Depois de freqüentar por seis anos a seita “Jesus a Verdade que Marca”, o comerciante Fábio Saraiva se diz arrependido e indignado com os ensinamentos do líder da igreja, Cícero Vicente Araújo, o “pastor Araújo”, que se apresenta como “o único profeta verdadeiro”. Ele afirma que o líder ensina aos fiéis “que devem estar preparados para morte”.

Segundo Fábio, os seis anos que passou na seita foram “só sofrimento, dor de cabeça, controle, domínio”. Enquanto foi membro do movimento, o comerciante foi impedido de ter filhos, “o senhor Araújo proibiu, fazendo terrorismo”.

Ele conta que, ao comunicar o líder que queria ser pai, imediatamente foi levado a um tratamento de manipulação e lavagem cerebral, “por dois anos, eu e minha esposa insistimos para termos um filho, mas não conseguimos autorização”, denuncia.

O comerciante conta que durante sua conversa com o “pastor Araújo”, só ouviu informações negativas sobre filhos, “ele manipula com informações sobre estrangulamento de crianças e o sofrimento das grávidas”.

Fábio Saraiva disse que, segundo o líder religioso, “as grávidas seriam mortas e teriam seus filhos arrancados do ventre e estrangulados pela Besta do apocalipse”. Segundo ele, todas as “revelações” feitas por Araújo são atribuídas a Deus.

O comerciante revela que nas reuniões com fiéis, “pastor Araújo” ensina que todos devem “se preparar para morrer”. Segundo Fábio Saraiva, ele submete as pessoas à sessões de cinema com filmes de terror ou drama de guerra, “com isso, ele manipula as pessoas, causando a impressão de morte”.

Durante os cultos, para impressionar os freqüentadores, “pastor Araújo” ensina que ele é “o único profeta da igreja”. Saraiva explica “ele (Araújo) diz que sabe quando é Deus ou o Diabo que está falando. Só ele saberia”, contou.

Fábio Saraiva ficou na seita até março deste ano. Ele conta que seguiu as orientações de Cícero Araújo porque acreditava. Por ser dono de uma drogaria em São Caetano do Sul, era responsável por cuidar da saúde dos fiéis.

Ele chegou a morar em Caxambu, trabalhando para a seita. Fábio cuidava da farmácia comprada pelo movimento na cidade. Depois que deixou a seita, o comerciante passou a ser ameaçado e hoje vive sob a proteção da polícia.

“Pastor Araújo” quer governar um “novo país”

O interesse de Cícero Vicente Araújo, o “pastor Araújo”, líder da seita “Jesus a Verdade que Marca” seria político, diz Fábio Saraiva.

Segundo Fábio, o líder religioso teria tido uma “visão divina” sobre uma nova Nação que deverá surgir em breve. O novo país seria criado a partir de cidades do sul de Minas Gerais, para onde Araújo levou centenas de adeptos de sua seita, inclusive transferindo seus títulos eleitorais.

Os municípios onde a seita se contra são Minduri, Caxambu, Andrelândia e São Vicente de Minas. Nessas cidades, o movimento comprou estabelecimentos comerciais e propriedades rurais, onde vivem os fiéis.

Em sermão pregado nos templos da seita, “pastor Araújo” diz que recebeu orientação de Deus para instituir uma nova Nação, “você assumirá o governo de uma grande Nação”, teria dito Deus, ao líder.

Segundo Fábio Saraiva, nas cidades onde a seita tem templos ou qualquer forma de movimentação, o “pastor Araújo” consegue o apoio de prefeito, vereadores e outras lideranças, “o objetivo dele é eleger pessoas de sua confiança nessas cidades”, garante o ex-membro.

O controle de Araújo sobre seus seguidores seria absoluto, “ele domina mesmo. O homem tem capacidade de controlar as pessoas”, diz.

Em Caxambu, a polícia investiga vários crimes atribuídos ao “pastor”. No total são nove inquéritos policiais que apurar crimes trabalhistas e estelionato.

Fiéis dizem que “Pastor Araújo” se apresenta como Deus

Pelo menos outras sete pessoas integrantes da seita “Jesus a Verdade que Marca”, investigada sob suspeita de estelionato e crimes contra trabalhadores, confirmaram em depoimento à polícia, que o líder do movimento, “pastor” Cícero Vicente Araújo se apresenta como uma divindade. Ele responde a nove inquéritos na delegacia de Caxambu, no sul de Minas Gerais.

A preocupação com as ações do grupo aumentaram, depois que o Rio Preto News publicou com exclusividade trechos de uma carta da seguidora da seita, Valéria Cristina de Souza, 38 anos, que manifesta disposição para morrer, “em, nome Jesus, junto com Cristo”.

Na carta, Valéria ainda afirma à sua mãe Valdete Ferreira, que “a senhora ainda vai entender tudo o que está acontecendo agora”.

