Na 1ª celebração, após divulgação da pena recebida pelo padre Edwaldo Gomes, católicos criticaram decisão de arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho (foto), que denunciou ao Vaticano a participação de dois bispos anglicanos em missa.

Na primeira missa após a divulgação da punição do padre Edwaldo Gomes, da Paróquia de Casa Forte, Zona Norte da capital pernambucana, o pároco preferiu silenciar sobre o assunto. Os fiéis, no entanto, condenaram a atitude do arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, de acionar o Vaticano para castigá-lo.

Poucas pessoas compareceram à Igreja do bairro na noite de ontem, mas já se comenta que manifestações de apoio ao padre estão sendo organizadas. Além de ter tido que se retratar, passará três meses afastado da paróquia, o que deve acontecer no início do próximo ano.

Para o professor universitário Paulo de Jesus, o arcebispo deveria repensar a denúncia feita à Congregação para a Doutrina da Fé, órgão da Igreja responsável pela punição. “A notícia foi recebida pelos fiéis com espanto e tristeza. Nosso pastor (o bispo) não tem a capacidade de ser humilde. Ele precisa repensar suas práticas”, afirmou o professor universitário, pouco antes do início da missa.

O economista José Soares Neto acredita que a punição só irá fortalecer padre Edwaldo. “Ele é benquisto, um grande guerreiro. Um padre preocupado com uma igreja dos pobres, uma igreja da minoria. Padre Edwaldo sairá mais forte disso tudo”, garantiu.

Padre Edwaldo Gomes foi punido após dom José acionar o Vaticano, informando à Congregação para a Doutrina da Fé, que o pároco havia concelebrado com dois bispos anglicanos uma missa em comemoração aos seus 50 anos de sacerdócio. A celebração ocorreu no dia 4 de dezembro do ano passado. Procurada mais uma vez pelo JC, a arquidiocese informou que não iria comentar o assunto e que o arcebispo estaria se preparando para viajar a Roma.

Antes do início da celebração de ontem, padre Edwaldo, que está há 36 anos à frente da Paróquia de Casa Forte, repetiu apenas o que havia dito no dia anterior. “Tudo o que eu tenho para dizer está na carta”, referindo-se ao texto de retratação publicado por ele, como forma de punição, no jornal da arquidiocese.

Na carta, ele diz que não teve a intenção de se colocar contra as leis da Igreja. Disse ainda: “Me preocupei mais com o acolhimento ecumênico”.

Para teólogos, houve perseguição

Diante do castigo recebido por padre Edwaldo Gomes, teólogos, padres e leigos estranharam a atitude de dom José Cardoso Sobrinho em informar ao Vaticano que apenas o padre de Casa Forte teria concelebrado com bispos anglicanos. Isso porque, pelo menos outros quatro bispos e dois vigários-gerais, ou seja, todos acima de padre Edwaldo na hierarquia da Igreja Católica, participaram da mesma celebração. Assuero Gomes, do Grupo Cristão Dom da Partilha, afirmou que o fato de os outros padres e dos vigários não terem sido punidos caracteriza que existe uma perseguição ao pároco de Casa Forte.

“Se os vigários-gerais estavam lá e não sabiam que era proibido, padre Edwaldo não tinha a obrigação de saber. Se eles sabiam e não disseram nada à arquidiocese, foram omissos. E se sabiam e participaram, foram cúmplices”, resumiu.

Padre Reginaldo Veloso, expulso por dom José da Paróquia do Morro da Conceição em 1989, acredita que a perseguição a Edwaldo se dá porque ele era muito ligado a dom Hélder Câmara, arcebispo emérito que morreu em 1999.

“Dom José sempre teve padre Edwaldo na mira. Evidentemente, existe perseguição. Essa atitude dele faz parte de uma política eclesiástica que visa o desmonte de tudo que se construiu ao longo do episcopado de dom Hélder”, garantiu padre Reginaldo. Dom José assumiu a arquidiocese em 1985, após a saída de dom Hélder, afastado por ter completado 75 anos, idade em que se recomenda a aposentadoria.

O teólogo belga José Comblin, que vive na Paraíba, destacou que o caso poderia ter sido resolvido sem a comunicação ao Vaticano. “Poderia ter sido algo mais discreto, mas o arcebispo parece que não teve muita tolerância”, disse.

O afastamento de padre Edwaldo da paróquia terá que ser realizado em um retiro espiritual. Em carta enviada ao pároco, dom José Cardoso sugeriu oito locais, entre eles Itália e França. No entanto, pessoas ligadas a padre Edwaldo afirmaram que ele deve ir para Lagoa Seca, na Paraíba, em janeiro, fevereiro e março.

Fonte: JC Online