Alta capacidade de mobilização, comprovada em reuniões semanais ou diárias com milhares de pessoas. Unidade ideológica, já que o rebanho segue quase o mesmo código de conduta e transita num campo ético-filosófico muito semelhante. Igrejas mobilizam fiéis para elegerem deputados federais e estaduais com o objetivo de ampliar seus espaços na administração pública. A religião é o paraíso da política.

Cumplicidade inquestionável com os líderes, que exercem um grande poder de convencimento acerca das principais dúvidas do cotidiano. Para completar, toda essa organização não tem custos. Ou, melhor ainda: na verdade é provável que um eventual apoio do grupo se reverta em dividendos, na forma das tradicionais oferendas.

A religião é o paraíso da política. Sempre foi e continuará sendo, enquanto os homens precisarem referendar representantes para governá-los. O modelo liberal, em qualquer parte do mundo e em qualquer época, nunca conseguiu separar o laico e o eclesiástico em suas entranhas políticas. Assim como o socialismo apenas mitigou a superfície do fenômeno religioso — mesmo adotando atitudes tão dogmáticas quanto seus inimigos do clero. O crescimento vertiginoso da ocupação religiosa sobre o campo político ultrapassa a discussão meramente eleitoral e se torna tema de primeira grandeza para a sociologia contemporânea.

A abertura de mais um processo eleitoral, o sétimo para a eleição de governadores e o quinto para presidente da República desde a redemocratização, é uma nova oportunidade para auferir esse crescente poder de articulação política do universo religioso. Enquanto o mensalão, os sanguessugas e outros escândalos em Brasília motivaram a Igreja Católica a reforçar sua tradicional defesa da ética na política, mantendo-se institucionalmente fora da disputa direta por votos, outras denominações religiosas parecem ter acirrado a disposição de operar nas urnas sem intermediários.

Candidatos proporcionais, que não integram o esquema de trabalho político das igrejas (especialmente os evangélicos), reclamam que enfrentam uma disputa injusta. Como as campanhas têm se profissionalizado cada vez mais, eleição após eleição, é raro encontrar alguma candidatura competitiva que não tenha um planejamento completo, chegando a detalhar o custo unitário dos votos que vão garantir a vitória ou a derrota nas urnas. Para muitos deles, é revoltante imaginar que boa parte do eleitorado de seus adversários não tem custo algum e ainda pode ajudar com doações e trabalho voluntário.

Esse é o tipo de reclamação que pode ser relativizada. É verdade que os fiéis de determinada igreja tendem a votar nos candidatos indicados pelo líder espiritual. Contudo, praticamente todas as denominações religiosas são pródigas operadoras sociais, com programas que freqüentemente se parecem muito com qualquer lista de pedidos assistencialistas que os demais comitês recebem todos os dias. A diferença é que os religiosos fazem esse trabalho durante o ano inteiro e solidificam vínculos afetivos e morais que esses potenciais eleitores não esquecem na hora de votar.

Faro eleitoral — Quando se discute a situação dos candidatos majoritários e a influência religiosa, o problema da competição acontece em outro plano. Os religiosos (especialmente os evangélicos) somente em poucos Estados brasileiros possuem cacife financeiro e eleitoral para bancar um candidato a governador oriundo de suas fileiras. O caso do Rio de Janeiro, com a hegemonia do casal Garotinho se confirmando agora em sua terceira eleição, deve ser analisado à parte, pois ali se encontra o maior contingente de evangélicos do país.

Assim, na maioria das eleições majoritárias, pastores (e outras denominações) trabalham indiretamente a orientação dos votos. Mas isso não representa muito consolo para os candidatos leigos. Dada a natureza das organizações religiosas, que trabalham de forma muito objetiva suas relações com os governos, é possível observar como padrão comum a atrelagem às candidaturas favoritas ou às que estão ligadas à situação. Existem as exceções, que confirmam a regra, mas é muito difícil ver um grupo evangélico, por exemplo, muito tempo na oposição. Por isso mesmo, o apoio desses segmentos costuma ser decidido apenas em estágio adiantado do processo eleitoral, muitas vezes no segundo turno.