A carta foi postada numa agência dos Correios de Andrelância (MG), no dia 22 de julho deste ano.

A mãe da seguidora teme que sua filha e outras pessoas possam ser levadas a suicídio coletivo, “chamo a atenção das autoridades para que cuidem do caso com mais dedicação e carinho”, disse.

Para o teólogo e mestre em línguas originais da bíblia, Esequias Soares da Silva, o caso exige cuidados especiais. Ele disse que estuda a seita há cerca de dez anos, “m,as nunca havia visto nada perecido com esta manifestação da seguidora (Valéria)”.

O teólogo disse que quando o líder assume a postura de uma divindade, “o risco de medidas extremas passa existir”.

Para ele, o “pastor” Araújo nunca havia se apresentado com alguém dotado de poderes divinos, “não sabia que ela estava se apresentando assim”, afirmou.

Este “é o comportamento de teomaníacos (pessoa que pensa ser Deus ou uma entidade divina)”, disse.

Segundo Esequias Soares da Silva, pessoas com este comportamento se apresentam aos fiéis como Deus ou uma personalidade divina, dotada de poderes sobrenaturais.

De acordo com depoimentos registrados pela polícia mineira, sete seguidores revelaram que o ” Pastor Araújo”, nas reuniões da seita, afirmara que tem poderes divinos.

Eles revelaram ainda que, no ano passado, o líder chegou a dizer que a “volta de Jesus Cristo à terra estava marcada para o mês de setembro”, daquele ano.

Esequias Soares é autor de vários livros sobre seitas e religões. Atualmente, o teólogo faz mestrado em Ciência da Religiões, pelo Mackienzie.

Fanatismo religiosos: fiéis se suicidaram em obediência aos líderes

O histórico de suicídios coletivos no mundo tem como destaque o caso do pastor norte-americano Jim Jones, que em 18 de novembro de 1978 levou 900 pessoas à morte, por puro fanatismo religioso.

O suicídio coletivo ocorreu em Jonestown, uma pequena ladeia nas selvas de Guiana.Os que se recusaram a beber o suco de laranja com veneno, identificado como cianureto, foram assassinados.

Jim Jones, que viveu oito meses em Belo Horizonte, entre 1962 e 1963, mudando,logo depois com seus adeptos para a Guiana, em 1977, com a aprovação do governo local, depois das primeiras denúncias contra a seita por ex-adeptos.

Em agosto de 1977, a imprensa americana documentou o crescente uso da violência por Jones para ser obedecido. O cadáver de Jim Jones foi encontrado ao pé de uma cadeira, com uma bala no crânio.

”Não estamos cometendo suicídio. Este é um ato revolucionário. Não podemos recuar porque eles não nos deixarão em paz. Bebam o suco e sejam gentis com as crianças”, disse Jones aos seus 913 seguidores, entre eles 275 crianças e 12 bebês.

Outro caso desse tipo ocorreu em setembro de 1985 nas Filipinas. A ”sacerdotisa suprema” Mangayonon Butaog matou seus fiéis com formicida com a promessa de que todos veriam a ”a imagem de Deus”.

Com argumentos semelhantes, a ”mãe benevolente”, como era conhecida a sul-coreana Park Soon Ja, realizou um ritual em que morreram 28 mulheres e quatro homens no dia 29 de agosto de 1987, em Yongin, Coréia do Sul.

Em 19 de abril de 1993, um cerco policial de 51 dias ao grupo de seguidores da seita Ramo Davidiano, em Waco, Texas, sul dos EUA, terminou com um incêndio que destruiu o Rancho do Apocalipse, sede do culto liderado por David Koresh. Pelo menos 70 fiéis morreram carbonizados.

No ano seguinte, a seita Ordem do Templo Solar, fundada pelo médico suíço Luc Jouret, levou 48 pessoas à morte no mesmo dia: 23 em uma fazenda em Cheiry, no Cantão de Friburgo, e 25 em dois chalés em Granger-sur-Salvan, no Cantão do Valais, a 160 km de distância. A seita pregava a iminência do apocalipse com a entrada da humanidade na era de Aquário.

A seita do brasileiro Cícero Vicente Araújo prega, entre outras doutrinas, que o casal não pode manter relação sexual se não for para procriação. na visão de Araújo, a mulher casada de se relaciona com o marido apenas por prazer é tida como prostituta.

Os seguidores dizem que, em meio aos cerimoniais da seita, o líder diz que tem poderes sobrenaturais para acompanhar, mesmo à distância, o comportamento dos seguidores. Araújo ainda ensina, segundo um ex-integrante, que, os bens materiais devem ser doados à igreja. Ele teria acumulado nos últimos anos um patrimônio superior a R$ 10milhões.

Fonte: Rio Preto News