Em entrevista ao jornal Le Monde, Alexis 2º de Moscou, patriarca da Igreja ortodoxa russa, diz temer que uma possível reunião com o papa Bento XVI possa acontecer apenas para as câmeras de televisão.

Eleito em 1990 após ter sido metropolita (bispo da metrópole; arcebispo) de Leningrado, Alexis 2º (nascido Alexis Ridiger), o “patriarca de todas as Rússias”, governa uma Igreja em pleno renascimento que conta 120 milhões de fiéis na Rússia, na Ucrânia, em Belarus, na Moldova, nos países bálticos e na diáspora da Europa e dos Estados Unidos.

O patriarcado de Moscou vem sofrendo das tensões étnicas, lingüísticas e nacionalistas que agitam o ex-império soviético, sobretudo na Ucrânia, aonde os militantes de uma Igreja ortodoxa nacional vêm lutando em favor da sua autocefalia (autonomia).

Em contrapartida, após um cisma que durou 80 anos, Alexis 2º conseguiu reintegrar a Igreja chamada de “fora das fronteiras”, a qual reunia 500.000 fiéis que haviam fugido do regime bolchevique e que se apresentavam como defensores das tradições da antiga Rússia. Risco de sofrer uma guinada conservadora? Na entrevista ao “Le Monde”, o patriarca nega esta possibilidade: “O conservadorismo torna-se perigoso quando ele significa uma tendência ao ensimesmamento, a recusa a testemunhar e a compartilhar. Eu não penso que existam muitos homens movidos por essas atitudes na Igreja “fora das fronteiras”, afirma. Confira a entrevista abaixo:

Le Monde – É a primeira vez que um patriarca da Igreja da Rússia participa de encontros no Conselho da Europa em Estrasburgo e em Paris. Qual é o objetivo da sua visita?

Alexis 2º – A França é a segunda pátria para as centenas de milhares de russos que foram forçados a deixar o seu país durante a grande tragédia do século 20. A proximidade das nossas culturas não precisa mais ser demonstrada. Eu gostaria, portanto, de lembrar às autoridades da Europa ocidental que sem uma fidelidade renovada aos seus valores espirituais e morais, a Europa não tem futuro algum. A sociedade européia está sendo marcada por uma ideologia secularista agressiva, pelo culto do consumo, a adoração da razão. Se a liberdade não for acompanhada pelo senso da responsabilidade, pela humildade, então a pessoa e a sociedade se auto destroem.

A cultura européia e a cultura russa foram fundadas com base nos valores cristãos. Nós não podemos rejeitar esta herança. Por isso, é com amargura que nós constatamos que as raízes cristãs da Europa nem sequer foram incluídas no preâmbulo do Tratado Constitucional Europeu.

Será a sua visita à Igreja católica da França um primeiro passo antes de um encontro com Bento 16? Ou será que Vossa Excelência se mantém numa atitude de recusa? O ecumenismo parece estar reduzido a uma “frente moral” contra a permissividade da Europa…

Eu nunca excluí a possibilidade de haver tal encontro. Mas, há um aspecto disso do qual discordo. É o fato de essa reunião poder acontecer apenas para as câmeras de televisão! Ela deverá ser precedida por mudanças profundas em nossas relações e, por enquanto, ainda existem obstáculos em demasia.

Durante os anos 1990, diversos responsáveis católicos afirmaram que a Rússia pós-marxista era um deserto espiritual, sendo como tal, para eles, uma terra de missões. Nós não podemos aceitar isso. A luz do cristianismo foi trazida para a Rússia, há mais de mil anos, pela Igreja ortodoxa. A luta ateísta e o terror que foi exercido contra a Igreja no século 20, transformaram em mártires dezenas de milhares de russos ortodoxos. Além disso, hoje, no momento em que a renovação espiritual se torna novamente possível, não é conveniente, nem decente conduzir em nosso território missões paralelas de conversão. Ora, dezenas de milhares de religiosos católicos vêm desenvolvendo atividades missionárias junto ao nosso povo, o qual considera isso como atos de proselitismo.

