Práticas corriqueiras – mas negligenciadas – da fé cristã são capazes de ajudar o crente na busca pela plenitude de Deus. A revista perguntou a dez pessoas – como pastores, missionários, obreiros e escritores – o que elas sugerem como meio para buscar a plenitude espiritual. As respostas têm a ver com a atividade que cada um desenvolve dentro e fora da igreja, e surpreendem pela simplicidade.

Confira a matéria da revista Eclésia abaixo:

Todos os crentes – ao menos, os sinceros… – reconhecem que sua vida espiritual pode e precisa melhorar. Não existe uma pessoa que, confrontada com os padrões e ensinamentos propostos pela Bíblia, possa considerar sua vida como um exemplo de plenitude na fé. Afinal, é a própria Escritura que dá o alerta: se alguém cumprir toda a lei, mas tropeçar em um único ponto dela, já está em falta.

É claro que a vida com Jesus não é feita apenas de regras. Não fossem a graça e a misericórdia do Senhor, ninguém seria salvo. Por outro lado, a caminhada cristã pressupõe um constante aperfeiçoamento, processo que muitos chamam de santificação. É esta jornada, a do caminho estreito, que Deus propõe aos seus seguidores. Difícil? Por certo – mas a recompensa de andar seguro na mão de Deus supera todo e qualquer sacrifício.

Nesta edição, ECLÉSIA aborda a questão do desenvolvimento espiritual de maneira diferente. A revista perguntou a dez pessoas – como pastores, missionários, obreiros e escritores – o que elas sugerem como meio para buscar a plenitude espiritual. As respostas têm a ver com a atividade que cada um desenvolve dentro e fora da igreja, e surpreendem pela simplicidade. Assim, nossos entrevistados recomendam oração, leitura bíblica, socorro ao próximo, quebrantamento e outras atitudes básicas, aquelas coisas que todo crente sabe que deve fazer, mas que muitas vezes negligencia. Tudo muito simples e muito claro, exatamente como o Evangelho de Cristo. Mas quem sabe estes conselhos vão ajudar muitos leitores a trilhar, com passos mais rápidos, o rumo da soberana vocação que há em Jesus?

1- CULTIVE SUA ESPIRITUALIDADE

“A única forma de se exercer uma espiritualidade cristã equilibrada é retornar aos parâmetros da Bíblia Sagrada”

“Falar sobre o espírito é falar sobre aquilo que dá vida e ânimo a alguém ou alguma coisa. Pode-se definir espiritualidade cristã como o reflexo, a repercussão de todo o empreendimento ou esforço cristão para se buscar e sustentar um relacionamento com Deus. Isso inclui adoração pública e devoção privada. Espiritualidade tem a ver com a busca de uma vida religiosa plena, satisfeita e autêntica. A única forma de se exercer uma espiritualidade cristã equilibrada é voltar para os parâmetros da Bíblia Sagrada. Uma espiritualidade que não passa pelo crivo da Reforma Protestante não resultará em benefícios para o cristão ou para a Igreja. Acontece que os crentes já não são instruídos apenas pelos pastores de suas igrejas; há hoje um bombardeio de informações que desafiam a espiritualidade cristã. Além disso, bons pastores, capazes de conduzir o rebanho com ética e equilíbrio doutrinário, estão cada vez mais escassos. Somente pela Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus, o cristão poderá desenvolver uma caminhada segura e equilibrada em direção à espiritualidade.”

Paulo Romeiro é pesquisador, escritor e pastor da Igreja Cristã da Trindade, em São Paulo

2- ORE SEM CESSAR

“O principal elemento que leva o crente aos mananciais da vida do Espírito é a oração”

“Acredito que a vida espiritual de muitos cristãos nos dias de hoje não vai muito bem. Isso acontece pela ausência das disciplinas espirituais básicas, como a oração. Não por outro motivo, encontramos hoje poucas vidas espiritualmente saudáveis e muitas anêmicas. Creio que o principal elemento que leva o crente aos mananciais da vida do Espírito é a oração. Ao longo da história do cristianismo, os gigantes da fé se destacaram por passar muito tempo em oração diante do Senhor. Precisamos de mais entendimento quanto a isso – e, em minha opinião, são os pastores que relutam em levar o rebanho às fontes do poder indicadas no Novo Testamento. Não bastam as bênçãos; é preciso que as pessoas sejam transformadas, antes de mais nada, em discípulos do Mestre, fazendo com que Cristo seja de fato Senhor de suas vidas.”