Entretanto, depois de feita a opção por determinada candidatura, o escolhido pode comemorar. O faro político dos evangélicos raramente falha. Aos candidatos preteridos pelo comando das igrejas resta trabalhar com os segmentos de oposição, que também existem internamente em cada uma das denominações. Na eleição de Goiânia em 2004, por exemplo, a Assembléia de Deus (maior igreja evangélica do país) tinha alguns de seus principais líderes apoiando tanto Iris Rezende (PMDB) quanto Sandes Júnior (PP).

Este caso específico mostra bem o pragmatismo político dos pastores, uma vez que Iris era o favorito segundo as pesquisas e Sandes, o candidato apoiado pelo governo. Durante a maior parte da campanha, o discurso oficial era o da liberdade democrática: institucionalmente, a igreja deixou o apoio a qualquer um dos candidatos como uma questão aberta. Para os críticos, no entanto, o que aconteceu foi um clássico jogo duplo para garantir benefícios à igreja nos dois campos em disputa. Quando o segundo turno foi definido com a presença do petista Pedro Wilson (diretamente vinculado à Igreja Católica), Iris levou a fatura.

O pragmatismo da Assembléia de Deus

E como serão as eleições de 2006 para os evangélicos? As campanhas eleitorais deste ano enfrentam uma situação diferenciada. No plano geral, será o primeiro pleito após a eclosão de dois dos maiores escândalos políticos da história nacional, o do mensalão e o dos sanguessugas. O plano específico da atuação dos segmentos religiosos na política também não passou incólume. Nacionalmente, o caso mais destacado foi o do ex-bispo da Igreja Universal Carlos Rodrigues, que renunciou ao mandato de deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro após ser flagrado com várias malas recheadas de dinheiro.

Em Goiás, o caso mais notório estourou no final do ano passado, com a denúncia de desvio de verbas públicas na Assembléia Legislativa, por meio da contratação de funcionários-fantasmas. O esquema, segundo inquérito da Polícia Civil, teria como personagens o pastor Abigail Almeida Filho e seu filho Wendel, irmão e sobrinho do presidente da Casa, deputado Samuel Almeida (PSDB), todos vinculados a um dos segmentos religiosos mais representativos do Estado. O parlamentar se disse surpreso com a denúncia, abriu seu sigilo bancário e telefônico às investigações, além de exonerar todos os suspeitos, inclusive seu irmão.

Diante desse quadro de descrédito da atividade política, é natural que o envolvimento direto de igrejas no processo eleitoral passe por adaptações na formulação do discurso que farão à sociedade. O pastor Abigail Carlos de Almeida, pai dos envolvidos no caso citado acima e uma das principais lideranças da Assembléia de Deus em Goiás, por exemplo, está recomendando certo distanciamento das eleições. Por meio de sua assessoria, disse que não se envolverá na campanha deste ano.

Presidente da Convenção das Assembléias de Deus do Ministério Madureira, o que o credencia como a maior liderança do segmento em Goiás, o pastor Oídes José do Carmo pensa diferente do colega Abigail, que é o seu vice. Ele defende uma atitude pragmática durante o processo eleitoral, recomendando aos fiéis que procurem votar nos candidatos majoritários que mais valorizem o trabalho social da igreja. “Temos várias parcerias em projetos sociais e educacionais que precisam ser reconhecidos pelos próximos governantes”, afirmou o pastor.

Segundo Oídes José do Carmo, a defesa da ética na política é uma atitude constante em seu segmento religioso, pois esta seria uma recomendação implícita do cristianismo. “Nem fazemos uma campanha específica quanto à ética (a exemplo da que foi desencadeada pela Igreja Católica neste ano), porque nossa preocupação com esse tema reside em todas as ações do dia-a-dia. Fazer tudo como prescreve as leis é uma busca contínua de qualquer evangélico”, disse o pastor.