O segundo obstáculo é a expansão do “uniatismo” na Ucrânia ocidental (o “uniatismo” designa as tentativas católicas visando a converter populações ortodoxas no Leste). A Igreja grego-católica (de rito ortodoxo, porém dependente de Roma) foi proibida sob Stalin, mas, durante cinqüenta anos, ela conseguiu receber uma ajuda espiritual das nossas escolas teológicas. Em primeiro lugar, não teria sido o caso de nos agradecer por isso? Ora, ocorreram enfrentamentos que objetivavam a suposta recuperação de bens e de igrejas. Atitudes como essas eram imagináveis na Idade Média, mas não hoje. Na Ucrânia ocidental, até hoje continua sendo impossível para nós receber toda e qualquer autorização para comprar terras. Resumindo, em relação à Igreja de Roma, nós estamos separados há quase mil anos, e serão necessários ainda muitos esforços para podermos superar a nossa divisão.

Nos meios da oposição, muitos foram os críticos que tomaram posição contra o espaço demasiadamente grande que a Igreja vem tomando na vida pública russa. A sua proximidade com o presidente Putin não estaria obrigando a sua Igreja a caucionar sua política, e até mesmo as suas exigências na Tchetchênia?

Os ocidentais têm mesmo muitas dificuldades para compreender tudo aquilo que os padres, os bispos e os fieis sofreram durante os anos 1920 e 1930. Além disso, o que os impressiona atualmente é que um sem número de igrejas esteja reabrindo as suas portas. Mas este é um processo que de modo algum é imposto pelos poderes, nem pelo civil, nem pelo religioso. Ele corresponde a uma demanda que vem de baixo, deste povo ortodoxo que, após ter sido alvo de repressão durante dezenas de anos, volta-se novamente para a fé dos seus pais e aspira a uma direção moral e espiritual. A Rússia é um novo país, mas os estereótipos inspirados na época soviética permanecem. De modo equivocado. A Rússia está aberta para todos os tipos de colaboração.

“Caucionar” a política do presidente Putin? Com toda a responsabilidade que me impõe o meu cargo, eu lhe respondo que o Estado não interfere na vida interior da Igreja. E que a Igreja não interfere na vida política do Estado. O princípio da separação é respeitado, mas existem campos nos quais nós devemos colaborar, tais como a educação, o social, a preservação da paz entre as religiões e entre os povos. Nós estamos a par de tudo aquilo que o Estado vem fazendo pelo bem do nosso povo, mas quando são tomadas decisões que enfraquecem, por exemplo, as populações mais pobres, nós damos a entender a nossa desaprovação.

No que diz respeito à Tchetchênia, quero lembrar que dezenas de padres foram mortos pelos nacionalistas e que, sessenta anos depois da guerra mundial, o terrorismo volta a mostrar, infelizmente, o seu rosto mais cruel.

Vossa Excelência nasceu nos países bálticos (em 1929, na Estônia) no contexto de uma imigração que atribuía uma enorme importância para os valores de reforma da ortodoxia, como elas haviam sido manifestadas no Concílio de 1917, o qual foi destruído pela revolução bolchevique. Mas o conservadorismo, atualmente, parece ter levado a melhor sobre o espírito de reforma…

A Igreja ortodoxa não é uma Igreja de reforma, e sim uma Igreja de tradição. Mas a tradição não é, para nós, um legado morto dos séculos passados, e sim uma herança viva, por conta da riqueza herdada dos nossos pais. Foi imbuído deste espírito que eu fui educado pela família ortodoxa da Estônia.

O Concílio de 1917-1918 permanece um evento de marca maior da nossa história. Nós recorremos às suas decisões quando estávamos preparando os Fundamentos da Doutrina Social que foram adotados no ano de 2000, ao mesmo tempo enraizados na tradição e capazes de oferecer respostas às questões de atualidade – bioética, ecologia, cultura, ciências, política – e àquelas levantadas pelas nossas relações com o Estado.

Atualmente, a Igreja russa está renascendo. Uma grande sabedoria é necessária, portanto, para não melindrar nem ferir os jovens que dela querem participar. Para alguém que acompanha tudo isso do lado de fora, esta prudência pode se parecer com um conservadorismo excessivo. Mas, do interior, percebe-se que a vida da nossa Igreja é muito ativa, e que as suas estruturas e o seu pensamento evoluem de maneira dinâmica.

Fonte: Le Monde