Enéas Tognini é Doutor em Divindade, pastor emérito da Igreja Batista do Povo e da Igreja Batista de Perdizes. Preside a Sociedade Bíblica do Brasil e integra o Conselho de Pastores do Estado de São Paulo

3- ANDE EM SANTIDADE

“A santidade começa com um coração quebrantado e humilde diante do Senhor”

“Ser santo é separar-se para Deus, é buscar ser parecido com Cristo. Ou seja, é levar uma vida de contínua transformação. Essa busca por santidade precisa ser constante na vida de quem está desejando crescer espiritualmente. Mas não podemos confundir santidade com medidas externas, pois mais profunda é a mudança que precisa acontecer no interior do nosso ser, nas motivações do coração e nos pensamentos, pois isso é o que move tudo. A santidade começa com um coração quebrantado e humilde diante do Senhor, desejando sinceramente mais de Deus para sua vida. Não dá para começar de fora para dentro, com métodos e fórmulas que acabam se tornando vazios e mecânicos. É claro que para o crescimento é preciso passar tempo em oração, dedicar-se aos jejuns, ler a Palavra e manter a comunhão com os irmãos. Mas a postura do coração é fundamental. Acho que a nossa luta maior é contra nós mesmos, pois preferimos muitas vezes outros prazeres, e não aquilo que nos leva para mais perto de Deus, para um relacionamento mais fervoroso com ele. E nos nossos dias não faltam opções para nos tentar a desviar nosso caminho do Senhor. A perseverança é característica de quem tem uma vida espiritual crescente, pois muitas situações surgem para tentar abalar a caminhada do cristão, mas precisamos perseverar até o fim.”

Ana Paula Valadão é líder do Ministério de Louvor Diante do Trono e pastora da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG)

4- LEIA E MEDITE NAS ESCRITURAS

“Quando oramos, falamos com Deus; quando lemos a Bíblia, é Deus que fala conosco”

“O primeiro passo para uma vida vitoriosa diante do Senhor é ter desejo de ler a Palavra de Deus e obedecê-la. A Bíblia nos faz prostrar com o rosto em terra diante do Senhor e nos conduz ao segundo passo, que é um arrependimento que quebranta o coração. A negligência na leitura da Bíblia é fonte de problemas na vida do crente. É possível a um evangélico preencher todo o tempo fazendo boas obras, abençoando pessoas e derramando o coração no serviço cristão. Mas, se não conhecer a Palavra, ele fica fraco, temeroso, deprimido e, por fim, vai se tornar presa fácil para o diabo. É fundamental que haja um despertamento para a leitura da Palavra toda, por todos os crentes. A Bíblia continua sendo o livro mais lido, mas de um modo geral sua leitura é fragmentada. A proclamação de 2008 como o Ano da Bíblia no Brasil tem como objetivo principal motivar os brasileiros a lerem as Escrituras. Cabe lembrar que são necessárias apenas 72 horas para a leitura completa da Bíblia. Com uma disciplina de 15 minutos diários de leitura bíblica, em apenas 288 dias toda a Bíblia terá sido lida. Não é tão difícil quanto parece. Necessitamos urgentemente de um avivamento da devoção pessoal. Quando oramos, falamos com Deus; quando lemos a Bíblia, Deus fala conosco.”

Eude Martins é pastor assembleiano e coordenador do Ano da Bíblia

5- CUIDE COM CARINHO DO SEU PRÓXIMO

“A falta de pão na mesa do pobre é uma denúncia da falta de espiritualidade no altar dos cristãos”

“Fora do grande mandamento deixado pelo Senhor – ‘Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Deus, em Cristo, nos amou’ –, a vida cristã pode ser qualquer coisa, menos espiritual. Todavia, a fé do brasileiro, na maioria dos casos, é alienada ou egoísta. Os dois maiores segmentos religiosos cristãos do país são o catolicismo e o pentecostalismo. O primeiro pratica uma crença idolátrica; já o pentecostalismo, assim como o neopentecostalismo, prega uma fé materialista. Uma fé materialista e idolátrica, quando enfrenta problemas sociais, econômicos ou políticos, tende a tentar ‘resolvê-los’ pela via do milagre, e não pelo engajamento sócio-político. Nos ambientes religiosos com a prática de fé a que estou me referindo, as iniciativas de obras sociais são muito mais para marketing da instituição eclesiástica do que para promoção humana dos empobrecidos. Pensar na missão integral da Igreja é, por exemplo, olhar a missão da adoração como chance de permitir a revelação de Deus por meio do nosso testemunho. Precisamos aprender a ser culto, antes de prestar culto. Ou seja, fazer da vida toda um culto a Deus, e eventualmente usar a liturgia religiosa como espaço pedagógico para animar e desafiar outros a cuidarem do próximo. Precisamos guiar nossa vida pelo que Jesus ensinou no Sermão do Monte. A falta de pão na mesa do pobre é uma denúncia da ausência de espiritualidade no altar dos cristãos. Espiritualidade é vida. Uma sociedade que destrói todas as formas de vida está condenada à frieza e à morte. O gemido da natureza, a morte de tantas crianças inocentes, a fome e as guerras são uma denúncia da falta de espiritualidade de nossa geração.”