Indecisão — A Assembléia de Deus ainda não decidiu qual candidato majoritário apoiará em Goiás. “Estamos conversando com todos eles, procurando fazer a melhor escolha para o futuro da igreja”, afirmou Oídes. Oficialmente, “nos termos da Convenção Nacional das Assembléias de Deus”, completou o pastor, o indicativo seria de declarar apoio ao governador Alcides Rodrigues (PP), candidato à reeleição. Mas, como ele mesmo reiterou, a decisão oficial da igreja em Goiás ainda não foi tomada. “É possível que deixemos para o segundo turno.”

Sobre as campanhas proporcionais, contudo, a questão já foi fechada. O pastor disse que a Assembléia de Deus apoiará a reeleição do deputado federal João Campos (PSDB) e três candidatos a deputado estadual (o próprio Samuel Almeida e seu colega tucano Daniel Messac, além do peemedebista Luís Carlos do Carmo, irmão de Oídes). Esse número de candidaturas não preocupa o pastor. Segundo ele, o último levantamento do IBGE identificou que vivem em Goiás cerca de 1 milhão de evangélicos, sendo que 600 mil estariam vinculados à Assembléia de Deus.

O pastor não concorda com a avaliação de alguns analistas políticos que criticam o segmento evangélico pelo freqüente adesismo. Afinal, estão sempre compondo com os governos, independentemente da cor partidária. Agindo dessa forma, dizem esses analistas, os evangélicos perdem o senso crítico e a oportunidade de agregar valor ao debate político. “A igreja tem uma responsabilidade muito grande diante de seus fiéis e da sociedade. Não perdemos nunca a capacidade de ver e apontar os erros que possam existir na atividade política”, garantiu Oídes.

Em função da abrangência e da importância de seus projetos sociais, o pastor disse acreditar que o posicionamento mais natural da igreja é o de procurar uma composição, e não a oposição. Para provar a independência de seu segmento, comentou que na eleição passada, em Goiânia, a Assembléia de Deus apoiou a candidatura de Iris Rezende, mantendo-se na oposição ao candidato do governo federal (Pedro Wilson) e ao postulante apoiado pelo governo do Estado (Sandes Júnior).

Eleito em 2002 com 61.323 votos, o deputado federal João Campos também disse que não concorda com a pecha de adesista que colou na imagem dos segmentos evangélicos. “Apesar de certos fatos objetivos realmente colaborarem para essa análise, nossa participação na política é sempre pautada pela qualidade”, afirmou. Como exemplo, ele citou a própria experiência como parlamentar. “Fui procurado várias vezes para mudar de partido, inclusive com a perspectiva de presidir a legenda, mas mantive a minha coerência.”

Qualidade — Campos justifica a participação dos evangélicos na política com quatro motivos. Em primeiro lugar, trata-se de um segmento numeroso da sociedade, que possui peso demográfico para ser ouvido por qualquer governo. O segundo motivo diz respeito à representatividade, pois ajuda a dar voz a um contingente que desfruta de interesses e objetivos comuns. “Temos os mesmo direito de sermos representados na política, como ocorre com os segmentos do agronegócio, dos empresários ou das donas de casa.”

O terceiro e o quarto pontos do deputado João Campos são um pouco mais subjetivos. Segundo ele, a participação dos evangélicos na política se justifica pela qualidade dos quadros que indica para representá-los. Seriam sempre nomes de alto nível, preparados ética e culturalmente para exercer as funções públicas. O último motivo seria o que descreveu como contribuição pedagógica da igreja para o espaço da ação política, com a oferta de valores religiosos. “É, então, uma contribuição tanto pela quantidade quanto pela qualidade.”

