Vaticano consultadas pela BBC Mundo, seria que o Papa mantivesse o atual status canônico de Lugo, sem se pronunciar sobre o assunto.

A intenção do Vaticano seria não fazer nada que possa ser interpretado como um gesto que diminua a autoridade do presidente eleito em um momento crucial para o Paraguai, ao fim de 61 anos de governo do Partido Colorado.

Essa saída diplomática estaria de acordo com a postura, considerada cautelosa, adotada pelo papa Bento 16 para resolver situações de conflito ou potencialmente difíceis dentro da Igreja. BBC Brasil – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Fonte: Estadão