Carlos Queiroz é pastor da Igreja de Cristo da Aldeota, em Fortaleza (CE) e diretor executivo da Visão Mundial no Brasil

6- VIVA EM COMUNHÃO

“A abundância da vida cristã só pode ser experimentada por meio da mutualidade”

“As igrejas estão cheias de gente, mas vazias de relacionamentos. Parece um paradoxo, mas é exatamente assim a realidade de nossas igrejas hoje. Muitos crentes não vivenciam uma comunhão coletiva e não se empenham em construir relacionamentos. Vêem na igreja um lugar para manifestarem seus interesses pessoais, suas necessidades e conflitos. Os próprios líderes alimentam isso, quando pregam um evangelho solucionador de problemas sem, contudo, instruir seus seguidores acerca da vida abundante no corpo de Cristo. Essas pessoas gostam de cultos das multidões, mas vivem num individualismo religioso e frio, com graves conseqüências na falta de relacionamentos com Deus e com o próximo. E aí está o motivo do esfriamento na intimidade com Deus. A verdadeira fé é aquela que prioriza os relacionamentos. Quando há intimidade com o Senhor e compromisso com o Evangelho da justiça, aflora a mutualidade entre os membros do corpo de Cristo. A Igreja perdeu, de certa forma, o sentido do viver em novidade crescente de vida abundante. Essa abundância só pode ser experimentada em coletividade. O fervor individual não pode ser confundido com uma vida fora dessa coletividade, mas deve ser entendido como a relação íntima do indivíduo com seu próximo, dentro e fora dos portões da igreja.”

Battista Soarez é teólogo, educador e jornalista. Pastor batista, desenvolve diversos projetos sociais no Maranhão

7-UM BOM TESTEMUNHO VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS

“Deus deve estar em nós, nos nossos atos, nas nossas falas. É desta forma que as outras pessoas vão perceber a presença do Senhor na nossa vida”

“Muita gente fala que se deve separar a vida espiritual das chamadas atividades seculares, como o trabalho. Discordo disso. Não existe separação entre vida espiritual e secular. Estamos no mundo, embora, segundo a Escritura, não sejamos dele. O grande desafio é vivermos no mundo e não nos deixarmos contaminar por ele. Há crentes que falam em ‘1evar Deus para o ambiente profissional’. Ora, Deus deve estar em nós, nos nossos atos, nas nossas falas. É desta forma que as outras pessoas, inclusive os colegas de trabalho, vão perceber a presença do Senhor em nós e entender o que Ele é capaz de fazer em nossas vidas. Fomos chamados por Deus para o mundo, e não para as igrejas. Hoje, é moda no mundo corporativo – e muitas empresas estão investindo nisso – cultivar aspectos como o lado espiritual dos funcionários. É uma espécie de ‘sinal dos tempos’, e acho que os evangélicos deveriam aprender com isso. Em todo e qualquer lugar onde estejamos, devemos dar o correto testemunho de nossa fé.”

Paulo Angelim é crente presbiteriano, empresário do setor imobiliário e palestrante motivacional.

😯 “IDE” NÃO É UMA OPÇÃO

“O coração do Senhor pulsa pelo perdido”