Para o deputado, a igreja exerce uma função importante ao coadunar ações sociais do campo privado com as iniciativas públicas. “O Estado precisa da ação do terceiro setor, pois não consegue responder a todas as demandas sociais”, disse. Além de sua capilaridade, a igreja se coloca como organismo com vocação para áreas que o Estado poderia encontrar dificuldades para agir. Essa seria uma tendência mundial, já que até nos Estados Unidos, a nação mais rica do mundo, o presidente George W. Bush conta com as igrejas evangélicas em várias ações, como a de recuperação de dependentes químicos.

O deputado estadual Daniel Messac, eleito com 23.509 votos em 2002, agrega mais uma justificativa para a participação dos evangélicos na política. Segundo ele, poucos segmentos organizados teriam tanto controle de qualidade na atuação de seus representantes. “Os parlamentares eleitos com o apoio da Assembléia de Deus prestam contas de suas atividades diante dos fiéis, em reuniões realizadas a cada três meses”, declarou. Com isso, seria difícil encontrar algum político ligado à igreja que não seja atuante.

Essa vantagem seria reforçada pela convivência estreita com os fiéis. “Estamos com eles todos os dias, participando de todos os cultos. Eles nos conhecem, sabem das nossas vidas.” Outra característica da atuação política da Assembléia de Deus, de acordo com Messac, é a separação entre as atividades pastorais e a atuação política. Todo pastor que é eleito, afasta-se do púlpito. “A vida partidária não condiz com a missão inerente do pastor, que é a de apassentar (o ato de conduzir o rebanho) e exige estar acima das diferenças de pensamento de cada fiel”, disse o deputado. (Danin Júnior)

Pastor defende mudança radical

Fenômeno nas últimas eleições de Goiânia, o vereador Fábio Sousa (PSDB) foi o mais votado do pleito, com apenas 22 anos de idade. Seu número foi digitado 9.374 vezes nas urnas eletrônicas, quase quatro vezes mais do que o vereador menos votado. Pastor e filho dos líderes da Igreja Fonte da Vida, apóstolo César Augusto e bispa Rúbia de Sousa, ele promete repetir a dose com a campanha deste ano para deputado estadual, tendo como base um discurso de renovação na representação política.

“Queremos e precisamos de mudanças. O Brasil não agüenta mais tanta falta de competência e de ética na classe política”, disse Fábio Sousa. Outro mote de sua plataforma eleitoral é o combate às desigualdades sociais — segundo ele, uma coisa absurda que aflige um país com tantos recursos naturais. Pastor há quase sete anos, o vereador não abandonou o ofício e afirmou que sua igreja realiza um grande trabalho ao colocar “os irmãos para orar e pedir ajuda de Deus a todos os governantes”.

O exército da Fonte da Vida não é tão numeroso quanto o da Assembléia de Deus, mas mostrou grande capacidade de mobilização ao arrebanhar tantos votos para Sousa. De acordo com ele, a igreja (criada em Goiânia) está presente em mais de 100 cidades goianas, somando cerca de 120 mil fiéis. Como outras denominações religiosas, a Fonte da Vida ainda não decidiu oficialmente quem apoiará entre as candidaturas majoritárias. “Meu voto pessoal é para [o presidenciável tucano, Geraldo] Alckmin, Alcides e Marconi [ex-governador, candidato ao Senado], mas não estou falando pela igreja”, disse ele.

Também a exemplo do que acontece com outras igrejas, Fábio Sousa revela que a Fonte da Vida está seguindo à risca a legislação eleitoral, que não permite manifestações diretas sobre as eleições durante a realização de cultos. Além de proibida a distribuição de material publicitário dos candidatos dentro dos templos, é vedada qualquer menção sobre eles nas cerimônias religiosas. “Não queremos desrespeitar a lei, e o nosso trabalho ficou restrito ao corpo-a-corpo, às visitas de casa em casa”, disse o jovem pastor.

