Grupos gays de norte a sul do Brasil preparam manifestações durante a visita de Bento 16 ao país, na próxima semana, incluindo até a queima de retratos do papa em praça pública. Em Recife, os protestos começaram mais cedo, com um grupo botando fogo em um boneco do pontífice no início desta semana.

O pontificado de Bento 16 começou em abril de 2005 e só aumentou os conflitos entre Igreja Católica e a comunidade GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais). Recentemente, o papa condenou o homossexualismo e criticou o reconhecimento de seus direitos de se casar.

Salvador, Recife, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre são algumas das capitais onde há manifestações marcadas. Bento 16 chega na próxima quarta-feira a São Paulo e volta a Roma no domingo seguinte, após passar por Aparecida e Guaratinguetá.

Na última segunda-feira, no bairro da Boa Vista em Recife, cerca de 200 pessoas participaram de uma “malhação de Judas” atrasada, que o Movimento Leões do Norte faz todos os anos na época da Semana Santa. No lugar de Judas, estava um boneco em tamanho natural de Bento 16.

Em outros anos, o grupo foi contra outras personalidades, como Severino Cavalcanti, então presidente da Câmara.

Na sexta-feira da próxima semana, a capital pernambucana será palco de outro protesto, em frente à Basílica do Carmo, às 12h. Além dos Leões do Norte, também participarão o Fórum LGBT de Pernambuco, Católicas pelo Direito de Decidir e Associação das Profissionais do Sexo de Pernambuco. A expectativa, no entanto, é de reunir apenas cerca de 50 pessoas.

“É difícil mobilizar as pessoas contra a igreja”, disse Weligton Medeiros, coordenador do Fórum LGBT de Pernambuco. “Os movimentos sociais estão muito retraídos, calados, ninguém está se pronunciando a respeito de nada, eles têm medo da igreja.”

Para os ativistas desses movimentos, os comentários do papa acabam instigando a violência contra homossexuais, lésbicas e travestis. Uma pesquisa divulgada em abril mostrou que 70 por cento das pessoas desses grupos relataram ter sido vítimas de discriminação e que 59 por cento já sofreram agressões.

“Quando você diz que um determinado seguimento é contra as leis de Deus, você coloca esse seguimento contra a população, expõe à violência”, disse Medeiros.

Queimando fotos do papa

Em Salvador, o Grupo Gay da Bahia fará uma “comissão de recepção simbólica” em frente à Catedral da Sé, no Pelourinho, no dia e hora em que o pontífice chegar ao país, às 16h30.

Além de distribuir uma nota de repúdio contra o pensamento do papa, o grupo vai queimar fotos de Bento 16 e outros documentos simbolizando encíclicas papais.

“Não é um ato contra os católicos e sim contra o pensamento papal”, disse o presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira. “Seus argumentos causam um enorme constrangimento. Existem muitos católicos que têm filhos homossexuais, e homossexuais que são católicos.”

Em São Paulo, haverá uma “vigília” com velas na praça da República, no centro, na quarta-feira, às 19h, para lembrar “os nossos mortos pela homofobia”, disse Beto de Jesus, da Ilga (International Lesbian and Gay Association). “Sobre a quantidade de crimes contra homossexuais, costumo dizer que a igreja tem um pouco desse sangue nas mãos, porque alimenta a homofobia”, disse Beto.

Em Porto Alegre, a ONG Somos criou um logo com a Nossa Senhora Aparecida, contra a homofobia, e está disponibilizando a imagem em seu site para grupos independentes usarem.

“Muitas pessoas vão colocar em camisetas e usá-las nas missas de domingo em suas cidades”, disse Alexandre Boer, coordenador do Somos. A ONG também irá distribuir na cidade 10 mil santinhos com o desenho da santa a partir de domingo.

Em Belo Horizonte, o grupo Cellos irá distribuir 5 mil camisinhas e uma carta que denuncia a homofobia da igreja, no dia 13, na praça Sete, no centro da cidade.

Fonte: Reuters