“O serviço cristão, seja apresentar o Evangelho ao vizinho ou ajudar aquele que está caído ao longo do caminho, de certa forma mede nossa intimidade com Deus. Isso porque o coração do Senhor pulsa pelo perdido e pelo caído. Dietrich Bonhoeffer escreveu que ‘a Igreja é Igreja apenas quando existe para os outros’. Fomos chamados por Deus para servir. Quando esta compreensão enche o coração da Igreja, ela se torna missionária e envolvida com os desafios à sua volta. Há ainda mais de 30 mil comunidades ribeirinhas em nosso país sem o Evangelho de Cristo. Mais de cem etnias indígenas brasileiras não têm presença missionária e há cerca de 3.500 línguas e dialetos no mundo para os quais sequer um versículo da Bíblia foi traduzido. Perto e longe, vários segmentos da nossa sociedade padecem sem um testemunho objetivo do Evangelho. Muita gente não sabe como ser um missionário. Sugiro que simplesmente tentem se envolver com as pessoas que não conhecem a Cristo. Procure um projeto missionário perto de você. Saia para a evangelização dos sem-teto. Colabore na distribuição de alimentos aos carentes. Seja um voluntário em um projeto de férias no sertão. Procure conhecer missionários, saber mais sobre seu trabalho. Encoraje e invista no preparo do vocacionado ao ministério que está perto de você. Evangelize seu vizinho. Fale de Cristo a um parente. Saia de casa com folhetos nos bolsos. Enfim, use os dons que Deus lhe deu e semeie o Evangelho.”

Ronaldo Lidório é pastor presbiteriano e missionário transcultural

9- RESERVE TEMPO PARA DEUS

“O que precisamos é dar tempo e espaço para que o sagrado possa se manifestar em nossas vidas”

“Qualquer relacionamento, desde a simples amizade até o envolvimento conjugal, precisa de tempo e espaço para que a afetividade mútua possa ser expressada em atos concretos. A vida moderna está muito corrida. Todos nós chegamos ao fim de cada dia com a impressão de que alguma coisa ficou por fazer. A tirania do urgente controla nossa agenda e as coisas importantes vão ficando para trás. Aqueles que desejam zelar pelo seu fervor espiritual necessitam encontrar em sua agenda algum espaço para a quietude e o fortalecimento da vida devocional. Não estou falando de pessoas que oram no trânsito ou dentro do ônibus para ganhar tempo. Já pensou se a intimidade de um casal se resumisse aos encontros fortuitos dentro de uma condução ou ao volante do carro? O que precisamos é dar tempo e espaço para que o sagrado possa se manifestar em nossas vidas. Em Gênesis 18, lemos que Abraão sentou-se à porta de sua tenda na hora mais quente do dia – e, ao levantar os olhos, viu os três homens que caminhavam em sua direção. Deus nos visita, mas precisamos estar disponíveis para que esse encontro aconteça. Jesus mantinha uma dinâmica de vida bem interessante. Subia nos montes para orar e buscar a face do Pai. Lá, contemplava e ouvia Deus falar com ele. Descia dos montes e ia aos vales onde estavam os doentes, os possessos de espíritos maus, os paralíticos e os pobres. Quando os discípulos trabalhavam muito, Jesus os levava a um lugar à parte para descansar; mas quando queriam ficar no monte, o Mestre os conduzia aos vales, de volta às atividades do ministério. Qualquer espiritualidade saudável precisa desta alternância.”

Ronaldo Perini é pastor da Igreja Batista Central de São Bernardo do Campo (SP)

10- PODE TER CERTEZA: JESUS CRISTO É O SENHOR!

“Os crentes estão sendo ensinados a acomodar-se mais à vida terrena e à busca por valores materiais”

“As pressões da sociedade pós-moderna obscurecem a ação divina e valorizam demais o que é meramente humano. A valorização do ‘eu’ é tão forte que ameaça o sentido de comunidade e leva a um egoísmo extremo. Com a ajuda da ciência moderna e da tecnologia avançadas de nossos dias, somos levados a crer que podemos conseguir tudo sozinhos. Além disso, há uma predominância do materialismo, levando as pessoas a um consumismo desenfreado. Os reais valores da vida são substituídos por coisas e nos perdemos em busca das múltiplas chances de ser felizes, mas nunca alcançando satisfação. Como disse o psiquiatra escritor Admas Philips, ‘vivemos em uma sociedade em que é mais importante ser rico do que ter amigos íntimos; é mais importante ser famoso que amar. Isso é enloquecedor’. Por outro lado, o que está sendo pregado na maioria das igrejas evangélicas está muito distante do conteúdo bíblico-doutrinário e das experiências e conduta da Igreja primitiva. Os crentes estão sendo ensinados a acomodar-se mais à vida terrena e à busca por valores materiais – assim, sua fé assemelha-se mais a uma filosofia de bem-estar emocional e o cristianismo passa a ser uma religião puramente humanística. Deus se torna assessório, nunca o essencial da vida; o absolutismo da sua Palavra perde força diante do relativismo da necessidade humana.”

Durvalina Barreto Bezerra é diretora do Seminário Betel Brasileiro e coordenadora da Rede de Mulheres de Ação Global

Fonte: Revista Eclésia – edição 122, março 2008