Eleito vereador em Goiânia com votação muito próxima à de Fábio Sousa, com 8.195 votos, o pastor Rusembergue Barbosa de Almeida diz que a Igreja Universal do Reino de Deus também vai às ruas neste ano para pedir mais ética na política. Segundo ele, o episódio com o bispo Carlos Rodrigues já foi superado. “Foi, inclusive, uma oportunidade de mostrar que não admitimos qualquer suspeita de corrupção sobre nossos quadros, uma vez que o bispo foi inteiramente afastado de suas funções”, disse ele.

Cor partidária — Além de comportamento ilibado de seus representantes, Rusembergue afirmou que a Universal exige ainda comprometimento com as causas sociais da igreja. “A política representa um poder de decisão muito importante para a sociedade, pois cada medida pode influenciar o futuro da igreja. Por isso, nós não devemos ficar omissos durante o processo eleitoral”, argumentou. De acordo com o pastor, o seu trabalho pessoal com cursos profissionalizantes envolveu mais de 1,5 mil pessoas no ano passado e 800 no primeiro semestre de 2006.

A Universal, como a Assembléia de Deus e a Fonte da Vida, também mantém aberta a questão do apoio a candidaturas majoritárias em Goiás. “Mas vamos decidir sobre isso em breve”, prometeu Rusembergue. Na disputa proporcional, a igreja lançou os bispos Ronaldo Carneiro (deputado federal) e Miguel Ângelo (deputado estadual), ambos do PMDB. Curiosamente, o Partido Republicano Brasileiro (PRB) foi fundado no ano passado com mais de 600 mil assinaturas de fiéis da igreja do bispo Edir Macedo.

É mais uma prova de que a preferência dos fiéis na hora de votar fica acima da cor partidária dos candidatos. Os cerca de 70 mil fiéis da Universal, segundo Rusembergue, vão trabalhar seus dois postulantes tendo como base os 240 templos espalhados pelo Estado. “Não vamos desrespeitar a legislação eleitoral, pedindo votos durante os cultos, mas vivemos em uma democracia. Podemos distribuir o material da campanha na porta da igreja”, arrematou o vereador. (Danin Júnior)

Freud, a religião e a política

Criador da psicanálise, Sigmund Freud produziu uma das teses mais interessantes sobre o surgimento da religião e dos primeiros rudimentos de política. Os dois conceitos teriam aparecido e evoluído ao mesmo tempo, de acordo com a fantástica e polêmica conceituação das primeiras sociedades humanas, realizada por ele em Totem e Tabu (1912). Partindo de sua teoria sobre o complexo de Édipo — a disputa sexual inconsciente entre pai e filho pela mãe —, Freud diz que a religião nasce no momento em que os filhos tomam coragem para matar e assumir o poder do pai como líder do bando.

Para chegar a essa formulação, Freud levou em conta todos os avanços da ciência natural de seu tempo — o início do século 20. Os estudos iniciados por Charles Darwin com animais apontavam que o poder de um macho dominante tinha uma motivação muito mais sexual (para procriar com as melhores fêmeas) do que de outro tipo, como a disputa por território ou por comida. Com exceção dos bonobos, que desenvolveram uma espécie de democracia sexual para evitar a perda dos machos mais fortes em disputas por fêmeas, os primatas costumam ter um comportamento semelhante: somente o chamado macho alfa pode copular com as fêmeas do bando.

Para Freud, essa organização prevaleceu até as primeiras manifestações da inteligência humana, quando os integrantes da horda não só respeitavam a força do macho dominante (para afastar inimigos e caçar), como passaram a “dramatizar” esse poder — como se possuíssem uma “sede de obediência”. A própria sobrevivência do bando dependia da presença de seu integrante mais forte. Não é estranho imaginar, segundo o pensador vienense, que essa horda ficasse aterrorizada quando da morte do líder — provavelmente em conluio de machos portadores de seus dotes genéticos, seus filhos.

Nesse momento de terror, o tabu primordial para Freud, a coesão do grupo foi mantida por algum artifício dos filhos que venceram o pai. Eles garantiram a sobrevivência da horda assumindo uma nova espécie de poder, dessa vez de ordem espiritual e baseada na fraternidade (laços entre irmãos). Estava criada a primeira pajelança e a primeira divisão do poder, com rudimentos complementares de religião e política. Com o tempo, eles adotariam rituais cada vez mais elaborados para simbolizar esse poder sobrenatural, que não provinha da força bruta. Desde então, quase nenhuma sociedade se firmou sem essa divisão entre o objetivo e o subjetivo, entre o cacique e o pajé, entre o rei e o papa.

Inseparáveis — Mesmo considerada por muitos cientistas apenas como literatura instigante, a tese de Freud serve como ponto de partida para discussões atuais sobre a coexistência da religião e da política. É uma prova de desinformação imaginar que uma instituição consiga se desvincular inteiramente da outra. Assim como é ingenuidade desejar que isso aconteça. Mesmo com indefectíveis distorções dessa aproximação (ainda mais no Brasil), políticos e religiosos têm muito a oferecer no âmbito público. É preciso conferir como isso poderia acontecer.

Professor de ciência política e sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, Joanildo Burity é um estudioso dessa intersecção entre fé e fazer político. Segundo ele, desde os anos 90, as diversas denominações religiosas têm avançado sobre os espaços tradicionais da atuação do Estado. Estariam caindo por terra os conceitos liberais da neutralidade do Estado e da separação da Igreja do domínio público. Para Burity, é falsa a própria noção de desvínculo entre política e religião que, por um longo tempo, tentou-se vender à sociedade. (Danin Júnior)

Católicos devem fiscalizar políticos

Lançada pelo papa Bento XVI no Natal de 2005, a encíclica Deus Caritas Est prescreve a atuação da Igreja Católica e de seus fiéis para os próximos tempos. No documento denso, destinado à conceituação do amor cristão e sua profissão de fé, a palavra “política” é mencionada 11 vezes. De acordo com as palavras do papa, “não dá para separar demais a fé da política. A fé bem vivida tem implicações políticas, porque pleiteia um certo modo de viver e de conviver em sociedade, ou seja, uma atitude política”.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) segue essa orientação e recentemente encampou, com outras entidades, um movimento amplo de combate à corrupção na política. Na verdade, trata-se de uma reação a uma dolorosa ironia imposta pelos recentes escândalos políticos. A CNBB foi a entidade que deu início à coleta de 1 milhão de assinaturas, que resultou na criação da Lei 9.840, em setembro de 1999. Também conhecida como lei de combate à corrupção, foi justamente sob sua vigência que vingaram o mensalão e o caixa 2 nas campanhas.

Em Goiás, o arcebispo dom Washington Cruz tem declarado que o principal mote da igreja neste ano continua sendo o de defesa da ética na política. Segundo ele, não basta aos fiéis apenas votar nos candidatos que possuam passado limpo. “É preciso participar de todo o processo”, disse o arcebispo em artigo divulgado pela arquidiocese na semana passada. E, entre as atitudes dessa participação, estaria o acompanhamento atento das eleições, inclusive com denúncias de irregularidades pelo telefone 0800-6468666 — criado pelo Movimento Goiano de Combate à Corrupção.

Fora dessa cobrança institucional no campo ético, entretanto, o arcebispo recomenda que a igreja não se envolva na política partidária, não coloque sua estrutura a serviço dos candidatos nem use sua credibilidade junto aos eleitores para pedir votos. “Os fiéis leigos podem e devem, sim, assumir a vida pública e a política partidária… Os padres, por sua vez, devem estar acima de qualquer facção ou partido político para preservarem sua missão de pastores de todos.”

Fonte: Jornal Opção